ALÍVIO NAS TARIFAS

Lula e Trump: grupo de trabalho evita tarifas e busca alívio comercial

Ilustração mostra os perfis de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, indicando os principais temas da reunião entre os presidentes dos EUA e do Brasil.
5 pontos sobre a reunião de Lula e Trump

Decisão da sexta-feira, 08/05/2026, garante 30 dias de diálogo e suspensão da ameaça de sanções a produtos brasileiros. Encontro abordou também minerais críticos e combate ao crime organizado.

Os presidentes Donald Trump, dos EUA, e Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, decidiram nesta sexta-feira, 08/05/2026, criar um grupo de trabalho para debater a questão tarifária entre os dois países. A medida visa evitar a imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros, garantindo um alívio temporário para o setor exportador do país, que aguardava com apreensão o desfecho de investigações comerciais.

Essa resolução emergiu após a reunião bilateral, onde assessores do presidente Lula expressaram a crença de que um dos objetivos centrais foi alcançado: ganhar tempo e afastar a ameaça de novas barreiras econômicas a poucos meses das eleições presidenciais norte-americanas. A decisão representa um respiro para empresas e trabalhadores brasileiros, que lidam com a incerteza de possíveis sanções que poderiam encarecer produtos e reduzir a competitividade no mercado dos Estados Unidos.

Apesar de muitas tarifas impostas por Trump a produtos brasileiros terem sido retiradas nos últimos meses, o Brasil ainda é alvo de duas investigações com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, que apura supostas práticas comerciais irregulares. Uma dessas investigações tem prazo para terminar em julho e poderia, em tese, culminar em mais tarifas antes mesmo dessa data. Contudo, o governo brasileiro entende que o estabelecimento do grupo de trabalho, com prazo inicial de conclusão em 30 dias, posterga essa possibilidade.

Após o encontro, líder brasileiro falou à imprensa na embaixada do Brasil em Washington — Foto: Reuters via BBC

Interlocutores do presidente Lula, familiarizados com o teor do encontro, afirmam que a questão tarifária foi o único ponto de discórdia entre as equipes técnicas. O representante-geral de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, teria "tensionado" parte da reunião, argumentando que a tarifa média brasileira sobre produtos importados dos Estados Unidos permanecia alta, justificando novas taxas sobre exportações do Brasil.

Um assessor do presidente Lula, ouvido em caráter reservado, descreveu Greer como o "policial mau" das negociações, uma postura já esperada pela equipe brasileira devido à notória defesa de Greer por políticas tarifárias. No entanto, a delegação brasileira avalia que a intervenção de Trump, que acatou a proposta de criar o grupo de trabalho, amenizou a situação.

A equipe econômica brasileira, composta pelos ministros da Fazenda, Dario Durigan, e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, interveio, apontando que o Brasil registrou um déficit de, no mínimo, US$ 20 bilhões na balança comercial com os Estados Unidos nos últimos anos. Nos cálculos dos próprios norte-americanos, segundo Rosa, esse déficit seria ainda maior: US$ 30 bilhões. Para o governo brasileiro, tais dados desqualificam a aplicação de sanções a um parceiro comercial com o qual os EUA mantêm superávit.

Viagem de Lula aos EUA foi marcada de forma 'relâmpago' — Foto: Reuters via BBC

O que é a Seção 301

A Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 é um instrumento legal que permite a Washington investigar práticas estrangeiras consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas e produtos americanos. Conduzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), o procedimento pode levar a retaliações, como tarifas adicionais sobre exportações brasileiras.

A investigação abrange temas variados, incluindo políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, ao sistema Pix, regras de proteção de dados, propriedade intelectual, acesso do etanol americano ao mercado brasileiro, tarifas preferenciais a outros parceiros, combate à corrupção e desmatamento ilegal. O governo americano avalia que essas práticas podem criar barreiras ou distorções que prejudicam a competitividade de suas empresas no Brasil.

A lei autoriza o governo americano a investigar unilateralmente atos, políticas ou práticas de outros países que "onerem ou restrinjam" o comércio dos Estados Unidos. Caso o USTR conclua que houve prejuízo e que as medidas estrangeiras são "injustificáveis" ou "irracionais", a lei permite a adoção de medidas de retaliação. Este instrumento ganhou notoriedade ao embasar o "tarifaço" imposto pelos EUA à China durante o primeiro mandato de Donald Trump.

O governo brasileiro contesta a investigação, alegando que suas políticas são transparentes, não discriminatórias e compatíveis com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). O Itamaraty reitera que a Seção 301 é unilateral e incompatível com o sistema multilateral de solução de controvérsias. A apuração segue um rito formal, podendo se estender por cerca de um ano, e o principal impacto até sua conclusão é a incerteza para exportadores e investidores.

Surpresa: terras raras

Um dos pontos que mais chamou a atenção da equipe brasileira foi a postura de Trump e sua equipe em relação aos minerais críticos. Integrantes da comitiva presidencial relatam que Trump demonstrou um interesse mediano pelo assunto, o que contrariou a expectativa de que este tópico dominaria parte do debate norte-americano.

Nos últimos meses, técnicos brasileiros e norte-americanos mantiveram reuniões sobre o tema, e uma proposta dos EUA chegou a ser enviada. Desde o início do governo Trump, Washington busca diminuir a dependência da China no acesso a minerais críticos, como as terras raras, essenciais para a transição energética e produtos de alta tecnologia.

Nesse cenário, o Brasil é visto como um parceiro estratégico, pois detém a segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo. Em março, os EUA promoveram um fórum sobre minerais críticos e firmaram um protocolo de intenções com o governo de Goiás.

A equipe brasileira preparou documentos para atualizar os norte-americanos sobre o andamento do marco legal para a exploração desse material. Nesta semana, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), estabelecendo os primeiros parâmetros legais do Brasil sobre o tema.

Para o Brasil, a criação da política, que deve ser chancelada pelo Senado em breve, é um trunfo a ser apresentado aos norte-americanos. Em coletiva, o presidente Lula afirmou que o Brasil está aberto a investimentos dos EUA no setor, desde que não se limitem à exportação de matéria-prima, mas priorizem o beneficiamento em território nacional.

Apesar das expectativas, nenhum acordo formal sobre minerais críticos foi assinado. A avaliação da equipe brasileira é que a postura de Trump durante a reunião pode refletir o fato de que os norte-americanos já estão avançando em projetos de extração, a exemplo da compra de uma mineradora de terras raras em Goiás por uma empresa dos EUA, divulgada em abril.

Crime organizado

A pauta do combate ao crime organizado e a tentativa de evitar que os EUA classificassem facções brasileiras como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais era uma prioridade do governo brasileiro.

Trump recebeu Lula na Casa Branca, mas não houve declaração conjunta — Foto: Ricardo Stuckert/PR via BBC

Segundo Lula e um interlocutor familiarizado com o encontro, a possível designação das facções brasileiras não foi debatida na reunião. "Não discutimos isso. O que eu queria dizer eu entreguei por escrito. Cada assunto que eu discuti com o presidente Trump, além dos ministros falarem, eu entreguei a ele cada proposta nossa escrita em inglês. Para que ele não tivesse dúvida sobre o que nós queremos, porque estamos levando muito a sério essa questão do crime organizado", disse Lula.

A intenção de designar as facções como organizações terroristas havia sido expressa pelos EUA no início do ano, mobilizando a diplomacia brasileira para um recuo temporário. O governo alega que tal medida abriria brechas para ações militares, policiais e de inteligência norte-americanas em território nacional, similar ao que ocorre em outras regiões.

Durante o almoço entre as delegações, o Brasil entregou uma nova proposta de cooperação internacional focada em dois eixos: combate à lavagem de dinheiro que financia organizações criminosas e tráfico de armas. A proposta será analisada pelo governo norte-americano, mas ainda sem prazo para resposta.

Lula mencionou em coletiva a ideia de criar um grupo internacional com países da América Latina e outras regiões para combater carteis. Ele citou o centro em Manaus que reúne forças de segurança da Amazônia como exemplo. "Eu disse a ele que estamos dispostos a construir um grupo de trabalho com todos os países da América Latina e quiçá, com todos os países do mundo, para criarmos um grupo forte de combate ao crime organizado", concluiu Lula.

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