ILEGALIDADE FAZ MILHÕES
Mercado ilegal causa prejuízo recorde de R$ 514 bilhões ao Brasil em 2025, revela anuário
Setores como bebidas alcoólicas, vestuário e combustíveis lideram as perdas. Estudo aponta riscos à saúde com produtos adulterados, como o metanol.
A Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) divulgou nesta quarta-feira, 27/05/2026, o Anuário da Falsificação 2026, revelando um prejuízo recorde de R$ 514 bilhões ao Brasil em 2025. Esse valor, que representa uma alta de 8% em relação ao ano anterior, engloba perdas de arrecadação tributária e de faturamento de empresas legalmente estabelecidas, impactando diretamente a economia do país e a dignidade dos consumidores expostos a produtos de baixa qualidade e perigosos. O levantamento aponta que os três setores mais afetados pela ilegalidade foram bebidas alcoólicas, com um prejuízo de R$ 89,5 bilhões; vestuário, com R$ 55 bilhões; e combustíveis, com R$ 30 bilhões. No entanto, os danos transcenderam a esfera econômica, com produtos adulterados representando riscos sérios à saúde pública. Um exemplo alarmante foi a crise de adulteração de bebidas com metanol, que resultou em 22 mortes confirmadas entre setembro e dezembro de 2025. Criminosos produziram e comercializaram bebidas falsificadas, como vodca e gim, com embalagens e selos idênticos aos originais, mas contendo metanol, uma substância tóxica utilizada na fabricação de tintas e vernizes. A ingestão deste produto pode gerar sequelas graves e até a morte. Forças-tarefas da Polícia Federal, Polícia Civil e Vigilância Sanitária atuaram em operações interestaduais para desmantelar as fábricas clandestinas e interditar estabelecimentos irregulares, buscando proteger a vida e a saúde da população. O setor de bebidas alcoólicas é um dos que mais preocupam as autoridades, com uma estimativa de que 36% das bebidas comercializadas no Brasil sejam falsificadas, adulteradas, fraudadas ou contrabandeadas. Entre os destilados, o mercado ilegal já representa 28% do volume total de vendas. Em resposta à gravidade do problema, a Câmara dos Deputados aprovou em outubro do ano passado um projeto de lei que torna crime hediondo a falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de substâncias ou produtos alimentícios, suplementos e bebidas, com pena prevista de quatro a oito anos de reclusão. O Estado de São Paulo se destaca como centro do mercado ilegal no país, concentrando 40% das perdas nacionais, equivalentes a R$ 205,6 bilhões. A presença do crime organizado nesses setores da economia formal, ligada ao fortalecimento de facções criminosas, evasão fiscal e fragilidade na fiscalização, é um dos fatores que impulsionam o problema, segundo Rodolpho Ramazzini, advogado especializado em combate à fraude e diretor da ABCF. Paralelamente, o número de operações de repressão cresceu 12% entre 2024 e 2025. Outros setores com perdas significativas incluem material esportivo (R$ 32 bilhões), perfumaria (R$ 22,8 bilhões), defensivos agrícolas (R$ 22 bilhões), medicamentos (R$ 16,8 bilhões) e ouro (R$ 13,8 bilhões), demonstrando a amplitude do impacto da ilegalidade no mercado nacional. O anuário também ressalta a persistência do contrabando de cigarros, provenientes principalmente do Paraguai, que representa cerca de 32% do consumo nacional e gera uma evasão fiscal superior a R$ 11 bilhões anuais. O envolvimento do crime organizado nessas atividades agrava o problema, com facções criminosas transnacionais atuando na fabricação clandestina e distribuição ilegal. No setor farmacêutico, o mercado ilegal de medicamentos movimenta R$ 16,8 bilhões por ano, um aumento de 46% em relação a 2024. A alta é impulsionada pela demanda por medicamentos da classe GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro. As perdas associadas a esse mercado paralelo em 2025 foram estimadas em mais de R$ 4,6 bilhões, devido a falsificações diretas, manipulações industriais proibidas e venda de substâncias sem registro, como a retatrutida, colocando em risco a saúde dos pacientes que buscam tratamentos seguros e eficazes.
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