PATRIMÔNIO BIOLÓGICO DE VOLTA

Ministério da Alemanha anuncia devolução do fóssil do dinossauro Irritator ao Brasil

Crânio do dinossauro Irritator challengeri, agora em processo de devolução ao Brasil.
Crânio do dinossauro Irritator challengeri. — Foto: Kabacchi/CC/Wikipedia

Decisão foi anunciada durante visita do presidente Lula à Alemanha, com disposição do Museu de Stuttgart em restituir o crânio do Irritator challengeri, retirado ilegalmente do Ceará. Caso expõe o debate sobre colonialismo paleontológico e a importância da ciência para o desenvolvimento regional.

Uma decisão conjunta entre Brasil e Alemanha promete trazer de volta ao país o crânio do dinossauro Irritator challengeri, um fóssil com cerca de 113 milhões de anos, extraído ilegalmente da Chapada do Araripe, no Ceará. A restituição foi anunciada durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Alemanha, em abril, e sinaliza a disposição do Museu Estatal de História Natural de Stuttgart em devolver a peça ao Brasil. O caso, que se arrasta há anos, destaca a luta pela recuperação do patrimônio paleontológico brasileiro e as discussões sobre colonialismo na ciência.

O Irritator challengeri, um carnívoro do grupo dos espinossaurídeos com cerca de 6,5 metros de comprimento, viveu durante o período Cretáceo. Seu nome científico, "irritador", refere-se à adulteração sofrida pelo crânio antes de ser vendido no mercado ilegal. Paleontólogos que analisaram a peça descobriram que partes foram alongadas e preenchidas com gesso e massa automotiva para aumentar seu valor.

O fóssil chegou à Alemanha em 1991, adquirido por um museu em Stuttgart. A restituição do Irritator ganha força após o precedente bem-sucedido da devolução do Ubirajara jubatus, também oriundo da Chapada do Araripe e que esteve por anos no Museu Estatal de História Natural de Karlsruhe. A mobilização pela repatriação do Irritator contou com o apoio de cientistas e da sociedade civil, incluindo uma carta aberta ao Ministério da Ciência, Pesquisa e Artes de Baden-Württemberg e uma petição online que reuniu mais de 34 mil assinaturas.

Autoridades alemãs apresentaram inicialmente resistência, alegando que o museu adquiriu o fóssil de um comerciante privado e, portanto, seria o proprietário legítimo segundo a legislação alemã. No entanto, a declaração conjunta com o Brasil demonstra uma mudança de postura, focada na cooperação científica bilateral. Termos e prazos para a devolução ainda estão sendo negociados entre os governos.

A legislação brasileira, desde 1942, considera os fósseis propriedade da União, proibindo sua compra, venda e exportação sem autorização. A Convenção da Unesco de 1970 também combate o mercado ilícito de bens culturais. A devolução do Irritator é vista como uma oportunidade para o desenvolvimento científico e econômico da região do Cariri, fomentando a pesquisa e o turismo científico.

Críticos apontam que a saída ilegal de fósseis do Brasil perpetua o colonialismo paleontológico, onde países com menor desenvolvimento funcionam como fornecedores de material, enquanto o reconhecimento acadêmico e os benefícios financeiros se concentram no Norte Global. A paleontóloga Aline Ghilardi, da UFRN, ressalta que a luta pelo Irritator é também uma luta pela equidade na ciência e pela redistribuição de assimetrias históricas de poder.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil considera o retorno do Irritator uma vitória e uma oportunidade para a ciência brasileira, com a expectativa de que a cooperação bilateral em paleontologia inclua pesquisa conjunta, intercâmbio de especialistas e capacitação. A expectativa é que o fóssil possa, finalmente, ser visto e estudado pela população local, garantindo o direito de todas as crianças de conhecerem o dinossauro de sua região.

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