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Lula articula com Trump sobre terras raras e Brasil mira soberania tecnológica
País tem 2ª maior reserva global e projeta fundo de R$ 5 bilhões para industrialização.
A segunda maior reserva de terras raras do mundo posiciona o Brasil no epicentro de uma disputa geopolítica global, impulsionada pelo avanço tecnológico e pela corrida por energia limpa. Nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, o presidente Lula reforçou o papel estratégico do Brasil, expressando a expectativa de que os Estados Unidos, sob Donald Trump, busquem parceria com o país neste setor vital, em vez de manterem o atrito com o líder chinês Xi Jinping. Este posicionamento crucial surge após um encontro significativo entre Lula e Trump na Casa Branca, ocorrido na quinta-feira, 7 de maio de 2026, onde o futuro desses minerais estratégicos e a ambição brasileira de converter sua riqueza natural em soberania tecnológica foram pautas centrais, com potencial para redefinir a projeção econômica e internacional do país.
Nesta reportagem, desvendamos as complexidades e o impacto das terras raras na sua vida e no futuro do Brasil:
O que são terras raras e quais elementos fazem parte desse grupo?
Amostras de terras raras: Óxido de cério, Bastnasita, óxido de neodímio e carbonato de lantânio — Foto: REUTERS/David Becker
As terras raras, nome que surgiu entre o final do século XVIII e início do XIX, são um grupo de 17 elementos químicos da Tabela Periódica. A terminologia não é exata, pois não são “terras” nem tão “raras” na crosta terrestre.
“As terras raras são uma família com uma característica curiosa: todos parecem irmãos gêmeos. Vivem juntos nas rochas e se comportam de forma tão parecida que a própria natureza tem dificuldade de separá-los — e a indústria também”, explica o geólogo Alexandre Magno Rocha, professor do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN).
Este grupo inclui:
- Os 15 lantanídeos: Elementos que vão do Lantânio ao lutécio. Eles são “quimicamente pegajosos”: onde está um, geralmente estão todos os outros, tornando a separação deles um dos maiores desafios da engenharia moderna. O nome “lantanídeo” vem do primeiro elemento da fila, o Lantânio (do grego lanthanein, que significa 'escondido'), apropriado, pois ficam “escondidos” uns dentro dos outros nas rochas.
- Escândio e ítrio: Costumam aparecer associados aos lantanídeos e, por isso, também são categorizados como “terras raras”.
Terras raras: tipos e usos — Foto: Arte/g1
O que diferencia as terras raras de metais comuns como cobre ou ferro?
Óxidos produzidos após o processamento de terras raras — Foto: Acervo CETEM
Enquanto o ferro e o cobre são utilizados em grandes volumes para construção e fiação, as terras raras atuam como componentes de altíssima performance.
“Podemos dizer que as terras raras são 'vitaminas da indústria tecnológica': usadas em pequenas quantidades, mas sem elas o desempenho de muitos sistemas cai drasticamente”, afirma Ysrael Marrero Vera, pesquisador do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM/MCTI).
Seu poder se manifesta em dois pontos principais:
Magnetismo excepcional
“O neodímio tem propriedade de magnetismo que destoa de elementos mais baratos. Uma fração muito pequena vai ter efeito igual a quilos de ferro”, explica Emiliano Castro de Oliveira, docente do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Segundo Sidney Lima Ribeiro, professor titular no Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a explicação técnica reside na estrutura atômica: os elétrons, em uma camada profunda (orbitais 4f), não sofrem interferência externa, mantendo seu “spin” (um giro constante) sempre na mesma direção. É esse giro protegido que garante que um ímã de neodímio, por exemplo, seja muito mais forte e estável que um ímã comum.
Estabilidade superior
Alguns desses elementos mantêm a condução elétrica e o magnetismo mesmo sob altas temperaturas. “Na busca por chips cada vez menores, elementos químicos com mais possibilidade de controle e de estabilidade acabam sendo mais desejáveis. Isso diminui a margem para impurezas e falhas”, explica Emiliano Oliveira, da Unifesp.
Existem substitutos para as terras raras?
Substitutos parciais existem, mas com perda de qualidade. “Se usarmos outros materiais, o equipamento pode ficar mais pesado, menos eficiente, maior ou consumir muito mais energia”, explica o pesquisador Ysrael Marrero Vera. Não há equivalentes em desempenho.
Quais tecnologias são geradas a partir das terras raras?
Presentes em celulares, carros elétricos ou turbinas eólicas, as terras raras são essenciais por permitirem alto desempenho com pouca massa. Graças a elas, criamos aparelhos minúsculos, mas incrivelmente poderosos:
- Superímãs (Neodímio e Praseodímio): Os “músculos” da tecnologia. Em um carro elétrico, permitem motores pequenos, leves e com força para acelerar o veículo.
- Celulares e Eletrônicos: Estão em alto-falantes, sistemas vibratórios e garantem o brilho e cores vibrantes das telas (Európio e Térbio).
- Energia Limpa: Uma única turbina eólica de grande porte pode usar centenas de quilos de Neodímio para converter vento em eletricidade eficientemente.
- Saúde e Defesa: Cruciais em máquinas de ressonância magnética, lasers cirúrgicos, drones, sensores e sistemas de orientação de satélites.
Por que o processamento desses minerais é tão caro e complexo?
O desafio não é encontrar o minério, mas separar seus elementos “irmãos gêmeos”, um processo industrial exaustivo e oneroso. O preço elevado não se deve à escassez geológica, mas à exigência industrial:
- Consumo massivo de reagentes: Uso repetitivo de ácidos e ingredientes orgânicos caros.
- Infraestrutura especializada: Necessidade de plantas industriais contínuas com controle rigoroso de pH e acidez.
- Gestão de resíduos: Tratamento de efluentes (metais, sulfatos e nitratos) e controle de radioatividade natural.
- Conhecimento técnico: Profissionais com formação avançada para operar processos que a China levou mais de 50 anos para dominar.
Quais são as etapas de processamento?
O processo de beneficiamento das terras raras envolve fases complexas e custosas:
- Concentração Física do Minério: Começa com a extração e métodos físicos para aumentar o teor de terras raras, descartando materiais sem valor. “De cada mil quilos de minério, você tira um quilo de terra-rara — ou menos”, afirma Fernando José Gomes Landgraf, do INCT Terras Raras da Poli-USP.
- Ataque Químico e Dissolução (o papel dos ácidos): O concentrado sólido se transforma em um “caldo químico”, usando reagentes agressivos para dissolver a rocha. “Muitas vezes, podem envolver outros compostos químicos artificiais que têm custo elevado... ou um ácido que pode causar impacto ambiental muito grande”, afirma Emiliano Castro de Oliveira.
- Remoção de Impurezas e Radioatividade: Após a dissolução, a solução é limpa de elementos como ferro, alumínio e cálcio. A presença de Tório e Urânio exige licenciamento e controle radiológico adicional.
- Separação Individual: Este é o gargalo tecnológico. Como as terras raras têm comportamentos químicos quase idênticos, não podem ser separadas em uma única operação. Utiliza-se a extração por solventes, repetida dezenas ou centenas de vezes. “A seletividade é pequena... a separação precisa ser repetida muitas vezes... até atingir a pureza necessária”, afirma Ysrael Marrero Vera, do CETEM/MCTI.
- Precipitação e Refino Final: Após isolamento, as terras raras são recuperadas e transformadas em óxidos comerciais, como o óxido de Neodímio ou de Praseodímio.
Qual a diferença entre terras raras 'leves' e 'pesadas'?
O valor de uma jazida é definido pelo tipo de terras raras presentes:
- Leves (Ex: Lantânio, Cério, Neodímio): Mais abundantes.
- Pesadas (Ex: Disprósio, Térbio, Lutécio): Mais raras e decisivas para tecnologias de ponta.
Segundo Sidney Lima Ribeiro (Fapesp), “o óxido de Lutécio custa entre US$ 5 mil e US$ 15 mil o quilo – não apenas pela escassez geológica, mas principalmente pelos milhares de estágios de separação necessários para isolá-lo”.
Qual o custo ambiental da extração?
A produção de terras raras impõe desafios ambientais severos, não pela mineração em si, mas pelas etapas químicas de separação. Os principais impactos incluem:
- Uso intensivo de substâncias tóxicas;
- Geração de resíduos radioativos;
- Alto consumo de água e energia;
- Desmatamento;
- Contaminação de águas superficiais e profundas.
O que faz do Brasil um território privilegiado no assunto 'terras raras'?
O Brasil concentra a segunda maior reserva de terras raras porque a natureza seguiu uma “receita de bolo” única, combinando origem vulcânica, clima tropical e tempo.
O processo de formação:
- Tudo começa com magmas profundos (mantélicos), que, segundo Felipe Emerson Andre Alves, pesquisador do CETEM/MCTI, trazem elementos das profundezas da crosta.
- Esse magma sobe à superfície por meio de vulcões extintos, formando o magma carbonatítico, “cofres naturais” que guardaram esses elementos por milhões de anos, compara o professor Alexandre Magno Rocha.
- Na superfície, o clima tropical brasileiro (calor e chuvas) causa o intemperismo, “desmontando” as rochas.
- As terras raras, resistentes, permanecem concentradas no solo, enquanto o restante da rocha é lavado.
O Brasil apresenta uma “combinação geológica rara”: um território vasto que passou por todas as condições ideais para criar essas rochas.
Um exemplo é a Província Ígnea do Alto Paranaíba (Minas Gerais e Goiás), onde o Cinturão de Araxá-Catalão, segundo o professor Caetano Juliani (USP), abriga a maior faixa contínua de jazidas de terras raras pesadas fora da China.
Além disso, o Brasil descobriu recentemente um “tesouro” mais fácil de minerar: as argilas iônicas. “Nelas, as terras raras ficam apenas 'grudadas' na superfície da argila... basta usar uma solução líquida simples para retirá-las, o que torna o processo muito mais barato”, detalha Fernando Landgraf (Poli-USP).
Resumindo: O Brasil é privilegiado por ter tido os vulcões certos no passado e o clima tropical exato (chuva e calor) para “preparar” esse solo por milhões de anos, deixando as terras raras prontas para serem coletadas.
Por que o Brasil não aproveita tanto seu potencial?
Apesar da abundância, o Brasil ainda não evoluiu para a etapa industrial, liderada pela China, que concentra 90% do processamento mundial.
“O Brasil domina o primeiro capítulo da história — encontrar o minério. O desafio agora é escrever os capítulos seguintes: a química fina, a purificação e a industrialização que transformam rocha em tecnologia e tecnologia em soberania”, resume o professor Alexandre Magno Rocha.
O país corre o risco de repetir com as terras raras o que já acontece com o minério de ferro e a soja: exportar o produto bruto por baixo preço e importar o produto final (chips e motores) por valor muito mais alto. “A gente tem capacidade de mineração, mas não tem indústria de processamento. O Brasil não dispõe do segundo e do terceiro estágio: não temos como processar nem como aplicar em larga escala”, diz o professor Emiliano Castro de Oliveira (Unifesp).
Historicamente, o país dominou técnicas de separação no século passado, mas o conhecimento ficou restrito aos laboratórios. “O know-how [como fazer] existe principalmente nas universidades. Foi mais fácil exportar o minério bruto e comprar os elementos puros”, explica Sidney Lima Ribeiro, da Fapesp. Enquanto isso, a China investiu por 50 anos para se tornar a “fábrica” do setor.
Como funciona a 'guerra fria' das terras raras entre China e EUA?
- O domínio chinês: A China não só tem minério abundante, como controla as refinarias, tornando o mundo ocidental dependente de suas fábricas.
- O contra-ataque dos EUA: Para reduzir essa dependência, o governo americano busca parceiros alternativos, com o Brasil como um dos principais candidatos. Esses elementos são prioridade de segurança nacional dos EUA para tecnologia, defesa e economia.
“O problema atual não está relacionado à escassez física, e sim à restrição dos países que conseguem produzir. China e EUA já estão tendo atrito comercial há um tempo, com respostas da China em restringir exportações aos americanos”, explica Oliveira. Ou seja, não há escassez de terras raras no planeta, mas pode faltar acesso por “escassez política”.
O que está em jogo na conversa entre Lula e Trump e no Congresso?
Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e dos Estados Unidos, Donald Trump. — Foto: Pablo Porciúncula e Andrew Caballero-Reynoldos/ AFP via Getty Images
Com a segunda maior reserva do mundo, o Brasil está no centro da disputa entre os Estados Unidos e a China. Enquanto Pequim domina 90% do refino mundial e usa isso como pressão política, Washington busca fornecedores não chineses.
A urgência americana é tema central das reuniões, como o encontro entre Lula e Donald Trump na Casa Branca.
- A visão dos EUA (Trump): Querem acesso rápido, menos burocracia ambiental e garantia de que o minério brasileiro priorize as fábricas americanas, blindando indústrias de defesa, chips e carros elétricos.
- A visão do Brasil (Lula): O governo brasileiro adota um tom de soberania nacional: o subsolo é da União e “ninguém mete a mão”. A estratégia é não assinar acordos de exclusividade e garantir que o minério não saia do país no estágio “bruto”.
“O Brasil domina o primeiro capítulo da história — encontrar o minério. O desafio agora é o valor agregado. Não queremos apenas exportar pedras; queremos produzir o ímã e o chip aqui”, afirma o professor Alexandre Magno Rocha.
O projeto prevê um fundo de até R$ 5 bilhões para incentivar empresas que tragam tecnologia de transformação para o Brasil, com a condição de transferência de tecnologia nas parcerias.
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