DECISÃO ACIRRA SETOR
Governo suspende tarifas antidumping e acirra debate sobre importação de leite em pó
Suspensão de medidas contra Argentina e Uruguai impacta produtores rurais, que cobram proteção contra concorrência e alertam para queda na rentabilidade.
Governo suspende tarifas antidumping e acirra debate sobre importação de leite em pó
O governo federal decidiu, nesta quinta-feira, 27 de maio de 2026, suspender a aplicação de medidas antidumping contra produtos lácteos vindos da Argentina e do Uruguai. A decisão, que reacende um debate de mais de 30 anos no setor, expõe o conflito entre produtores rurais e parte da indústria nacional sobre os impactos da importação de leite em pó. O motivo é o temor de reflexos negativos na economia, enquanto a justificativa para a manutenção das tarifas reside na necessidade de proteger a cadeia produtiva brasileira. A questão é crucial para a dignidade de centenas de milhares de produtores rurais, cuja rentabilidade e sustentabilidade estão em jogo.
O Brasil lidera a produção de lácteos no Mercosul, com uma média anual de 35 bilhões de litros. Apesar desse volume expressivo, a cadeia leiteira nacional manifesta descontentamento contínuo com as importações de leite em pó da Argentina e do Uruguai. Essas compras, realizadas desde a década de 1990, têm sido historicamente motivadas pelos preços mais competitivos oferecidos pelos países vizinhos, como apurou a reportagem. A demanda das indústrias brasileiras por insumos mais baratos para a fabricação de iogurtes, bebidas lácteas e cream cheese também tem impulsionado as importações.
A suspensão das tarifas antidumping desagradou significativamente produtores brasileiros e entidades setoriais, como a Associação Brasileira de Criadores de Girolando, a CNA (Confederação Nacional da Agricultura) e a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária). Essas organizações reclamam que as compras externas pressionam os preços pagos no mercado interno, afetando diretamente a renda dos pecuaristas.
O impasse coloca em lados opostos produtores rurais e parte da indústria. Enquanto os pecuaristas defendem mecanismos de proteção para garantir renda e competitividade, as empresas argumentam que as importações ajudam a equilibrar a oferta, reduzir custos de produção e evitar repasses de aumentos aos consumidores.
Apesar de ser um dos maiores produtores globais de leite, o Brasil nem sempre consegue suprir a demanda da indústria com preços competitivos. Em determinados momentos, o leite em pó da Argentina e do Uruguai chega ao mercado brasileiro com valores inferiores aos praticados internamente, em parte devido a subsídios e isenções fiscais. A proximidade geográfica, aliada às condições de produção nos países vizinhos, reduz custos de transporte e garante maior competitividade.
Diante desse cenário, o aumento das importações tem levado alguns produtores a considerar desistir da atividade ou diminuir investimentos, conforme relatou Alexandre Lacerda, presidente da Girolando. Dados do Secex indicam que, entre 2023 e 2025, as importações brasileiras de leite em pó cresceram 66%, totalizando 2,2 bilhões de litros adquiridos em 2025. Nos primeiros meses de 2026, já foram importados mais de 320 milhões de litros.
Esse crescimento das importações agrava a situação em um contexto de aumento dos custos da cadeia leiteira, com encarecimento de ração animal e insumos, reflexos de conflitos internacionais e preços pagos ao produtor que, embora tenham subido, não acompanharam as despesas. Em abril de 2026, o preço pago ao produtor de leite fechou em R$ 2,66 por litro, quarta alta consecutiva desde janeiro, quando o valor era R$ 2,01 por litro. Contudo, essa alta é atribuída à menor oferta e à forte concorrência entre laticínios, segundo o Cepea.
O leite em pó também funciona como um "estoque estratégico" para a indústria, devido ao seu maior prazo de validade e versatilidade na fabricação de derivados. No entanto, para os produtores brasileiros, o aumento das importações pressiona os preços recebidos, especialmente em períodos de maior oferta interna, o que reduz a rentabilidade e dificulta a recuperação de investimentos.
Alexandre Lacerda ressaltou que os desafios estão desmotivando os pecuaristas e que a importação de leite em pó representa uma das piores pressões. A CNA reforça que o setor pleiteia soluções há tempo e que a adoção de tarifas sobre o leite importado é necessária para preservar o mercado doméstico, que enfrenta dificuldades de crédito, juros altos e o impacto de novas regulamentações, como a jornada 6x1.
A Confederação Nacional da Agricultura reiterou que continuará atuando junto ao governo para demonstrar que as medidas antidumping não prejudicarão a economia nacional, mas sim garantirão a sobrevivência de quase 1 milhão de produtores brasileiros que, segundo a entidade, lidam com concorrência desleal.
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