REGULARIZAÇÃO EM PAUSA

Gilmar Mendes suspende julgamento de terras paulistas no STF

Ministro Gilmar Mendes no plenário do STF durante julgamento.
Ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal (STF) no plenário do STF.

Decisão temporária impacta o Programa Estadual de Regularização de Terras, prometido por Tarcísio.

O Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu por 90 dias o julgamento do projeto do governo de São Paulo que permite a venda de terras públicas a fazendeiros com descontos de até 90%. A decisão, tomada nesta sexta-feira, 8 de maio de 2026, veio após um pedido de vistas do ministro Gilmar Mendes, que solicitou mais tempo para aprofundar a análise da matéria. Essa pausa temporária adia a conclusão sobre uma política estadual de regularização fundiária crucial, que gera debate intenso sobre sua constitucionalidade, o impacto na distribuição de terras e a dignidade das famílias que vivem no campo.

O Programa Estadual de Regularização de Terras é uma das principais bandeiras do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o setor agropecuário. No entanto, sua legalidade é questionada em uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) movida pelo PT no STF, alegando que a medida desvirtua o uso social da terra.

A ministra Cármen Lúcia, relatora do caso, já havia retirado o julgamento de pauta em 2023. Agora, a ação retornou para o plenário virtual, aberto nesta sexta-feira, 8 de maio de 2026. Contudo, no mesmo dia, o andamento foi interrompido por três meses após a solicitação do ministro Gilmar Mendes. Segundo as normas da Suprema Corte, qualquer magistrado pode pedir a prorrogação do prazo para análise. Se um segundo ministro fizer o mesmo, o julgamento só será retomado após as eleições.

A lei que autoriza o estado a vender terras públicas com grandes descontos, que podem chegar a 90%, foi aprovada no final do governo de Rodrigo Garcia (à época, no PSDB) e implementada na gestão atual de Tarcísio. O governador, inclusive, buscou diálogo em Brasília com ministros do STF para defender o programa, que enfrenta forte oposição do PT e de movimentos sociais de trabalhadores sem-terra. Esses grupos argumentam que a política privilegia grandes proprietários em detrimento da reforma agrária e da justiça social.

Desde que o caso deixou a pauta original do Supremo, o governo Tarcísio expandiu o processo de venda das chamadas terras devolutas para o agronegócio, sua base de apoio. Em 2024, a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) aprovou um projeto de lei da gestão que prorrogou até o final de 2026 o prazo para adesão ao programa de regularização fundiária. Os processos foram acelerados a partir de 2023, sob a liderança de Guilherme Piai no Instituto de Terras de São Paulo (Itesp), que posteriormente foi promovido a secretário de Agricultura e agora projeta candidatura a deputado federal.

"Estamos enfrentando um desafio interno, de os proprietários da região entenderem a urgência disso. Essa lei e esse decreto têm um prazo para acabar", afirmou Piai na época, conforme revelado em vídeo divulgado pelo jornal Folha de S. Paulo, que trouxe o caso à tona.

Em resposta aos questionamentos, o governo de São Paulo enviou nota afirmando que "vem promovendo a maior iniciativa de regularização fundiária rural da história do estado". A gestão Tarcísio destaca que essa política "resultou no fim de conflitos e levou paz para o campo, especialmente no Pontal do Paranapanema".

A Fundação Itesp complementa, esclarecendo que, entre 2023 e 2025, foram regularizados mais de 5.300 imóveis rurais no estado, abrangendo uma área superior a 237 mil hectares. Desse total, mais de 90% são pequenas e médias propriedades. Somente no Pontal do Paranapanema, foram entregues 4.347 títulos, totalizando uma área de 185 mil hectares. "Essa ação proporcionou desenvolvimento, dignidade às famílias, investimento e segurança jurídica para a região", diz o comunicado.

A nota informa ainda que já foram regularizados 264 imóveis, totalizando 88 mil hectares, o que representa uma arrecadação direta de R$ 230 milhões aos cofres públicos. Atualmente, cerca de 350 processos seguem em andamento, abrangendo uma área estimada de 120 mil hectares.

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