MÚSICA EM XEQUE

IA redefine mercado musical e desafia compensação em streamings

Mãos segurando um celular com o ícone de streaming de música e elementos visuais que remetem à inteligência artificial.
A inteligência artificial revoluciona o mercado musical, mas impõe desafios éticos e de remuneração às plataformas de streaming e aos artistas.

Deezer registra 60 mil faixas diárias de IA; desafio é diferenciar remuneração.

A inteligência artificial (IA) invadiu as plataformas de streaming de música nos últimos anos, transformando radicalmente o processo de criação musical e impondo um novo panorama ao setor. Com um volume impressionante de cerca de 60 mil faixas geradas por IA submetidas diariamente à Deezer, o mercado musical enfrenta agora um dilema complexo: como garantir a autoria, proteger os direitos patrimoniais e assegurar uma remuneração justa para os criadores humanos diante de uma tecnologia que permite produções massivas com baixo esforço e altos ganhos? Este avanço tecnológico não apenas redefine a cadeia de produção, mas também ameaça a sustentabilidade dos artistas e a própria dignidade da criação humana, tornando indistinguível para a maioria dos ouvintes a diferença entre uma canção composta por algoritmos e uma obra de arte forjada pela experiência e emoção humana.

A proliferação dessas composições digitais tem gerado uma verdadeira dor de cabeça para as empresas de streaming. Enquanto a Deezer opta por informar seus assinantes sobre o conteúdo 100% gerado por IA, o Spotify, por outro lado, ainda não oferece informações detalhadas sobre o assunto, focando suas ações em evitar roubos de identidade e fraudes, sem barrar a entrada de novas produções algorítmicas.

Esta facilidade na criação impulsiona o surgimento de aplicativos como Amper Music, LANDR e Boomy, que democratizam a produção e até a monetização de faixas, incentivando ainda mais a chegada de músicas feitas por inteligência artificial. Tal cenário levanta questões urgentes sobre direitos autorais, uma vez que artistas e até bandas inteiramente criadas por IA conquistam espaço e faturamento consideráveis nas plataformas, alterando o fluxo tradicional do mercado fonográfico.

A dimensão do desafio é evidenciada por uma pesquisa Deezer–Ipsos, realizada com 9 mil participantes em oito países, que revelou que 97% dos ouvintes não conseguem diferenciar canções compostas por inteligência artificial das criadas por seres humanos. Um caso notório é o da cantora de soul Sienna Rose, uma criação de IA que, no fim de 2025, lançou 45 faixas em apenas dois meses, acumulando mais de 2,6 milhões de ouvintes e até mesmo uma estética visual desenvolvida para enganar e cativar o público.

Diante do aumento exponencial de reproduções de músicas geradas por inteligência artificial, representantes das próprias plataformas de streaming começam a reconhecer a inevitabilidade da tecnologia. Romain Takeo Bouyer, chefe de análise de conteúdo do Spotify, declarou ao jornal Le Monde que “o uso da IA em si não é um problema”. Contudo, Alexis Lanternier, CEO da Deezer, apontou à Reuters que o maior obstáculo atual reside na criação de políticas claras para diferenciar os pagamentos de músicas de IA das composições humanas. Até o momento, a remuneração é igualitária, o que, na prática, enfraquece diretamente a cadeia de produção musical humana, desvalorizando o trabalho e a arte de talentos reais.

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