CRÍTICA A POTÊNCIAS

Lula critica encolhimento da solidariedade internacional e protecionismo no G7

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursando em um pódio em Évian, França, durante a cúpula do G7.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursa em cúpula do G7 em Évian, França.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobra países ricos por omissão em crise global e aponta protecionismo. Denuncia queda em ajuda ao desenvolvimento e financiamento de programas sociais.

A sessão ampliada da cúpula do G7, realizada nesta terça-feira, 16/06/2026, em Évian, foi palco para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tecer críticas contundentes à retração da solidariedade internacional e ao protecionismo. Em seu discurso, Lula apontou a omissão dos países ricos diante da crise global de desenvolvimento e atacou, sem nomear diretamente, o neoliberalismo e as políticas comerciais protecionistas, em especial as associadas ao governo de Donald Trump, um dos participantes do evento. "Os desafios se multiplicam, mas a solidariedade internacional encolhe", declarou Lula. A fala ressaltou um padrão histórico em suas participações em cúpulas internacionais, como a décima de sua trajetória em eventos do G7/G8, iniciada em 2003. Ele lamentou a falta de respostas coletivas e duradouras aos problemas globais enfrentados ao longo dos anos. O presidente brasileiro apresentou uma análise crítica das últimas décadas de política econômica mundial, indicando que a adesão a dogmas como desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade fiscal acentuaram a desigualdade econômica e a crise política nas democracias. Para Lula, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas equivocadas à complexidade dos problemas atuais. Para ilustrar o retrocesso na cooperação, Lula apresentou dados alarmantes: a ajuda oficial ao desenvolvimento sofreu uma queda histórica de 23% no ano anterior, o Programa Mundial de Alimentos teve seu financiamento reduzido em cerca de 40%, e a Organização Mundial da Saúde e o Unicef viram seus orçamentos diminuírem em mais de 20%. "Não são cifras abstratas. Elas impactam diretamente o cotidiano dos habitantes de países em desenvolvimento", pontuou. Embora os dados não tenham sido verificados de forma independente pela Folha, a retórica visava, de forma implícita, os cortes na ajuda externa promovidos pelo governo Trump. Em uma defesa de maior redistribuição de recursos, Lula destacou que o mundo em desenvolvimento transfere anualmente US$ 1,4 trilhão em serviço da dívida, um valor sete vezes superior à ajuda recebida de países ricos. Ele clamou por um sistema financeiro que não force países a escolher entre honrar credores e alimentar sua população. Na esfera climática, o presidente defendeu o aumento do financiamento global para pelo menos US$ 1,3 trilhão ao ano e criticou o ritmo lento de implementação do Acordo de Paris. "A COP30 voltou a evidenciar a distância entre os compromissos assumidos pelos países desenvolvidos e os recursos efetivamente mobilizados para cumpri-los", observou. Lula também mencionou iniciativas brasileiras, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e a Aliança Global contra a Fome, e defendeu a participação de países ricos em minerais críticos nas etapas de maior valor agregado das cadeias produtivas de inteligência artificial e transição energética. O discurso, embora com recados diretos a Trump e críticas ao unilateralismo e protecionismo, evitou menções explícitas ao líder americano. Uma reunião com o presidente dos EUA foi descartada pelo Planalto, que considera não haver sentido em um novo encontro para reiterar posições já conhecidas, como a objeção à tarifa sobre produtos brasileiros. Na agenda de terça-feira, 16/06/2026, Lula também tem prevista uma reunião com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa. O encontro, o mais aguardado pelo lado brasileiro em Évian, ocorre em meio à tensão pela suspensão de importações de carne brasileira pela União Europeia. Na véspera, Costa indicou um "diálogo construtivo", mas ressaltou a necessidade de cumprimento das normas sanitárias.

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