MÃES NA POLÍTICA
Maternidade: Julgamento desafia mulheres na política
Apesar de licença ampliada, parlamentares relatam ataques e barreiras. Impacto na dignidade e representação feminina.
Apesar de avanços legislativos que ampliaram a licença-maternidade em diversas Assembleias Legislativas e no Congresso, a maternidade persiste como um obstáculo significativo para a plena participação feminina na política. Nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026, parlamentares de todo o país reforçaram que ainda enfrentam julgamentos, ataques e barreiras estruturais para conciliar a vida pública com os cuidados maternos. Esta realidade, que mina a dignidade e a representação equitativa das mulheres em cargos eletivos, penaliza-as por desempenharem uma função social vital, dificultando sua permanência e ascensão na esfera pública.
A deputada estadual Marina Helou, atualmente no PSB e pré-candidata à Câmara dos Deputados, relembra que um colega previu que ela “nunca vai se reeleger” ao anunciar, em 2019, a gravidez de sua filha Lara. Tal reação contrastou fortemente com a de outro parlamentar, que, na mesma reunião, apenas recebeu cumprimentos ao informar sobre a gravidez de sua esposa.
Marina afirma que a maternidade foi o epicentro das críticas desde a campanha de 2018, quando concorreu com o filho Martin ainda bebê. “Ou falavam que eu não podia estar fazendo campanha com um bebê tão pequeno ou, se eu o deixava em casa, que eu estava sendo uma mãe ruim”, relatou à Folha de S.Paulo.
Essa percepção de julgamento constante é compartilhada por mulheres de diferentes partidos e regiões do país. Especialistas apontam que este ambiente hostil desestimula potenciais candidatas, mesmo em um cenário de crescente interesse do eleitorado por lideranças femininas.
Nos últimos dez anos, ao menos 13 Assembleias Legislativas aprovaram normas para regulamentar ou ampliar a licença-maternidade para deputadas estaduais. Contudo, a situação ainda é desigual. Maranhão, Amapá e Goiás, por exemplo, informaram não ter regra específica. Em outros estados, a regulamentação não foi localizada ou não houve resposta aos questionamentos da reportagem da Folha de S.Paulo.
A deputada mineira Ana Paula Siqueira, hoje filiada ao PT, descobriu em 2019 que a Assembleia Legislativa de Minas Gerais não possuía uma norma interna regulamentando o afastamento de parlamentares gestantes. Grávida do terceiro filho, precisou recorrer à Mesa Diretora e ao setor jurídico para assegurar o direito aos 120 dias de licença. A regulamentação foi aprovada quatro meses após o nascimento do bebê.
Para a professora da FGV Direito São Paulo, Luciana Ramos, a ausência de regras claras gera insegurança jurídica para as parlamentares. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ela enfatizou que a proteção à maternidade deve ser expressamente assegurada para garantir que as mulheres retornem ao mandato “nas mesmas condições que os outros”.
A cientista política Débora Thomé ressalta que a maternidade frequentemente coincide com o período de maior atividade política de muitas mulheres. “Como faz quando não há licença-maternidade?”, indaga.
No Congresso Nacional, a ex-deputada federal Áurea Carolina relatou que, em 2020, teve de apresentar uma petição para que a Câmara corrigisse faltas registradas durante sua licença após o nascimento do filho Jorge. “Para mudar essas coisas é quase que uma revolução feminista”, declarou à Folha de S.Paulo.
A ex-deputada gaúcha Manuela d’Ávila também contribuiu para visibilizar o tema ao amamentar a filha no plenário da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, em 2016. Segundo ela, a cena expôs a carência de políticas adequadas para mães em ambientes legislativos.
Parlamentares de diversos campos ideológicos relatam experiências semelhantes. A deputada federal Júlia Zanatta afirma ter-se sentido desrespeitada ao ser criticada por levar a filha bebê a um ato político em Brasília. “Foi bastante desgastante esses ataques que sofri”, desabafou.
No Rio de Janeiro, a vereadora Joyce Trindade, pré-candidata a deputada estadual pelo PSD, questiona o padrão ainda imposto às mulheres. “Qual mulher queremos na política: a que deseja ser mãe ou apenas a que já tem a vida pessoal resolvida?”, perguntou à Folha de S.Paulo.
Para a cientista política Flávia Biroli, a carência de políticas de apoio penaliza as mulheres por desempenharem uma função essencial à sociedade. “Não seria justo prejudicá-las em suas carreiras, na política incluída, por estarem cuidando de um recém-nascido”, concluiu.
Embora avanços institucionais tenham ocorrido nos últimos anos, os relatos evidenciam que o desafio transcende a legislação. A permanência das mulheres na política depende não apenas de regras formais, mas também de uma mudança cultural profunda que reconheça a maternidade como parte legítima e valorizada da trajetória de lideranças públicas.
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