DECISÃO MÉDICA CRUCIAL

Medicina brasileira discute alta complexidade em transplantes para garantir dignidade

Médicos realizando um procedimento cirúrgico complexo de transplante em uma sala de hospital.
Médicos em sala de cirurgia, um ambiente de alta complexidade para procedimentos de transplante.

Especialistas debatem critérios técnicos e éticos para procedimentos de risco elevado, buscando preservar vidas com tecnologia e cuidado humanizado.

{"blocks":[{"type":"paragraph","data":{"text":"A medicina brasileira tem aprimorado a avaliação de casos de alta complexidade em transplantes, uma decisão crucial que impacta diretamente a dignidade e o futuro de pacientes em quadros de saúde graves. A definição sobre a realização ou não de um procedimento envolve a análise de múltiplos fatores, incluindo o risco iminente de morte e a necessidade de tecnologias especializadas, conforme explica o pneumologista José Eduardo Afonso Júnior, coordenador médico do Programa de Transplantes do Einstein Hospital Israelita. A relevância dessa discussão reside na busca por garantir que cada decisão médica priorize a preservação da vida e a qualidade do bem-estar do indivíduo."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A complexidade de um transplante é determinada por diversas condições. Em alguns casos, o risco é tão elevado que a equipe médica opta por não prosseguir com o procedimento. "É comum que a população considere que os transplantes são sempre a melhor saída, mas isso não é verdade", pondera o médico Gustavo Fernandes Ferreira, presidente do conselho consultivo da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Ele ressalta que a avaliação é sempre individual, com o objetivo de assegurar a melhor condição de saúde para o paciente, exemplificando com o transplante renal, onde a diálise pode ser, em certas situações, uma alternativa mais vantajosa a longo prazo."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Procedimentos envolvendo órgãos como coração e pulmões são intrinsecamente mais complexos pela natureza da cirurgia. Já a urgência marca os transplantes de fígado, essenciais em casos de insuficiência hepática aguda grave e hepatite fulminante, que podem ser fatais em poucos dias. "Em alguns casos, os transplantes de fígado ocorrem de forma combinada, como fígado e pulmão e fígado e coração, já que a falência desse órgão debilita outros", detalha o cirurgião Eduardo Fernandes, coordenador de transplante multivisceral e de transplantes combinados do Centro Nacional de Transplantes Complexos (CNTc), no Rio de Janeiro. Esta abordagem combinada visa mitigar o impacto sistêmico da falência de um órgão, protegendo outros vitais."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"O planejamento prévio é extenso e considera comorbidades como pressão alta e diabetes, que podem influenciar diretamente a escolha e o sucesso do tratamento. "Pessoas com diabetes muitas vezes desenvolvem lesões nos rins que levam à necessidade do transplante, mas o diabetes afeta também o pâncreas, onde se produz a insulina, então a própria doença de base pode levar a uma complexidade ou até a necessidade de um transplante combinado", explica o cirurgião Marcos Freire, diretor-geral do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A terapia imunossupressora, fundamental para evitar a rejeição do órgão transplantado, eleva o risco de infecções e o surgimento de condições como colesterol alto e certos tipos de câncer. Essa realidade exige acompanhamento contínuo e cuidadoso. "Ser uma pessoa transplantada acaba levando a uma série de complicações de saúde que consideramos desde a avaliação pré-transplante. É por isso que, se o paciente tiver tido câncer recentemente ou se tem alguma doença crônica prévia, como uma disfunção renal, muitas vezes desaconselhamos que seja feito o procedimento", afirma o médico do Einstein."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Outro fator de complexidade surge em casos de hipersensibilização, quando pacientes com transplante renal possuem um alto nível de anticorpos, dificultando a busca por um doador compatível. Para esses indivíduos, é necessário um complexo tratamento de dessensibilização com medicamentos e procedimentos específicos, como aponta Afonso Júnior."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Retransplantes também apresentam desafios significativos. "Quando um paciente já fez um transplante, ele tem mais anticorpos circulando em seu organismo, o que torna mais complexo encontrar um doador compatível", relata Ferreira, da ABTO. Ele adiciona que dificuldades cirúrgicas, como a presença de tecido cicatricial ao redor do órgão transplantado, elevam a complexidade desses procedimentos."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A realização de transplantes de alta complexidade demanda infraestrutura avançada, com equipamentos sofisticados, equipes dedicadas, bancos de sangue e unidades de terapia intensiva (UTI). Marcos Freire, da UFRJ, destaca que a aquisição e manutenção de equipamentos caros, além da formação de equipes multidisciplinares, representam barreiras para a criação de centros especializados, levando, por vezes, à necessidade de procedimentos no exterior por questões de segurança."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"O Programa de Transplantes do Einstein, integrado ao Proadi-SUS desde 2009, tem focado no triênio 2024-2026 em aprimorar processos em outros centros transplantadores. Seis centros públicos indicados pelo Ministério da Saúde, focados em transplantes de coração e fígado, participam dessa iniciativa, que já viabilizou mais de 5 mil transplantes pelo SUS desde 2002."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Avanços tecnológicos, como novos exames para seleção imunológica e genética de órgãos e algoritmos de inteligência artificial para prever complicações, reduzem a complexidade e o risco de rejeição. Máquinas de preservação de órgãos também aumentam sua disponibilidade fora do corpo e o tempo para avaliação, como detalha Afonso Júnior."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Apesar dos avanços, as filas de espera, especialmente para transplantes complexos, representam um obstáculo severo. Estima-se que quatro em cada dez pacientes à espera de um transplante pulmonar falecem antes de serem transplantados. "Temos o melhor e mais democrático sistema de transplantes do mundo, mas temos trabalhado para ampliar o acesso aos transplantes complexos e fortalecer a capacidade nacional de atendimento", conclui Gustavo Ferreira, enfatizando a importância de critérios rigorosos na seleção de receptores e na capacidade de atendimento nacional."}}]}

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