ENERGIA ESTRATÉGICA

Governo propõe venda de excedentes hídricos a vizinhos

Vista aérea da Hidrelétrica de Furnas em São José da Barra, mostrando a estrutura da usina e o reservatório.
Hidrelétrica de Furnas, em São José da Barra — Foto: Divulgação / Axia Energia

Consulta pública abre caminho para gerar receita com água não utilizada, estabilizando a rede nacional.

O governo brasileiro, em uma iniciativa estratégica, abriu nesta segunda-feira, 27 de abril de 2026, uma consulta pública para propor uma nova modalidade de exportação de energia hidrelétrica excedente. A medida visa transformar o que hoje seria desperdício de água em receita substancial, ao permitir a venda antecipada de energia que as usinas podem gerar com o excedente dos reservatórios, beneficiando a economia do país e a estabilidade do sistema elétrico nacional.

Conhecido como “vertimento turbinável antecipado”, o mecanismo permite que o Brasil comercialize com Argentina e Uruguai a energia que poderia ser produzida com a água excedente dos reservatórios. Sem essa inovação, tal recurso valioso acabaria sendo desperdiçado, pois não seria utilizado para atender ao consumo interno e precisaria ser liberado dos reservatórios.

A iniciativa promete uma dupla vantagem: gerar receita a partir de um recurso atualmente não aproveitado e, ao mesmo tempo, aliviar o excesso de energia disponível na rede. Essa sobrecarga tem gerado prejuízos às usinas solares e eólicas, além de dificultar a operação do sistema elétrico nacional, gerido pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

A ideia de otimizar o uso da água e gerar valor com excedentes já era um tema de longas discussões entre o governo e grandes geradores de energia elétrica nos últimos anos. Embora uma modalidade similar de exportação – baseada em vertimentos iminentes (sobras de água que devem ocorrer em breve) – tenha sido usada em 2023, período de chuvas abundantes que forçou a abertura dos vertedouros, a proposta atual avança ao considerar “vertimentos futuros”, excedentes previstos para os próximos meses, permitindo um planejamento mais robusto. A operação de 2023, por exemplo, gerou um benefício financeiro de R$ 788,2 milhões.

Conforme a proposta anunciada nesta segunda-feira, o ONS poderá autorizar a exportação antecipada pelas hidrelétricas quando houver previsão de sobras futuras de água com potencial para geração de energia. Essa nova operação será focada em usinas localizadas nos subsistemas Sul e Norte, garantindo que a energia dos subsistemas Sudeste/Centro-Oeste e Nordeste, considerados essenciais para o abastecimento nacional, permaneça intocada.

O plano detalha dois períodos distintos ao longo do ano, alinhados ao ciclo de chuvas no Norte, que impacta diretamente o volume de geração das grandes hidrelétricas da região. No primeiro intervalo, de junho a novembro, época seca no Norte, a exportação antecipada poderá ocorrer desde que os reservatórios do Sul do país mantenham bons níveis de água. Já no segundo período, de dezembro a maio, mais chuvoso no Norte, o foco será recuperar o armazenamento do Sul após as exportações anteriores, ampliando o uso das hidrelétricas do Norte e reduzindo a geração no Sul.

Marisete Dadald Pereira, presidente da Abrage, associação que reúne grandes investidores do setor como Axia Energia, Engie Brasil, CTG Brasil e Auren, ressaltou a relevância da nova modalidade. Segundo ela, a proposta abre uma oportunidade significativa para os geradores hidrelétricos, ao permitir evitar o desperdício de recursos por falta de demanda. “Em um sistema cada vez mais renovável, o desafio não é só gerar energia limpa, mas evitar que ela seja desperdiçada”, afirmou Pereira, destacando que a fonte hidrelétrica frequentemente tem sua geração ajustada pelo ONS, por permitir mudanças rápidas no volume produzido.

A nova modalidade de exportação antecipada dependerá da adesão dos geradores hidrelétricos interessados e não incluirá usinas que operam sob o regime de cotas, destinadas ao mercado regulado, nem a Itaipu Binacional. A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) será responsável pela condução de toda a operação.

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