RISCO NA AVIAÇÃO
MPT dá prazo para Anac definir norma sobre fadiga de pilotos brasileiros
Ministério Público do Trabalho exige revisão da norma de fadiga de pilotos em 30 dias. Investigação aponta riscos à segurança e à saúde mental dos tripulantes.
O Ministério Público do Trabalho (MPT) estabeleceu um prazo de 30 dias para que a Agência Nacional de Aviação (Anac) revise a norma que regula o controle de fadiga dos pilotos brasileiros. A decisão, tomada no último dia 15, busca garantir maior segurança e bem-estar aos profissionais da aviação civil.
Esta ação integra um inquérito civil com mais de 3.000 páginas, conduzido sob segredo de justiça e obtido pela CNN Brasil. O procedimento também solicita um posicionamento dos sindicatos patronais sobre o uso de substâncias psicoativas por tripulantes. A investigação do MPT teve início em 2018 e tem recebido atualizações constantes.
Controle de Fadiga em Debate
A norma atual, RBAC 117, que gerencia o risco de fadiga humana, foi implementada pela Anac em fevereiro de 2020. Antes disso, o Brasil não possuía um regulamento específico sobre o tema. Procuradores do MPT consideram a norma inconstitucional, argumentando que a jornada de trabalho deveria ser definida pelo Congresso Nacional. A regra permite que a Anac, unilateralmente, aumente jornadas e reduza períodos de descanso, gerando preocupação entre os profissionais.
Carlos Barbosa, piloto e especialista em direito aeronáutico, explica que desde a entrada em vigor da norma, têm ocorrido discussões sobre sua revisão, com encontros entre o MPT e a Anac. "Entre os principais pontos levantados pelos tripulantes estão os próprios limites máximos de jornada e horas de voo, além do descanso a bordo", afirma. A pressão por maior competitividade e lucratividade das empresas, segundo relatos, leva a jornadas mais longas e descansos menores, um cenário considerado "a receita certa para tragédias" e para o aumento de acidentes aeronáuticos.
O Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA) também expressa preocupação. Tiago Rosa da Silva, diretor-presidente do SNA, declara: "A fadiga dos tripulantes deixou de ser um tema pontual e passou a representar uma preocupação estrutural para a segurança operacional no Brasil".
Acidentes Aéreos e Fadiga: Uma Conexão Alarmante
Dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) revelam que, nos últimos dez anos, 520 acidentes aéreos no Brasil tiveram aspectos psicológicos como fatores contribuintes, resultando em 129 acidentes fatais e 272 mortes. Um Relatório Final do Cenipa sobre um acidente em 2021, que deixou 14 feridos, aponta o cansaço como possível fator contribuinte. O documento descreve um piloto relatando sentir-se cansado na segunda madrugada seguida de voo, e sugere que a rotina exaustiva pode ter limitado a capacidade da tripulação.

Um relatório do MPT sobre o acidente fatal da Voepass em junho de 2024, que vitimou 62 pessoas, também aponta a fadiga como causa provável. Entre os fatores listados estão: tempo de repouso inferior ao legal, interrupção do descanso e jornadas de trabalho terminando tarde e reiniciando muito cedo.
Profissionais relatam à CNN Brasil que "estamos voando no limite do limite do regulamento", combinando cansaço físico, estafa e estresse. Este cenário ocorre em um momento de forte crescimento da aviação brasileira, que bateu recorde de transporte aéreo com 130 milhões de passageiros em 2025. O carnaval de 2026 registrou mais de 2,1 milhões de passageiros, um aumento de 10%.
Numa realidade destas, aumenta a pressão sobre um piloto, querendo que ele trabalhe cada vez mais, descanse cada vez menos e em horários cada vez mais irregulares, sob o argumento de que as empresas precisam ser competitivas e lucrativas. É a receita certa para tragédias, para o aumento do número de acidentes aeronáuticos no Brasil.
Pilotos, que pediram anonimato por temerem represálias, descrevem lapsos operacionais causados pela estafa mental devido a escalas exaustivas. Um deles, com mais de 30 anos de voo, relata que esses eventos foram documentados, mas sem resultar em melhorias nas escalas.

Saúde Mental e o Impacto da Fadiga
Uma pesquisa interna do sindicato da categoria realizada em 2024 apontou que 95% dos entrevistados se sentiram cansados e não notificaram as companhias aéreas. Cerca de 73% não se sentem confortáveis em reportar, e mais da metade (57,63%) relatou ter dormido em serviço. O receio de serem vistos como inadequados e perderem o emprego leva muitos a evitarem buscar ajuda, reforçado por demissões de tripulantes que retornam de licença médica por saúde mental.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define burnout como resultado de estresse crônico no trabalho não gerenciado, caracterizado por esgotamento, distanciamento mental e redução da eficácia.
Preocupação Global e Respostas Institucionais
A discussão sobre saúde mental na aviação é global. Nos Estados Unidos, o projeto de lei "Lei de Saúde Mental na Aviação" foi aprovado pela Câmara em setembro de 2025, buscando evitar penalidades injustas para pilotos que buscam atendimento. O projeto aguarda votação no Senado e propõe revisões anuais de processos de saúde mental, campanhas de conscientização e contratação de mais médicos.
Procuradas, as companhias Latam, Gol e Azul não se manifestaram. O Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea), por meio da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), também não se pronunciou. A Anac informou que acompanha o tema da saúde mental e que acordos coletivos sobre jornada de trabalho estão fora de sua competência legal. O MPT reiterou a necessidade de aprimorar as regras da Anac para reduzir riscos, proibindo escalas exaustivas, madrugadas consecutivas e jornadas prolongadas, a fim de proteger a saúde dos trabalhadores e a segurança dos voos. O Ministério de Portos e Aeroportos se declarou aberto ao diálogo para preservar a segurança operacional e a saúde dos profissionais.
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