NOVO COMANDO NO FED

Kevin Warsh assume o Fed: Mercado busca sinais de postura firme contra inflação

Kevin Warsh, presidente nomeado do Federal Reserve dos EUA.
Kevin Warsh, nomeado por Donald Trump para presidir o Federal Reserve, em foto de 21 de abril de 2026.

A primeira reunião sob a liderança de Kevin Warsh, indicado por Donald Trump, termina nesta quarta-feira (17). Investidores observam de perto os próximos passos em meio a pressões inflacionárias e políticas.

A primeira reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) sob o comando de Kevin Warsh termina nesta quarta-feira (17/06/2026), em um cenário que tradicionalmente gera apreensão: inflação persistente, mercado de trabalho aquecido e pressão política por taxas de juros mais baixas. A expectativa do mercado financeiro é de manutenção dos juros entre 3,5% e 3,75% ao ano, mas o encontro é visto como o marco inicial de uma nova fase para a instituição.

Mais do que a decisão anunciada nesta semana, os investidores buscam decifrar a estratégia de Warsh para os próximos anos e sua disposição em manter uma postura rigorosa no combate à inflação. A coletiva de imprensa do novo presidente será escrutinada em busca de indícios sobre sua comunicação, tolerância à inflação acima da meta e potencial para divergir da Casa Branca.

“As turbulências no fim do mandato de Jerome Powell servem como lembrete de que a independência dos bancos centrais não é algo garantido. O que está em jogo vai além da estabilidade de preços e alcança a própria arquitetura financeira global”, avalia Anis Bensaidani, economista do BNP Paribas, ressaltando a importância da autonomia institucional.

Kevin Warsh, nomeado por Donald Trump para presidir o Federal Reserve, em foto de 21 de abril de 2026 — Foto: Reuters/Kevin Lamarque

Novo comando, velhas pressões

A transição de comando no Fed ocorre após meses de desentendimentos entre Donald Trump e o ex-presidente Jerome Powell. Desde o início de seu segundo mandato, Trump tem defendido que juros elevados oneram o crédito e impactam negativamente a economia. Ele expressou o desejo de que Warsh aja com liberdade, mas reiterou sua preferência por juros mais baixos, criticando a possibilidade de novos aumentos e considerando a política monetária atual uma forma de "punir o sucesso" da economia americana.

Para Bensaidani, do BNP Paribas, a simples troca de comando não deve alterar drasticamente a condução dos juros. Ele argumenta que a estrutura do comitê de decisões, onde o voto de Warsh tem o mesmo peso que o de outros diretores e presidentes regionais, é a principal salvaguarda da independência do Fed. Esses membros frequentemente demonstram preocupação com o nível da inflação.

Luiza Paparounis e Francisco Lopes, analistas do BTG Pactual, apontam que a combinação de uma economia robusta, mercado de trabalho forte e inflação elevada exige cautela do Fed. No entanto, uma abordagem excessivamente paciente pode ser interpretada pelo mercado como uma tolerância à inflação, tornando a comunicação do comitê crucial.

Os analistas preveem que Warsh trará ao Fed sua visão crítica sobre a excessiva sinalização de futuros passos nas taxas de juros. "É possível que ele tente reduzir a importância de sinalizações explícitas sobre a trajetória dos juros e enfatize que as decisões serão tomadas reunião a reunião, com base nos dados", comentam.

Juros altos por mais tempo

Indicadores econômicos recentes nos EUA reforçam o desafio do Fed e a crescente percepção de que os juros precisarão permanecer elevados por um período mais extenso. A criação de 172 mil vagas em maio e uma taxa de desemprego de 4,3% indicam um mercado de trabalho aquecido, com salários avançando 3,4% ao ano, refletindo forte demanda por trabalhadores.

A inflação, contudo, voltou a apresentar aceleração. O índice de preços ao consumidor (CPI) acumulou alta de 4,2% em 12 meses até maio, o maior patamar em três anos, impulsionada em parte pelo aumento dos preços de energia devido ao conflito no Oriente Médio. Mesmo desconsiderando itens voláteis como alimentos e energia, os núcleos do CPI (2,9%) e do PCE (cerca de 3,3%) permanecem acima da meta de 2% do Fed.

Por outro lado, a atividade econômica mostra sinais de desaceleração, com o Produto Interno Bruto (PIB) crescendo 1,6% em taxa anualizada no último trimestre, abaixo das projeções.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, projeta que o Fed abandonará qualquer sinalização de corte de juros, adotando uma postura de "esperar para ver" e condicionando decisões futuras aos indicadores e ao cenário geopolítico. Sung observa que, embora Warsh tenha defendido flexibilização monetária anteriormente, ele tende a adotar uma postura técnica, sendo considerado mais rigoroso em sua primeira passagem pelo Fed (2006-2011).

Axel D. Angermann, economista-chefe do Grupo FERI, sugere que a estreia de Warsh pode iniciar uma "direção fundamentalmente nova" para o Fed, alinhada com suas críticas a políticas anteriores, como a expansão do balanço do banco central e intervenções ativas na economia. Angermann vislumbra um retorno a uma política monetária baseada em regras, como na década de 1990 sob Alan Greenspan, com menos ajustes ativos na economia e no mercado de trabalho.

Para Angermann, o mais relevante será observar se Warsh começará a implementar essa filosofia em seus primeiros meses à frente do Fed, mais do que a decisão pontual sobre os juros nesta reunião.

Sede do Federal Reserv (Fed), Banco Central dos EUA. — Foto: REUTERS/Joshua Roberts

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