IA NO COTIDIANO
Inteligência artificial se torna parte da rotina dos brasileiros, mas ainda gera desconfiança
Estudo aponta que 68% dos brasileiros usam a tecnologia diariamente, mas a maioria ainda desconfia das informações e teme por empregos.
A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma ferramenta restrita a especialistas e se integrou à rotina de milhões de brasileiros. A tecnologia auxilia em atividades como estudar, trabalhar, organizar compromissos e monitorar a saúde. No entanto, a popularização da IA convive com receios e desconfiança sobre seus impactos reais.
A estudante de Medicina Nathalia Sahione, de 20 anos, utiliza a IA para compreender conteúdos, revisar disciplinas e até para desenvolver artes gráficas e sugestões de conteúdo para redes sociais. Fora da faculdade, a tecnologia a auxiliou a calcular calorias de alimentos, elaborar um plano inicial de treinamento físico e analisar sintomas de sua cachorra, o que a levou a buscar atendimento veterinário.
“A inteligência artificial me ajuda em praticamente tudo. Na faculdade, uso para resumir textos, treinar questões e entender cálculos. Na atlética, também já recorri à ferramenta para criar artes e conteúdos para as redes sociais. Quando a gente aprende a usar, a IA vira uma companheira. Não sou dependente, mas posso dizer que faz diferença”, relata Nathalia.
Seu relato reflete um levantamento do instituto Market Analysis, que indica que 68% dos brasileiros utilizam ferramentas de IA em atividades cotidianas. Desses, 56% consideram as plataformas acessíveis e 52% acreditam que a IA eleva a produtividade e a eficiência de tarefas diárias.
Apesar da ampla adoção, a confiança ainda é um ponto de atenção. O estudo revela que 59% dos brasileiros não confiam plenamente nas informações geradas por sistemas de IA. Além disso, apenas 40% percebem receptividade ao uso dessas ferramentas em seus círculos sociais e profissionais.
Evelin Cardoso Gomes, professora da Universidade Federal do Pará e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia IAmazônia, destaca a necessidade de responsabilidade e critérios claros na utilização da IA. “A Inteligência Artificial veio para ampliar as capacidades humanas, não substituí-las”, afirma. Ela ressalta que o impacto da tecnologia é definido pela forma como a escolhemos utilizar, enfatizando a importância de um uso organizado, ético e responsável.
O estudante de Administração Fábio Augusto de Jesus, de 22 anos, usa a IA em casa para controlar equipamentos eletrônicos por voz, como iluminação e temperatura. Na igreja, a tecnologia o auxilia a organizar cronogramas e estruturar eventos. Seu smartwatch monitora atividades físicas e identificou alterações no sono, que, após análise por IA, levaram à suspeita de apneia do sono, confirmada por médicos.
Fábio admite uma relação de dependência com a tecnologia: “Hoje, e isso me incomoda, digo que sou dependente. Já estou acostumado a dar comandos de voz, acabo entrando em uma zona de conforto e já não sou tão criativo”, confessa.
O receio em relação à IA é compartilhado por dois em cada três brasileiros. As principais preocupações giram em torno da proteção de dados pessoais, da disseminação de conteúdos falsos e do potencial de substituição de empregos por sistemas automatizados. Entre os empregados, 38% temem perder espaço para a IA, índice próximo à média mundial (36%), mas inferior a países como Peru (64%) e Equador (60%).
Marc Chevallier, engenheiro e sócio de uma empresa especializada em agentes de IA, vê a tecnologia como um instrumento indispensável para sua atividade, utilizada diariamente na análise de contratos e processos licitatórios. Ele ressalta que os agentes de IA, capazes de realizar tarefas de forma autônoma, representam uma evolução significativa em relação aos sistemas tradicionais.
O Brasil obteve 49,8 pontos no IA Index, indicador que mede a interação da sociedade com a IA, posicionando-se em 30º lugar entre 44 países avaliados. Apesar do avanço de dois pontos em relação a 2025, o país ainda está abaixo da média mundial. O estudo da Market Analysis sugere um equilíbrio na postura brasileira: reconhecimento das vantagens da IA com manutenção de uma visão crítica sobre riscos e impactos futuros.
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