VIDAS EM JOGO

Juiz de Fora: imprudência nos trilhos dispara acidentes, revela ANNT

Homem atravessando trilhos de trem com barreira de segurança abaixada em Juiz de Fora
Pedestre se arrisca na linha do trem em Juiz de Fora — Foto: MRS Logística/Divulgação

Com 36 acidentes de 2024 a 2025, a cidade da Zona da Mata mineira figura entre as mais perigosas do país. Neuropsicóloga explica como a pressa e a distração elevam o risco de desfechos fatais e destaca a urgência de medidas protetivas.

Um cenário alarmante se revela em Juiz de Fora, que entre 2024 e 2025, registrou 36 acidentes em suas linhas férreas, posicionando-se como a terceira cidade do Brasil com mais ocorrências. Este ranking, divulgado pela Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANNT), expõe a gravidade do descuido humano e o impacto devastador da imprudência, transformando passagens em nível em cenários de risco iminente para a vida de muitos pedestres.

A cidade da Zona da Mata mineira fica atrás apenas de Curitiba (PR), com 67 registros, e Paranaguá (PR), com 40 ocorrências, conforme dados da ANNT. Este elevado número de incidentes levanta sérias preocupações sobre a segurança nas áreas urbanas cortadas por ferrovias.

Vídeos obtidos pela MRS Logística, concessionária responsável pela malha ferroviária que atravessa Juiz de Fora, flagraram diversas cenas de imprudência entre outubro de 2025 e janeiro de 2026. As imagens mostram a rotina de perigo na região central, especialmente na passagem em nível da rua Benjamin Constant, onde pedestres se arriscam diariamente para cruzar os trilhos antes da chegada do trem. Uma das gravações choca ao exibir um rapaz deitando-se sobre os trilhos enquanto a locomotiva se aproxima, em um ato de extrema irresponsabilidade.

Em muitas situações, a imprudência cede lugar ao descuido, e pedestres desatentos acabam atingidos, frequentemente com desfechos fatais. Um dos casos mais marcantes foi o acidente em 2018 envolvendo o produtor musical João Paulo Almeida de Assis. Ele utilizava fones de ouvido ao atravessar a linha férrea, e, infelizmente, não resistiu aos ferimentos, falecendo aos 26 anos. A perda de uma vida jovem como a de João Paulo ilustra a urgência de uma mudança de comportamento e de um reforço nas medidas de segurança.

Em Juiz de Fora, a MRS Logística informa que existem 41 passagens em nível para pedestres, 25 para veículos e 16 passarelas destinadas aos transeuntes. A empresa enfatiza que a segurança ao longo da ferrovia é uma prioridade permanente e resultado de um esforço conjunto entre a concessionária, o poder público e a população. A MRS Logística também destaca que a cidade “deixou de ocupar a primeira posição no ranking nacional de acidentes ferroviários, resultado de uma série de investimentos realizados em parceria com o poder público, como a criação de viadutos e obras estruturantes”.

Para compreender os fatores que levam pedestres a correrem riscos, a neuropsicóloga e professora Thais Knopp analisou o comportamento. Segundo ela, atravessar uma linha férrea mesmo com a percepção da aproximação do trem não se resume a uma simples falta de atenção. “O que está em jogo é um conjunto de mecanismos cognitivos bastante sofisticados e, ao mesmo tempo, profundamente humanos. A pessoa pode até perceber o trem, mas subestima a velocidade e superestima a própria capacidade de atravessar a tempo”, explica a especialista.

Knopp complementa: “Soma-se a isso um viés de otimismo, uma tendência implícita de acreditar que eventos negativos são mais prováveis de acontecer com os outros do que consigo, e um nível de automatização do comportamento, especialmente quando aquele trajeto já foi realizado diversas vezes sem consequências”.

Fatores como pressa, estresse, ansiedade e distração têm um impacto direto sobre esse tipo de comportamento. “Quando o cérebro está sobrecarregado, ele tende a operar em um modo mais automático, priorizando rapidez em detrimento de análise. Isso reduz a capacidade de avaliação de risco e aumenta a impulsividade”, alerta Knopp. O uso de equipamentos eletrônicos agrava ainda mais esses riscos, interferindo diretamente na atenção. Isso pode gerar a “cegueira atencional”, onde estímulos relevantes deixam de ser percebidos, e a “competição sensorial”, em que sinais importantes do ambiente, como o som de um trem, não são processados adequadamente. “Não se trata apenas de distração no sentido comum, mas de uma limitação real na capacidade de processamento naquele momento”, conclui.

Para Knopp, medidas como melhor sinalização, presença de vigilantes e de barreiras físicas são extremamente relevantes. “Ao estruturar o ambiente de forma a limitar ou dificultar a ação de risco, reduz-se a dependência do julgamento individual, que, como vimos, pode falhar em determinadas condições. Confiar exclusivamente na conscientização das pessoas é uma abordagem limitada. O ambiente precisa funcionar como um aliado ativo da segurança”.

A MRS Logística reitera que a segurança ferroviária é uma responsabilidade compartilhada e que, em 100% dos atropelamentos e abalroamentos registrados na malha sob sua concessão, existe um componente comportamental envolvido, como a pressa, a imprudência, a falta de atenção, uso de álcool e drogas, entre outros comportamentos inadequados. “Infelizmente, uma minoria da população ainda insiste em se arriscar e, por vezes, causar acidentes”, lamenta a empresa.

A concessionária reforça a mensagem crucial: antes de cruzar a linha férrea, é fundamental que o pedestre pare, olhe para os dois lados para verificar a aproximação do trem, escute atentamente e respeite toda a sinalização. “Essas são atitudes seguras que salvam vidas”, finaliza a MRS Logística, num apelo à responsabilidade individual e coletiva para evitar novas tragédias.

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