PALANQUE ELEITORAL

Marcha para Jesus é marcada por discursos políticos em SP

Multidão participa da Marcha para Jesus, evento religioso que também serviu de palanque eleitoral.
Marcha para Jesus em São Paulo vira palco de manifestações políticas.

Evento evangélico em São Paulo, maior do País, teve manifestações políticas e ataques ao governo federal, apesar de promessa de neutralidade dos organizadores.

A tradicional Marcha para Jesus, o maior evento evangélico do Brasil, realizada nesta sexta-feira, 05/06/2026, em São Paulo, foi marcada por discursos de cunho eleitoral, quebrando o compromisso firmado pelos organizadores de manter o evento livre de conotações partidárias. A celebração, que atrai milhares de fiéis, tornou-se palco para debates políticos, impactando a natureza de fé e comunhão que o evento deveria promover. Em um cenário onde a espiritualidade se entrelaça com a esfera pública, a decisão de transformar um ato de fé em um espaço para campanhas levanta questionamentos sobre a integridade e o propósito de tais manifestações. O evento ressalta a complexa relação entre religião e política no País, gerando debates sobre a ética e a liberdade de expressão em espaços sagrados.

Na capital paulista, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, usou um trio elétrico para proferir declarações contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Bolsonaro associou a disputa política a uma batalha espiritual, clamando pela expulsão de forças que, em sua visão, representam o mal. "Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso desse governo do Brasil este ano. Em nome do senhor Jesus, amém", declarou o senador.

Marcha para Jesus em São Paulo

A fala do senador ocorreu na presença do advogado-geral da União, Jorge Messias, que representava o presidente Lula no evento. Lula, que não compareceu à Marcha, justificou sua ausência por meio de um telefonema a Messias e ao apóstolo Estevam Hernandes, líder da Igreja Apostólica Renascer em Cristo e um dos organizadores da celebração. Em sua mensagem, reproduzida em viva-voz, o presidente afirmou que prefere não participar de celebrações religiosas em períodos eleitorais para evitar a percepção de aproveitamento político de momentos sagrados. Ele também expressou satisfação com a realização do evento e relembrou ter sancionado, em 2009, a lei que estabelece o Dia Nacional da Marcha para Jesus.

O distanciamento de Lula do evento ocorre em um contexto de baixa identificação do eleitorado evangélico com o PT. Em edições anteriores, Jorge Messias já havia sido vaiado ao representar o governo federal. Na véspera da Marcha, Estevam Hernandes havia assegurado que não haveria espaço para discursos políticos, mas admitiu uma tendência de apoio a Flávio Bolsonaro na disputa presidencial, citando o quadro polarizado como justificativa.

A caminhada, que teve início na Estação da Luz, no centro de São Paulo, seguiu por cerca de 3,5 quilômetros até a Praça Heróis da Força Expedicionária Brasileira. O percurso contou com oito trios elétricos e foi finalizado com shows de artistas gospel. A estimativa de público divergiu entre os organizadores, que apontaram 2 milhões de participantes, e um levantamento da USP em parceria com a More in Common, que registrou 33,8 mil pessoas no pico, com margem de erro de 12%. Após os discursos, Flávio Bolsonaro voltou a falar, pedindo orações pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e reforçando a relação do Brasil com Israel.

A participação de Flávio Bolsonaro surpreendeu, pois não estava prevista em sua agenda de discursos, que incluía apenas o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o prefeito da capital, Ricardo Nunes. Após as falas, Jorge Messias criticou o tom eleitoral: "Hoje é o dia de louvar e adorar a Deus, não é dia de comício. Eu vim aqui com esse espírito. As pessoas vão julgar o comportamento e a declaração de todos que estão aqui. Não sou eu que vou julgar. Jesus nos ensina a não julgar", declarou.

Questionado sobre a possibilidade de reapresentação de Lula ao STF, Messias afirmou que o tema está "nas mãos de Deus". O ministro do STF André Mendonça também marcou presença. No trio principal, Messias manteve distância de Bolsonaro e de Freitas, que participou de momentos musicais. Ricardo Nunes destacou pautas como defesa da família e proteção à vida. Ao final, autoridades e líderes religiosos se ajoelharam em oração conjunta. O evento também foi palco do primeiro encontro público entre Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas após a operação policial que investiga supostas irregularidades envolvendo uma ONG ligada a uma produtora de cinema, em São Paulo.

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