SETOR EM ALTA

Joesley Batista investe na Avibrás e impulsiona setor de defesa

Joesley Batista, empresário do grupo JBS, investidor da Avibrás, em foto de arquivo.
O empresário Joesley Batista — Foto: Getty images

Aporte de R$ 300 milhões reativa empresa em São José dos Campos, após crise e greve de 1.281 dias. Exportações brasileiras de armas atingem US$ 3,1 bilhões em 2025, um recorde que levanta debates éticos sobre o destino dos armamentos.

Avibras retoma as atividades com 271 funcionários Avibras retoma as atividades com 271 funcionários

O setor de defesa brasileiro vive um momento de efervescência, impulsionado por um mercado global aquecido por conflitos. Neste cenário, um aporte de R$ 300 milhões, com a participação do bilionário Joesley Batista, permitiu à Avibrás, líder em sistemas de mísseis e foguetes, retomar suas atividades no mês passado após anos de crise e recuperação judicial. A decisão não apenas reativa uma empresa estratégica para a segurança nacional e gera empregos em São José dos Campos (SP), mas também reflete o crescente protagonismo do Brasil na exportação de armamentos, levantando debates importantes sobre ética e o destino final desses equipamentos.

A Avibrás, fundada em 1961 e com sede em São José dos Campos (SP), enfrentava sérias dificuldades desde 2022, quando entrou em recuperação judicial. A crise financeira culminou em uma greve de 1.281 dias, período de incerteza que castigou as famílias dos seus 1.281 trabalhadores. Agora, rebatizada como Avibrás Aeroco, a empresa viu suas atividades serem reiniciadas graças ao vultoso investimento de diversos parceiros, entre eles o empresário Joesley Batista, do grupo JBS. Antes deste aporte, movimentações pela aquisição da Avibrás por grupos da China e dos Emirados Árabes foram reportadas, mas o capital nacional garantiu a continuidade da produção de itens cruciais para a defesa.

Outros vultosos investimentos no segmento armamentista brasileiro também atraem a atenção. Na última semana, a Embraer anunciou a concretização do maior pedido internacional já recebido por um único país — os Emirados Árabes — para o cargueiro C-390 Millennium, o maior avião desenvolvido pela companhia e um orgulho da engenharia aeronáutica nacional.

Recorde de Gastos Militares e Exportações

A efervescência no Brasil reflete uma tendência global. Segundo o mais recente relatório do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares mundiais alcançaram um recorde histórico em 2025, totalizando US$ 2,887 trilhões, um aumento real de 2,9% e o 11º ano consecutivo de crescimento. Este montante representou 2,5% do PIB global em 2025.

O Brasil destacou-se na América do Sul, elevando seus investimentos militares em 13% em 2025, atingindo US$ 23,9 bilhões. Este acréscimo se deu, primordialmente, por maiores aportes em desenvolvimento tecnológico naval e pelos custos mais elevados com pessoal militar, conforme o SIPRI.

A demanda por equipamentos brasileiros cresce exponencialmente. Em 2025, a indústria de defesa do país registrou um novo recorde de exportações, somando US$ 3,1 bilhões em autorizações para produtos e serviços, um salto de 74% em relação a 2024 (US$ 1,78 bilhão). Este valor é mais que o dobro do registrado em 2023 (US$ 1,45 bilhão), acumulando um aumento de aproximadamente 114% entre 2023 e 2025, segundo dados do Ministério da Defesa.

Entre os cinco principais compradores de equipamentos militares do Brasil no último ano, três são nações europeias integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan): Alemanha, Bulgária e Portugal. Os Emirados Árabes e os Estados Unidos completam a lista, demonstrando a ampla aceitação dos produtos nacionais.

A Base Industrial de Defesa (BID), que congrega empresas estatais e privadas articuladas pelo Ministério da Defesa para desenvolver e produzir itens estratégicos militares, comercializa atualmente para 140 países, com 80 empresas exportadoras. O setor contribui com cerca de 3,5% do PIB e gera quase 3 milhões de empregos diretos e indiretos no país.

Diego Lopes, pesquisador sênior do programa de despesas militares e produção de armamentos do SIPRI, explicou à BBC News Brasil que os gastos militares globais devem continuar sua trajetória de alta. "Observamos mais de 100 países aumentando seus gastos em 2025, o que mostra que é algo mais generalizado", apontou. "Há um paradoxo, já que quando há aumento dos gastos de um país, os vizinhos tendem também a elevar seus investimentos, gerando uma espiral de rearmamento", acrescentou Lopes.

Aposta na Produção de Oferta

Marcos Barbieri, professor de economia da Unicamp e especialista em indústria de defesa, esclarece que o Brasil é um grande exportador de armas e munições leves desde os anos 70, com empresas como a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) e a estatal IMBEL. A CBC, inclusive, possui fábricas nos Estados Unidos e na Europa e é uma importante fornecedora de munição para os países da Otan.

Neste século, o país intensificou o investimento na fabricação de equipamentos militares de maior complexidade. "Em 2008, foi estabelecida no Brasil uma estratégia nacional de defesa que reuniu projetos e criou diretrizes, o que acabou levando à formação de programas estratégicos", detalha Barbieri. Ele ressalta o sucesso do projeto Embraer C-390, amplamente procurado no exterior, com vendas para mais de dez países e aeronaves em operação em Portugal, na Hungria e na Coreia do Sul, além do recente contrato com os Emirados Árabes. A Otan, segundo Barbieri, utiliza o KC-390 — denominação do C-390 com capacidade de reabastecimento em voo — como padrão da aliança.

A fragata Tamandaré, um navio nacional, é outro exemplo da excelência brasileira, que a Marinha defende como potencial exportação para aquecer a indústria local. No caso específico da Avibrás, Barbieri a considera uma empresa estratégica, dotada de plena competência técnica para produzir itens como mísseis de cruzeiro, apesar das dificuldades administrativas passadas. A Avibrás não se manifestou quando procurada pela reportagem.

Demanda em Alta e Dilemas Éticos

O cenário de incerteza internacional aponta para uma demanda contínua e aquecida no setor bélico. Para Barbieri, esta conjuntura abre portas para as empresas brasileiras. "O conflito na Ucrânia tem sua importância em razão das munições, que vêm sendo essenciais e auxiliam na demanda pelos produtos brasileiros. É uma guerra com tropas paradas com grande necessidade de artilharia", explica. A intensificação do conflito no Irã, marcado pelo uso de mísseis, reforça as oportunidades para a Avibrás, segundo sua avaliação.

Diego Lopes complementa que o "processo de rearmamento que várias regiões do mundo estão passando, há aumento na demanda, o que aumenta o mercado e cria maior escala". Ele salienta que a produção brasileira depende da exportação para elevar seu volume de vendas, que não é sustentado apenas pela demanda interna, reduzindo os custos de produção. A neutralidade percebida do Brasil no cenário geopolítico é vista como uma vantagem competitiva, pois o país é visto sem desconfianças por grande parte dos importadores, um fator cada vez mais crucial em um mundo receoso da dependência de equipamentos estrangeiros.

Contudo, a expansão acelerada deste mercado não vem sem seu preço e seus dilemas. A questão "armas nas mãos de quem" é alvo de profunda preocupação por analistas do setor. Governos repressivos, o crime organizado, mercenários e até grupos terroristas podem ser os receptores finais dos armamentos, em especial os mais leves e munições.

Bruno Langeani, consultor-sênior do instituto Sou da Paz e analista de dados do Conflict Armament Research, alerta para as exportações a regiões instáveis como África e Oriente Médio, "incluindo a governos autocráticos que podem usar estas armas contra a população civil".

Em 2024, o Brasil registrou uma disparada nas exportações de armas e munições para Burkina Faso, totalizando US$ 8,4 milhões. O país da África Ocidental sofreu um golpe militar no final de 2022 e enfrenta denúncias constantes de mortes de civis pelo governo. Na década passada, a empresa brasileira Condor, produtora de armamentos não letais, foi criticada por vendas ao Bahrein, cujo governo reprimia manifestações. Imagens de artefatos de gás lacrimogênio com o logo da companhia circularam, sendo supostamente usados em protestos. No mesmo período, o uso de armas brasileiras na guerra do Iêmen gerou forte condenação.

"O cenário de grandes guerras pelo mundo faz com que a pressão pela regulamentação e maior controle perca a força", aponta Langeani, que também observa uma grande circulação de armas brasileiras em mercados ilegais.

Um risco adicional é o chamado "efeito bumerangue", onde exportações para países vizinhos ao Brasil podem retornar ao país nas mãos do crime organizado transfronteiriço. O especialista confirma a apreensão de material bélico brasileiro com criminosos na região.

A CBC, por sua vez, mantém um código de conduta para terceiros para combater o tráfico de armas. A empresa afirma que exige "realizar operações de exportação ou importação somente mediante autorização dos órgãos competentes, como: Ministérios da Defesa e das Relações Exteriores, Diretoria de Produtos Controlados do Exército e o Departamento de Estado norte-americano". Além disso, não permite "realizar operações com países cujo momento civil esteja em conflito interno e possa gerar sofrimento para a população local ou que sejam usadas para fins não autorizados". A CBC não se manifestou quando procurada pela reportagem.

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