ÉTICA E TECNOLOGIA
Necromancia digital: a polêmica recriação de pessoas mortas por IA
O uso de inteligência artificial para resgatar a imagem e a voz de falecidos gera debates sobre luto, direitos de personalidade e limites digitais.
A proliferação de conteúdos criados por inteligência artificial para simular a presença de figuras falecidas reacendeu um debate global sobre os limites éticos dessa tecnologia, fenômeno batizado de "necromancia digital". A discussão ganhou fôlego nesta terça-feira, 14/07/2026, após a repercussão da morte do ator Sam Neill, ocorrida em 13 de julho de 2026, que levou usuários a criarem homenagens artificiais controversas.
A prática consiste em manipular dados biométricos, vozes e traços de personalidade para gerar avatares de quem não pode mais consentir. Especialistas alertam que o uso indiscriminado dessas ferramentas transforma o luto em um produto comercial e confere a terceiros um controle sobre a imagem alheia que, muitas vezes, ultrapassa o direito à dignidade da família e do próprio falecido.
Elaine Kasket, psicóloga e autora da obra "All the Ghosts in the Machine: The Digital Afterlife of Your Personal Data", aponta que a popularização de ferramentas como ChatGPT e Claude democratizou a criação de "grief bots" ou "robôs de luto". Segundo Kasket, a indústria tecnológica tenta, erroneamente, tratar o luto como uma patologia a ser solucionada por software, quando, na verdade, esse processo é uma vivência humana fundamental que não deveria ser plataformizada.
Casos emblemáticos, como o uso de IA para recriar Elis Regina em uma campanha publicitária de 2023, ou a utilização de rostos de personalidades como Peter Cushing em produções de Hollywood, ilustram a complexidade do tema. No Brasil, o Conar chegou a investigar o uso de deepfake na publicidade, enquanto projetos legislativos que buscavam regular o setor acabaram arquivados.
O desafio central reside na falta de uma legislação específica que proteja os direitos de personalidade após a morte. Kasket sugere que o caminho seja a criação de um modelo legal que limite o uso de "restos digitais" para a personificação de terceiros, uma medida que a própria autora já incluiu como cláusula em seu testamento pessoal.
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