FUTURO DO TRABALHO
Geração Z questiona a CLT no Dia do Trabalhador
Em 01/05/2026, especialistas e pesquisas revelam que jovens de 18 a 24 anos trocam garantias por propósito, acendendo um alerta para os riscos da informalidade.
Enquanto o Dia do Trabalhador, celebrado nesta sexta-feira, 01/05/2026, ressalta os 83 anos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), uma nova perspectiva emerge entre os mais jovens: a Geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) demonstra crescente descontentamento com as bases do trabalho formal. Diferente da Geração X (1965 a 1980), que celebra a segurança da CLT, 34% dos jovens veem o emprego como um meio de ascensão e priorizam propósito e bem-estar, conforme pesquisa “Gen Z: os novos autores da cultura” da MindMiners. Este cenário desafia as estruturas tradicionais e aponta para um impacto profundo nas relações laborais do futuro, com jovens trocando garantias por flexibilidade e busca de significado.
A pesquisa da MindMiners também aponta que 59% dos jovens consideram o mercado atual desfavorável, o que revela um descompasso entre a expectativa e a realidade. Essa percepção contribui para a insatisfação com o modelo tradicional de trabalho e impulsiona a população de 18 a 24 anos a pedir demissão voluntariamente por diversas razões. Destacam-se a busca por novas oportunidades (38%), a falta de reconhecimento (34%) e questões éticas (28%), conforme dados de 2025 do Ministério do Trabalho.
O neuropsicólogo Helington Costa, coordenador do curso de Psicologia da Estácio, avalia que o fator geracional influencia diretamente essa rejeição à formalidade. Ele explica: “Muitos jovens cresceram em um contexto em que os direitos trabalhistas como salário mínimo, décimo terceiro, férias remuneradas, FGTS e o seguro-desemprego já estavam relativamente consolidados. Como não vivenciaram a ausência dessas garantias, há uma tendência de desvalorizá-las.” A ausência de uma vivência histórica com a luta por esses direitos molda uma percepção de que são dados, não conquistas, diminuindo sua relevância.
No campo comportamental, as redes sociais também impulsionam essa percepção entre os jovens. “As redes funcionam como verdadeiros curadores de realidade. O que aparece ali é um recorte altamente selecionado por algoritmos, geralmente voltado para sucesso, liberdade e ganho financeiro rápido”, observa o especialista.
A exposição constante a esse tipo de conteúdo pode gerar frustração com a realidade do trabalho, intensificando a comparação social e, consequentemente, o sofrimento psicológico. Helington pondera que o problema não reside no desejo por autonomia ou crescimento financeiro, mas na crença de que tais conquistas ocorrem 'sem processo, sem risco e sem esforço consistente'.
Riscos da informalidade e outros modelos de trabalho
Com essa rejeição ao modelo tradicional, avança o interesse por outras formas de trabalho, como a "pejotização", o freelancing e o trabalho por plataformas. No entanto, o advogado especialista em Direito Trabalhista, Túlio Chaves, alerta que tais modelos acendem um sinal de alerta para a potencial perda de garantias essenciais, tornando o trabalhador mais vulnerável.
“Há uma ilusão de maior ganho, mas isso frequentemente ocorre com a transferência de todos os riscos da atividade para o trabalhador. Sem a proteção da CLT, o jovem fica mais vulnerável a oscilações de renda e à ausência de assistência em momentos de incapacidade laboral”, detalha o profissional, que também atua como docente de Direito da Estácio.
Entre os principais riscos, Túlio Chaves aponta a falta de contribuição previdenciária regular, o que compromete o acesso a benefícios cruciais como auxílio-doença e aposentadoria; a ausência de limites de jornada, favorecendo rotinas exaustivas e prejudiciais à saúde; e a inexistência de verbas rescisórias, que dificulta a transição entre vínculos e deixa o trabalhador desamparado em caso de demissão.
Para o advogado, embora a legislação atual precise evoluir para acompanhar as transformações do mercado, ela ainda cumpre um papel central na proteção dos trabalhadores. “A CLT continua sendo o instrumento mais eficaz de justiça social no país, ao garantir direitos mínimos e reduzir vulnerabilidades em um ambiente cada vez mais dinâmico”, finaliza o especialista, reforçando a importância de um debate equilibrado sobre o futuro do trabalho.
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