AVANÇO CIENTÍFICO

IA da Unicamp transforma prognóstico oncológico

Representação visual da IA da Unicamp mapeando músculo e gordura em tomografia de paciente com câncer.
IA criada na Unicamp separa tecidos por cores e ajuda a medir composição corporal de pacientes com câncer — Foto: CancerThera/Divulgação

Nova tecnologia analisa composição corporal em menos de um minuto e prevê riscos de mortalidade com mais precisão, oferecendo esperança de tratamentos personalizados.

Um avanço significativo na oncologia foi alcançado por Pesquisadores da Unicamp, que desenvolveram uma inteligência artificial capaz de mapear a composição corporal de pacientes com câncer com agilidade e precisão. Anunciada nesta sábado, 02/05/2026, a ferramenta promete otimizar o diagnóstico e personalizar tratamentos, marcando um novo capítulo na luta contra a doença ao focar no estado geral do paciente, não apenas no tumor, oferecendo esperança e cuidado mais individualizado.

Pesquisadores da Unicamp desenvolveram um modelo de inteligência artificial (IA) que mapeia detalhadamente a composição corporal de pacientes com câncer, incluindo músculos e gordura, em menos de um minuto. A análise é feita a partir de exames de tomografia computadorizada. Esta tecnologia agiliza um processo que, feito manualmente, levaria até uma hora, contribuindo para prognósticos mais precisos e direcionando tratamentos de forma personalizada. A expectativa é que o sistema apoie as decisões médicas no futuro, humanizando o cuidado oncológico.

Revolução na Leitura Clínica

Atualmente, a perspectiva clínica sobre um paciente em tratamento foca principalmente nas características do tumor, como tamanho e metástases. A análise da composição corporal amplia essa leitura, considerando o organismo do paciente e sua resposta individual ao tratamento, um fator crucial muitas vezes negligenciado.

Como a IA da Unicamp Funciona

O sistema foi criado no Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cedip) CancerThera, localizado na Unicamp e apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Uma equipe multidisciplinar, que une conhecimentos da física, oncologia e nutrição, deu vida à tecnologia.

A IA atua por meio da "segmentação de imagens", analisando uma tomografia computadorizada da região da terceira vértebra lombar (L3), considerada padrão para essa análise. Ela consegue separar e colorir cada tipo de tecido de forma autônoma, diferenciando ossos, vísceras, músculos e gordura que, em uma tomografia comum, aparecem misturados em tons de cinza.

O grande diferencial da tecnologia reside em sua capacidade de identificar e definir, minuciosamente e em tempo recorde:

  • o tecido muscular;
  • a gordura subcutânea (logo abaixo da pele);
  • a gordura visceral (entre os órgãos);
  • a gordura intramuscular (entre as fibras dos músculos).

Maria Carolina dos Santos Mendes, nutricionista e pesquisadora de pós-doutorado e uma das integrantes do projeto, explica que, na prática clínica atual, essa avaliação detalhada por tomografia é limitada. "Hoje, a gente não consegue fazer essa avaliação pela tomografia, porque a gente não tem nenhum software e os que existem são caros. O que a gente faz para a avaliação da composição corporal é medir as circunferências de panturrilha, braço, dobras cutâneas. E isso não dá para a gente essa avaliação tão sensível desses compartimentos corporais como a gente tem através da análise da imagem", ressalta.

O algoritmo da IA foi treinado com a lógica do raciocínio de médicos e nutricionistas, apresentando uma margem de erro estimada em menos de 5%. O físico nuclear Jun Takahashi detalha que a ferramenta combina dois modelos treinados com dados científicos obtidos na Faculdade de Ciências Médicas e no Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), executando, de forma mais rápida, automática e padronizada, o que antes era feito por humanos.

Por Que a Composição Corporal Importa

Um estudo conduzido pelo mesmo grupo de pesquisadores da Unicamp revelou que a análise automatizada da composição corporal de pacientes com câncer de estômago, feita por inteligência artificial, é capaz de prever os riscos de mortalidade de forma mais precisa. O artigo intitulado "Melhorando a previsão de prognóstico do câncer gástrico ressecável: Uma análise de aprendizado de máquina combinando características clínicas e radiômica da composição corporal" foi publicado na prestigiada revista científica Informatics in Medicine Unlocked.

Tradicionalmente, a oncologia usa o sistema TNM (de Tumor, Linfonodo e Metástase) para classificar o avanço do câncer. Contudo, esse sistema foca apenas no tumor e não explica por que pacientes no mesmo Estágio da doença frequentemente apresentam evoluções tão distintas.

A pesquisa da Unicamp, ao cruzar dados clínicos com a análise corporal da IA, mostrou que pacientes com câncer gástrico em Estágio II (teoricamente menos grave), mas classificados como de "alto risco" pela ferramenta, tiveram uma expectativa de vida semelhante à de pacientes no Estágio III. Isso significa que a composição corporal (especialmente músculo e gordura) influencia fortemente a sobrevivência, e a IA pode identificar vulnerabilidades que o método padrão não detecta. Certas alterações na gordura e no músculo, por exemplo, podem indicar problemas como inflamação e caquexia (perda extrema de massa muscular), que pioram significativamente o prognóstico.

José Barreto Campello Carvalheira, oncologista e pesquisador principal no CancerThera, explica: "A gente pega essas informações que tem através dessas análises e une a outras informações clínicas e da doença do paciente. A gente une isso com exames de sangue, com informações do TNM e outras informações, e tiramos ali características importantes".

Impacto Direto na Vida do Paciente

O uso da IA na análise da composição corporal faz uma diferença crucial:

  • Reforça que o câncer não depende apenas do tumor, mas do estado geral e da resiliência do corpo do paciente.
  • Permite prever melhor quem está mais vulnerável e precisa de atenção redobrada.
  • Ajuda médicos a monitorar pacientes com maior precisão e agir preventivamente contra complicações.
  • Pode ajudar a poupar pacientes de tratamentos excessivamente agressivos e, por vezes, ineficazes.
  • Impacta diretamente a nutrição clínica, possibilitando que a equipe crie um suporte alimentar focado na necessidade exata do paciente, combatendo a perda de massa magra e promovendo sua dignidade.

Caminho para o Futuro

O programa de computador já foi registrado pela Agência de Inovação da Unicamp e está sendo utilizado em pesquisas. Contudo, ainda não está disponível para a população e, para que chegue ao mercado e seja usado em hospitais e clínicas, depende do licenciamento por parte de empresas do setor de saúde. Além disso, a ferramenta ainda precisa ser validada em novos estudos.

Atualmente, o programa serve para classificar o nível de risco dos pacientes, funcionando como um alerta valioso para a equipe de saúde. Ele não determina, por enquanto, mudanças diretas no tratamento, mas ajuda a identificar os pacientes mais frágeis que necessitam de monitoramento rigoroso e suporte nutricional imediato, garantindo que nenhum paciente seja deixado para trás.

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TAGS:

IA, CÂNCER, UNICAMP, SAÚDE, TECNOLOGIA, ONCOLOGIA

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A IA da Unicamp revoluciona o tratamento do câncer, mapeando a composição corporal de pacientes em menos de um minuto. Descubra como essa inovação promete prognósticos mais precisos e tratamentos personalizados, mudando o futuro da oncologia no Brasil. Leia mais e entenda o impacto!

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