PATRIMÔNIO VIVO
IFRN revela história no Cemitério do Alecrim
Projeto transforma espaço centenário em roteiro turístico e cultural para Natal. Atividade educativa ocorreu neste sábado, 09 de maio de 2026.
Para redefinir a percepção do patrimônio cultural e fomentar o turismo local, o Professor Henrique Lucena, do IFRN, liderou uma iniciativa que transformou o histórico Cemitério do Alecrim em um vibrante espaço de memória e visitação turística. A primeira de uma série de atividades ocorreu nesta sábado, 09 de maio de 2026, reunindo estudantes, professores e o público em geral, com o objetivo de conectar a população com a rica história da cidade e capacitar futuros guias de turismo, ao mesmo tempo em que ressignifica o papel dos cemitérios como monumentos vivos da identidade social.
Durante a manhã desta sábado, 09 de maio de 2026, estudantes de cursos superiores nas áreas de Eventos e de Guia Turístico, juntamente com professores e pessoas interessadas em aspectos humanos, históricos e arquitetônicos, exploraram o Cemitério do Alecrim. Este ambiente singular, onde repousam falecidos desde 1856, ano de sua criação no período imperial do Brasil, revelou-se um tesouro de narrativas e arte.
Henrique Lucena, Professor de História do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) e Mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), explicou a essência do projeto: “Essa atividade estrutura uma memória institucionalizada do Cemitério do Alecrim em relação à população, para que ela reencontre elementos fundamentais da construção da identidade e do pertencimento. Associamos o túmulo como uma obra de arte e o cemitério como a reprodução dos elementos sociais, estéticos e políticos da sociedade natalense nos contextos do século XIX e século XX.”
Ele destacou a dupla finalidade da ação: “A atividade é formativa para guias de turismo, mas foi aberta para a população em geral. O objetivo é que os guias tenham uma formação mais aprofundada, mais estruturada sobre o que é o cemitério, para que ele também se transforme em um espaço de constituição do roteiro turístico da cidade de Natal.”
Lucena revelou que a iniciativa impulsionará uma produção acadêmica contínua, incluindo a catalogação de túmulos e a reconstrução de narrativas sobre o espaço cemiterial. Os alunos, segundo o professor, passarão a ver o cemitério não apenas como um ponto de interesse turístico, mas como um palco para o endoturismo e para a geração de "desdobramentos sociais, políticos e identitários para a população de maneira geral”.
Além desta visita inicial, outra aula-atividade está programada para 23 de maio de 2026, visando atrair mais participantes, embora nem todos os 150 inscritos para o evento deste sábado tenham comparecido. “Teremos uma outra aula, também voltada para guias de turismo, mais aberta ao público, e faremos uma atividade no cemitério à noite. Tudo isso será documentado e registrado em audiovisual, sendo produzido material de catalogação sobre o Cemitério do Alecrim e os túmulos, especialmente aqueles com valor artístico”, acrescentou Henrique Lucena.
O projeto ambiciona expandir-se para o Cemitério de Nova Descoberta, que “tem características similares” ao do Alecrim. Lucena ressaltou que, após esses, os cemitérios de Natal foram “mercadologicamente organizados”, perdendo a “ideia de monumento como artefato cultural e informacional”.
Historicamente, o Cemitério do Alecrim foi o “primeiro cemitério público de Natal”. Antes de sua fundação, os sepultamentos ocorriam dentro de igrejas, sendo a Matriz de Nossa Senhora da Apresentação o primeiro cemitério da cidade, já reconhecida como “espaço tumular e sagrado”.
Durante sua explicação, o Professor Lucena detalhou que a criação do Cemitério do Alecrim, durante o reinado de Dom Pedro II, tinha o propósito de sepultar vítimas de epidemias como cólera e varíola. Ele contextualizou que a segunda metade do século XIX foi “catastrófica no sentido humano”, devido à “verdadeira mortandade no mundo tropical de indivíduos que estão sofrendo de epidemias, de doenças infectocontagiosas”, fenômeno que não se limitava ao Brasil, mas abrangia “todo o hemisfério sul, toda a região tropical do mundo”.
José Jairo dos Santos Filho, aluno do primeiro semestre do curso de Eventos no IFRN do campus das Rocas, no centro histórico de Natal, compartilhou sua experiência pioneira na atividade. “Acho bem interessante, a gente conhece mais sobre a cidade onde a gente nasceu e viveu. Um pouco mais das famílias tradicionais daqui também. E a diferença entre as arquiteturas de diversas épocas que se pode presenciar no cemitério”, comentou.
Jairo Santos enfatizou a importância pessoal da visita: “É importante essa visita ao Cemitério do Alecrim, na parte mais organizacional e também para adquirir o conhecimento para, posteriormente, passar às pessoas que nos visitam, como turistas.”
Redes sociais como "Bio-Algoritmo"
Para o Professor Henrique Lucena, o trabalho com cemitérios públicos transcende a academia e o turismo, configurando-se como uma ação social. Ele visualiza a utilização das redes sociais para disseminar informações e dados coletados – inclusive fotografias – de forma transformadora: “o algoritmo deixa de ser um necro-algoritmo, que só entrega porcaria e passa a ter uma função de divulgação, com preservação da informação, criando um espaço virtual de conhecimento, um espaço virtual de pesquisa, um espaço virtual que ele deixa de ser um necro-algoritmo e passa a ser um bio-algoritmo.” Esta nova abordagem promete dar vida e propósito a informações que antes poderiam ser consideradas macabras ou irrelevantes para o público.
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