SAÚDE EM COLAPSO

Maior hospital do RN atende uma vítima de acidente de moto a cada 3h

Acidente de moto no viaduto de Ponta Negra, Natal
Moto atingida por poste no viaduto de Ponta Negra, na Zona Sul de Natal. — Foto: Vinícius Marinho/Inter TV Cabugi/ARQUIVO

Observatório do LAIS/UFRN, divulgado nesta terça-feira, 05 de maio de 2026, detalha a sobrecarga no maior pronto-socorro do RN com 58 atendimentos semanais de acidentes de moto. Impacto nos custos e equipes é alarmante.

O Hospital Walfredo Gurgel, maior pronto-socorro do Rio Grande do Norte, enfrenta uma realidade alarmante, atendendo uma vítima de acidente de motocicleta a cada três horas. Este dado preocupante foi revelado nesta terça-feira, 05 de maio de 2026, no "Observatório de vigilância sobre violência no trânsito", um novo documento divulgado pelo Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/UFRN) e entregue à Secretaria de Saúde Pública do RN (Sesap). A iniciativa mapeia a crescente demanda de traumas no trânsito e busca subsidiar políticas públicas eficazes, alertando para a sobrecarga crítica do sistema de saúde e os altos custos sociais e econômicos para o estado.

A revelação do LAIS/UFRN integra uma nova funcionalidade ao sistema Protocolo Eletrônico do Paciente (PEP Mais RN), reforçando o compromisso com a análise e gestão de dados em saúde.

O relatório, entregue formalmente à Sesap, mapeia de forma detalhada a situação do principal pronto-socorro do estado em relação ao fluxo contínuo de vítimas de acidentes de trânsito.

Em comunicado, a Sesap reconheceu que os dados "evidenciam a pressão contínua exercida sobre o hospital", um cenário que, além das irreparáveis perdas de vidas, "gera custos elevados para o sistema público de saúde".

A pasta sublinha que essa média não só demonstra a intensidade da demanda, mas, "sobretudo, a natureza ininterrupta desse fluxo", impactando diretamente a capacidade operativa das equipes assistenciais, especialmente nas alas cirúrgicas e de ortopedia.

Um dos episódios mais recentes de fatalidade no trânsito ocorreu em abril de 2026, envolvendo um motociclista e uma viatura da PM em Natal. Veja um registro abaixo:

Um Trauma a Cada Três Horas

Os números do observatório são alarmantes: uma média semanal de 58 atendimentos de vítimas de acidentes de moto no Walfredo Gurgel. Essa proximidade com as 60 ocorrências semanais é designada no documento como "Barreira dos 60", um limiar que inspira grande preocupação.

"Na prática, o hospital recebe um novo trauma de motos a cada três horas, ininterruptamente. Qualquer variação acima sobrecarrega as salas de cirurgias e as equipes de ortopedia", explicou Ricardo Valentim, pesquisador do LAIS e um dos autores do relatório.

O documento ainda aponta que essa média semanal coloca o Hospital Walfredo Gurgel "operando no limite crítico de sua capacidade", necessitando de uma resposta urgente e coordenada.

Desde janeiro de 2025, o levantamento rastreia esses indicadores. O pico de internações foi registrado em dezembro de 2025, com 304 entradas no mês, o que representa um fluxo de 10 pacientes por dia e um aumento de 20% em relação à média. O menor índice ocorreu em abril de 2026, com 211 casos.

Para o LAIS, os dados fornecidos pelo observatório são fundamentais para nortear a criação de medidas eficazes que otimizem o funcionamento das unidades hospitalares e mitiguem os impactos dessa crise.

A "cadência do trauma", e não apenas o total mensal, é apontada como o dado mais alarmante: "O hospital não tem 'respiro': a cada 180 minutos, o sistema de trauma é acionado para um novo motociclista", frisa o documento, evidenciando uma pressão constante e exaustiva.

A recomendação do LAIS é que o estoque de órteses, próteses e materiais especiais seja calculado para atender à "Barreira dos 60", assegurando que, "mesmo em semanas de desvio padrão positivo (picos de 65+ pacientes), o tempo de resposta cirúrgica não seja comprometido".

Impacto Social e Políticas Públicas Urgentes

O pesquisador Ricardo Valentim reforçou que o elevado número de acidentes é grave e configura um problema endêmico, gerado pela violência no trânsito.

"Precisa de maior atenção das autoridades, tanto do poder público, da classe política, para que a gente consiga elaborar um processo de maior regulação, principalmente sobre aquelas pessoas que trabalham utilizando motocicletas", enfatizou Valentim.

Ele destacou que o transporte por motocicletas expõe mais o trabalhador, mas faz parte do cotidiano da cidade e exige uma formulação robusta de políticas públicas. "É um tipo de trabalho que precisa de maior educação no trânsito, maior cuidado, maior atenção e não pode ser negligenciado esse modelo regulatório ou esse processo de regulação, principalmente pelos formuladores de política pública, porque nós estamos aumentando o número de pessoas com sequelas vítimas de acidente, principalmente motos", argumentou o pesquisador, alertando para as consequências a longo prazo na dignidade e qualidade de vida dos cidadãos.

O Posicionamento da Sesap

A Sesap reiterou que os investimentos em tecnologia da informação, como o observatório, permitem um "salto qualitativo na produção de informações" para análises mais robustas e confiáveis, fortalecendo a criação de estudos técnicos.

Esse cenário, segundo a pasta, "oferece subsídios concretos para a formulação de políticas públicas mais eficazes, voltadas à redução da violência no trânsito".

A secretaria afirmou que a violência no trânsito "já se consolida como uma grave questão de saúde pública", indo "além do impacto irreparável na perda de vidas" ao "gerar um elevado custo para o sistema público de saúde, mobilizando recursos humanos, estruturais e financeiros de forma contínua e crescente".

Os dados referentes ao Hospital Walfredo Gurgel, apesar de cruciais, representam "apenas uma fração importante dessa realidade", segundo a Sesap, que ressalta a complexidade do problema.

Para a pasta, os números "devem ser compreendidos como um indicativo relevante, porém parcial, de um problema ainda mais amplo e complexo, reforçando a necessidade de estratégias integradas, intersetoriais e sustentadas por dados qualificados para o enfrentamento efetivo da violência no trânsito no estado".

Cenário Agravante: CNH e Frota

Um levantamento do Departamento de Trânsito do RN (Detran), realizado em 2025, trouxe à tona que metade dos proprietários de motocicletas, ciclomotores, motonetas e triciclos no estado não possuía Carteira Nacional de Habilitação (CNH), totalizando mais de 340 mil pessoas nessa situação.

O Detran também informou, no ano passado (2025), que o número de motocicletas em circulação ultrapassou, pela primeira vez na história do Rio Grande do Norte, o total de carros, com mais de 680 mil veículos de duas rodas registrados.

A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do RN (Sesed) complementou esse panorama crítico ao revelar, também no ano passado (2025), que mais de 60% das mortes fatais em acidentes de trânsito no Rio Grande do Norte em 2024 envolveram motocicletas, destacando a vulnerabilidade dos condutores.

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