ALÍVIO E LUTA

Narges Mohammadi, Nobel da Paz iraniana, recebe alta hospitalar e retorna para casa sob liberdade condicional

Ativista iraniana Narges Mohammadi em foto de arquivo, vencedora do Prêmio Nobel da Paz.
A ativista iraniana Narges Mohammadi, vencedora do Nobel da Paz 2023, em foto de arquivo — Foto: Reuters

Ativista tem 18 anos de prisão a cumprir e estava em estado crítico; família exige liberdade incondicional.

Nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, as autoridades iranianas permitiram que Narges Mohammadi, laureada com o Prêmio Nobel da Paz e destacada ativista pelos direitos humanos, recebesse alta do hospital e retornasse para casa. A decisão, confirmada pela fundação da família, veio após a piora crítica de sua saúde, exigindo tratamento especializado fora do ambiente carcerário. Em um movimento que equilibra alívio e a persistente vigilância, a medida oferece um respiro à ativista que dedicou mais de duas décadas de sua vida à luta pela dignidade e liberdade no Irã, mesmo sob a ameaça dos 18 anos de prisão que ainda a aguardam.

Mohammadi, de 53 anos, estava internada há semanas depois que o regime autorizou sua transferência para um hospital. Ela desenvolveu graves problemas cardíacos e neurológicos durante os mais de 20 anos que passou em detenção. Na semana anterior, precisamente na quarta-feira, 13 de maio de 2026, seu instituto informou uma deterioração severa de sua condição cardíaca e do sistema nervoso. Exames angiográficos urgentes revelaram uma progressão significativa da doença vascular e danos cerebrais, comprometendo o controle autônomo da pressão arterial.

A condição de saúde da ativista tornou-se crítica, e após apelos de seus parentes e do próprio Comitê do Prêmio Nobel, o regime iraniano concedeu a liberdade condicional sob fiança. Uma comissão médica, indicada pelo governo, também recomendou sua liberação, declarando que, devido às suas "múltiplas doenças", ela necessitava de tratamento contínuo fora da prisão, sob os cuidados de sua própria equipe médica. No entanto, sua fundação enfatiza a necessidade de "liberdade incondicional e a retirada de todas as acusações" para que ela não retorne ao cárcere para cumprir os 18 anos restantes de sua sentença.

Mohammadi estava detida desde dezembro na prisão de Zanjan, onde, segundo seu instituto, sofreu um infarto e perdeu a consciência por duas vezes, além de desenvolver um coágulo sanguíneo no pulmão. Familiares relataram também que ela foi espancada na prisão. Desde sua hospitalização, a pressão arterial de Mohammadi oscilou perigosamente, e ela necessita de oxigênio para respirar, estando com dificuldades para falar.

Símbolo de Resiliência: O Legado Nobel de Narges Mohammadi

Há mais de duas décadas, Narges Mohammadi emerge como uma das mais veementes defensoras dos direitos das mulheres e da abolição da pena de morte no Irã, país que figura entre os maiores aplicadores dessa punição no mundo. Sua incansável militância já resultou em seis prisões, sendo a primeira há 22 anos. Desde janeiro de 2022, ela cumpre uma pena de 10 anos e 9 meses por "espalhar propaganda contra o governo" na prisão de Evin, em Teerã, conhecida por abrigar críticos do regime.

Em 2023, o mundo reconheceu sua bravura com o Prêmio Nobel da Paz. Berit Reiss-Andersen, presidente do Comitê do Nobel, declarou à época: "Narges é uma defensora dos direitos humanos e uma pessoa que luta pela liberdade. Nós queremos apoiar sua luta corajosa e reconhecer milhares de pessoas que se manifestaram contra o regime teocrático de repressão e discriminação que tem como alvo as mulheres no Irã."

Mesmo atrás das grades, Mohammadi continua sua missão como vice-diretora do Centro de Defensores dos Direitos Humanos do Irã, uma organização não governamental fundada e liderada por Shirin Ebadi, também laureada com o Nobel da Paz em 2003. Ela se tornou um dos rostos mais proeminentes da chamada "revolução feminina", a onda de protestos massivos de mulheres que varreu o Irã a partir da trágica morte de Mahsa Amini.

Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos, foi detida em setembro de 2022 pela polícia da moralidade iraniana por supostamente usar o véu de forma "incorreta". Dois dias após sua prisão, Amini foi internada em estado grave com lesões na cabeça, vindo a óbito no hospital. Sua morte desencadeou um dos mais amplos e contundentes movimentos de protesto contra o regime, ecoando a voz de milhares de iranianas que clamam por liberdade e direitos fundamentais.

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