CRIME GLOBALIZADO

Itália investiga integrantes do PCC como mafiosos: ‘Facção mais perigosa da América do Sul’ no radar global

Operação contra o crime organizado envolvendo PCC e máfias internacionais.
Imagem ilustrativa de ação policial em combate ao tráfico internacional de drogas.

Demétrio Batista de Oliveira e Nicholas Charles Evangelista Lopes são os primeiros brasileiros sob legislação severa. Facção é 'mais perigosa da América do Sul'.

A Justiça da Itália deu um passo histórico ao enquadrar dois brasileiros, membros do Primeiro Comando da Capital (PCC), sob sua rigorosa legislação antimáfia. A decisão, proferida por uma juíza de Turim e materializada nas operações "Samba" (Itália) e "Conexão Paraíba" (Brasil), deflagradas simultaneamente em dezembro de 2024, responde à crescente e perigosa expansão da facção no tráfico internacional de cocaína. Esta medida sublinha a percepção da Procuradoria Nacional Antimáfia italiana de que o PCC é a "mais perigosa organização criminosa da América do Sul", o que tem um impacto direto na segurança global e na vida das comunidades afetadas pelo narcotráfico. Demétrio Batista de Oliveira, o Pateta, encontra-se preso no Brasil, enquanto Nicholas Charles Evangelista Lopes, o Loko, permanece foragido, ambos investigados por tráfico internacional de drogas e organização criminosa.

Demétrio Batista de Oliveira, 55 anos, conhecido como Pateta, e Nicholas Charles Evangelista Lopes, de 33, apelidado de Loko, são os primeiros integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) a enfrentar acusações baseadas na legislação antimáfia na Itália. Ambos são formalmente investigados na Operação Samba, conduzida pela Procuradoria Distrital Antimáfia de Turim, respondendo por tráfico internacional de drogas e organização criminosa. A interface brasileira dessa investigação, a Operação Conexão Paraíba, da Polícia Federal (PF), também teve início em dezembro de 2024. Enquanto Demétrio cumpre prisão no Brasil, Nicholas permanece foragido.

A presença de criminosos brasileiros ligados ao PCC na esfera global, estabelecendo alianças com grupos mafiosos internacionais, é o que impulsionou o documento da Justiça italiana e solidifica a posição da facção brasileira como um dos protagonistas mais cruciais no tráfico transnacional de cocaína.

As defesas dos acusados buscaram o Superior Tribunal de Justiça (STJ) com pedidos de habeas corpus para anular provas ou assegurar a liberdade provisória, mas a Corte negou todas as solicitações. Embora o processo principal no Brasil tenha tido sua instrução concluída, a acusação na Itália está temporariamente suspensa para evitar duplicidade de julgamento.

A Evolução Global do Crime Organizado

O documento italiano, em conjunto com o processo judicial brasileiro, traça a trajetória da facção nos 20 anos que se seguiram à maior onda de ataques contra as forças de segurança do País, iniciada em 12 de maio de 2006. Aquela ofensiva criminosa, que resultou em 564 mortes (incluindo 59 agentes públicos), paralisou São Paulo e gerou uma série de rebeliões em presídios, evidenciando o poder de mobilização do PCC, que surgiu 13 anos antes na Casa de Custódia de Taubaté.

Desde então, a natureza do crime organizado mudou drasticamente. Embora a violência persista, ela agora é rigidamente controlada e subordinada às necessidades dos negócios ilícitos. “O PCC hoje é uma multinacional cujo objetivo é a expansão do tráfico internacional de cocaína para a Europa”, afirma o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), destacando a sofisticação da organização.

Para desvendar a globalização do PCC, a equipe do Estadão analisou mais de 2 mil páginas de documentos e conduziu entrevistas com autoridades no Brasil e na Itália, além de advogados, policiais, procuradores e magistrados, fornecendo um panorama abrangente dessa complexa rede.

Na Itália, a juíza Francesca Roseti, da Seção de Investigações Preliminares do Tribunal de Turim, emitiu as medidas cautelares contra os integrantes do PCC. No Brasil, coube à juíza Cristiane Mendonça Lage, da 16ª Vara Criminal Federal de João Pessoa, a responsabilidade pelas ações judiciais correspondentes.

PCC em xeque na Itália e no Brasil

No Brasil, a Justiça expediu mandados de prisão para oito dos 20 acusados. Na Itália, 22 indivíduos foram indiciados por associação para o tráfico internacional de drogas e por organizar atividades criminosas com o agravante do Artigo 416 bis. Esse artigo, crucial na legislação antimáfia italiana, define como associação mafiosa aquela que detém o poder de intimidação, impõe a lei do silêncio (a omertà) e busca controlar atividades econômicas ou contratos públicos. Demétrio e Nicholas foram enquadrados sob essa grave acusação.

Investigados na Itália e com prisão decretada no Brasil

Os dois brasileiros, Demétrio Batista de Oliveira e Nicholas Charles Evangelista Lopes, figuram na página 3 do documento italiano como "indagati" (investigados). Com prisão decretada no Brasil e a fase de instrução processual na Justiça Federal já concluída, a acusação contra eles na Itália está temporariamente suspensa para evitar duplicidade de procedimentos legais.

Os brasileiros seriam peças-chave na rede de fornecimento de toneladas de cocaína e na logística de transporte da droga para a Europa. As operações "Samba" e "Conexão Paraíba" investigam as complexas relações entre o PCC e a ‘Ndrangheta, a poderosa máfia da Calábria, no sul da Itália.

Demétrio, um dos detidos na Operação Conexão Paraíba, teve seu nome mantido em sigilo até agora. Anteriormente alvo da Operação Contentor, da Polícia Federal em Santa Catarina, em 2017, ele conseguiu escapar da prisão na ocasião, o que lhe valeu o apelido de "Fantasma". “Todos sabem que eu existo, mas ninguém me vê. É por isso que me chamam de Fantasma”, escreveu ele em uma mensagem interceptada pela PF.

Ele é considerado um dos maiores traficantes da América do Sul com ligações à facção, e era casado com a cunhada de Júlio César Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, apontado pelas autoridades como o número 2 do PCC. Nicholas, que cresceu na zona norte de São Paulo e foi "batizado" na facção, seria seu gerente. Detido na Espanha em 2023, ele foi posteriormente libertado e desapareceu.

Em março, a Justiça italiana condenou oito acusados italianos a penas que variam de 10 a 18 anos de prisão. A sentença mais branda foi concedida a Vincenzo Pasquino, o chefe mafioso que colaborou com a justiça, revelando às autoridades do Brasil e da Itália os termos do acordo entre a ‘Ndrangheta e o PCC para a exploração das rotas transatlânticas do tráfico de drogas.

Força-tarefa internacional desvenda rotas do tráfico

Para aprofundar a investigação, Brasil e Itália estabeleceram uma Equipe Conjunta de Investigação, que operou ativamente até março de 2025. Essa colaboração envolveu a Procuradoria Antimáfia de Turim e as Superintendências da Polícia Federal da Paraíba e do Paraná, que liderou a Operação Mafiusi.

O sofisticado esquema articulado pela máfia italiana ‘Ndrangheta e pelo PCC contava ainda com a participação de traficantes albaneses, sérvios e australianos. Os criminosos utilizavam portos no Brasil, Equador, Uruguai, Colômbia e Panamá para escoar cocaína para destinos na Itália, Espanha, Holanda, Bélgica e Austrália. A magnitude dessa operação levou a Procuradoria Nacional Antimáfia italiana a classificar o PCC como a “mais perigosa organização criminosa da América do Sul”.

O procurador Giovanni Bombardieri, responsável pela investigação na Itália, reiterou a importância vital da cooperação internacional para desvendar essa complexa rede. “As relações da ‘Ndrangheta e do PCC visavam à obtenção de novas rotas para o envio de drogas”, explicou ele.

Consórcio criminoso movimentou R$ 4,8 bilhões

As investigações, iniciadas em 2017, foram minuciosas: os italianos realizaram 114 interceptações telefônicas e escutas ambientais em veículos, bares, celas e até aviões. Acompanharam os deslocamentos de familiares dos criminosos e instalaram câmeras para monitorar residências e até uma igreja frequentada pelos mafiosos, onde uma festa de batismo de uma família mafiosa foi vigiada.

Um capítulo significativo da apuração italiana é dedicado à colaboração com a Polícia Federal e com o Ministério Público Federal (MPF) do Brasil. Esse trabalho conjunto resultou na prisão de Sérgio de Arruda Quintiliano, o Minotauro, em 4 de fevereiro de 2019, e na captura de Gilberto Aparecidos dos Santos, o Fuminho, em 14 de abril de 2020, em Moçambique, com o auxílio da Drug Enforcement Agency (DEA) dos EUA.

Minotauro e Fuminho, que estariam em contato direto com mafiosos italianos representando a ‘Ndrangheta na América do Sul, lideraram as operações do PCC na disputa pelo controle do tráfico na fronteira com o Paraguai. Minotauro foi detido em Balneário Camboriú. Dois anos depois, Pasquino e o chefe mafioso Rocco Morabito foram presos na Paraíba, onde haviam estabelecido uma nova base para o envio de cocaína à Europa.

Durante as investigações, a PF obteve uma prova crucial: mensagens onde Pasquino detalhava seus contatos com grandes traficantes da facção, como Fuminho e Minotauro. “Estou trabalhando com Minotauro, aquele que fez a guerra do Paraguai... PCC”, escreveu Pasquino a um chefe italiano. Ele também relatou ao mafioso Giuseppe Grillo que Fuminho lhe enviava fotos de mercadorias da Bolívia e era o responsável pela logística da droga.

O mafioso Pasquino enfatizou a importância de Fuminho ao colega italiano: “Não devemos nem mesmo citar seu nome. Ele é como El Chapo (Joaquín Guzmán, traficante mexicano do cartel de Sinaloa), como Pablo (Escobar, do cartel de Medellín). Eu trabalhei com ele. Me chamava Macarrão – porque aqui a pasta se chama macarrão – ou Italianinho.”

Empresas supostamente ligadas ao esquema investigado teriam movimentado impressionantes R$ 4,8 bilhões entre 2018 e 2024, conforme análise do Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf), solicitada pela PF. Sete pessoas jurídicas estavam associadas a um "laranja" – um motociclista que chegou a receber auxílio emergencial durante a pandemia, revelando a complexidade das ramificações financeiras do grupo.

As defesas de Fuminho, Minotauro e Julinho Carambola não foram localizadas pela reportagem. Os três permanecem detidos e, durante os processos judiciais a que responderam, sempre negaram qualquer envolvimento com o tráfico de drogas e as organizações criminosas investigadas no Brasil e na Itália.

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