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Insegurança muda cérebro de pré-adolescentes, aponta estudo

Insegurança muda cérebro de pré-adolescentes, aponta estudo

Pesquisa com 12 mil jovens nos Estados Unidos revela que a percepção de ameaça afeta mais que a criminalidade real.

A percepção de insegurança impacta o desenvolvimento cerebral e a saúde mental de pré-adolescentes de forma mais significativa do que os níveis reais de criminalidade. Um estudo, publicado na revista Developmental Cognitive Neuroscience, revelou que a sensação de ameaça persistente afeta jovens entre 9 e 12 anos. A pesquisa, que analisou dados de quase 12 mil pré-adolescentes nos Estados Unidos, identificou que aqueles com maior sensação de risco apresentavam pior desempenho cognitivo e mais sintomas de ansiedade e depressão. Este achado, divulgado nesta segunda-feira, 04/05/2026, sublinha a urgência de ambientes seguros para o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes, com implicações profundas para o bem-estar social e individual.

“Já existiam pesquisas mostrando que viver em ambientes violentos está associado a mais ansiedade, estresse e dificuldades emocionais”, relatou a psicóloga Bianca Dalmaso, do Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental, do Hospital Israelita. “O que esse estudo acrescenta é que a forma como a pessoa percebe o ambiente também parece ter relação com saúde mental e desempenho cognitivo, especialmente em pré-adolescentes. Isso destaca a vulnerabilidade dos jovens a fatores psicossociais, independentemente da realidade concreta de perigo.”

Os pesquisadores acompanharam os participantes em dois momentos cruciais: inicialmente, quando tinham entre 9 e 10 anos, e depois, aos 11 ou 12 anos. Utilizando entrevistas, questionários, testes cognitivos e exames de ressonância magnética, eles examinaram detalhadamente a associação entre a percepção de segurança e os desfechos na saúde mental, cognição e estrutura cerebral. Os resultados apontam para impactos diretos tanto no funcionamento quanto na arquitetura do cérebro em desenvolvimento.

Aqueles pré-adolescentes que se sentiam mais inseguros apresentaram níveis mais elevados de depressão, ansiedade e problemas de comportamento, além de um desempenho inferior em testes cognitivos. Em contrapartida, uma maior sensação de segurança foi associada a um volume superior da amígdala, uma área cerebral vital para o processamento de emoções. Essa diferença sugere que a percepção de segurança pode moldar diretamente as estruturas cerebrais responsáveis pela regulação emocional.

“O cérebro reage à sensação de ameaça”, esclareceu a psicóloga Dalmaso. “Ao sentir que está em risco, mesmo na ausência de perigo imediato, o corpo pode entrar em um estado de alerta constante. Esse estado prolongado culmina em maior estresse, eleva os níveis de ansiedade, dificulta a concentração e provoca desgaste emocional significativo.” Viver sob uma sensação contínua de insegurança pode, portanto, estar ligada a alterações nas funções cognitivas e no desenvolvimento cerebral, sobretudo em regiões cruciais para a atenção, memória, regulação emocional e tomada de decisão.

Quando o cérebro percebe uma ameaça, ele prioriza a vigilância e a autoproteção. “Com isso, restam menos recursos mentais disponíveis para processos essenciais como a aprendizagem e a concentração”, observou Dalmaso. Considerando que o cérebro do pré-adolescente ainda está em plena formação, essa sensibilidade ao ambiente pode resultar em impactos duradouros, comprometendo o potencial de desenvolvimento cognitivo e emocional desses jovens.

É fundamental ressaltar, contudo, que o estudo estabelece apenas associações, e não uma relação direta de causa e efeito ou mudanças causadas exclusivamente pela percepção de insegurança. Outros fatores, como o ambiente familiar, a renda e a saúde mental preexistente, também exercem influência sobre esses resultados. “O estudo não traz uma conclusão definitiva, mas reforça que a percepção de segurança pode ser um fator relevante para o bem-estar psicológico e deve ser considerado em políticas públicas e intervenções,” analisou a especialista.

Além disso, essa percepção pode operar em um ciclo bidirecional: a sensação de insegurança afeta a saúde mental, e o inverso também é verdadeiro. Pessoas com maior ansiedade, por exemplo, tendem a perceber mais riscos, e indivíduos sob estresse interpretam situações ambíguas como ameaçadoras. “Isso pode criar um ciclo vicioso em que, quanto mais ansiedade é sentida, maior a percepção de ameaça. E, por sua vez, a maior percepção de ameaça intensifica a ansiedade,” detalhou a psicóloga do Einstein.

Para mitigar o impacto dessa percepção, algumas estratégias podem ser eficazes. Embora não eliminem a insegurança em contextos onde ela é real, elas podem fortalecer a sensação de segurança e promover o bem-estar. No âmbito individual, é crucial manter uma rotina estruturada, fortalecer vínculos sociais, moderar o consumo de notícias violentas e investir em métodos de regulação emocional, buscando apoio psicológico sempre que necessário. Em níveis social e comunitário, as ações incluem fomentar relações de vizinhança, elevar o senso de pertencimento e construir redes de apoio solidárias.

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