VOTO E FINANÇAS

Gaudêncio Torquato: o dinheiro é condição, não destino nas eleições

Propaganda eleitoral: santinhos jogados na rua.
Imagem colorida de "santinhos" jogados na rua - Metrópoles

Entenda por que verbas milionárias não garantem a vitória e como o eleitor decide.

A pergunta “o dinheiro ganha pleitos eleitorais?” ressurge com intensidade no cenário político contemporâneo, impulsionada por campanhas milionárias e a sofisticação do marketing digital. Embora muitos acreditem que a resposta seja um óbvio "sim", o consultor político Gaudêncio Torquato argumenta, em sua análise publicada neste domingo, 03/05/2026, que a realidade da influência financeira na política é bem mais intrincada, desafiando a percepção comum e destacando a importância da conexão genuína com o eleitorado.

Não há dúvida de que os recursos financeiros exercem um papel central nas disputas eleitorais. Eles viabilizam a campanha, estruturam equipes, ampliam a presença midiática, impulsionam candidaturas nas redes sociais e garantem capilaridade territorial. Sem investimento, candidatos tornam-se invisíveis, e na política atual, a invisibilidade equivale à derrota. A máxima “quem não é visto não é lembrado” tornou-se ainda mais contundente na era da comunicação em tempo real.

Historicamente, mobilizações mais bem financiadas tendem a iniciar com vantagem. O acesso a verbas robustas permite pesquisas qualitativas, a definição de estratégias precisas, a produção de conteúdo profissional e a ocupação de espaços privilegiados no imaginário do votante. O capital, nesse sentido, não apenas viabiliza as campanhas — ele potencializa as narrativas.

Mas há um limite para o poder do dinheiro. Ele não cria, por si só, legitimidade, carisma ou uma conexão profunda com o eleitorado. Pode amplificar uma mensagem, mas não substitui seu conteúdo intrínseco. Pode impulsionar uma candidatura, mas não garante sua aceitação irrestrita. Em muitos casos, o excesso de recursos, associado a estruturas artificiais, gera desconfiança e até rejeição.

A história política brasileira e internacional está repleta de exemplos de candidaturas ricas que foram superadas por campanhas mais enxutas, porém mais autênticas. O caso de Fernando Henrique, candidato à prefeitura municipal de São Paulo, contra Jânio Quadros, em 1985, ilustra bem essa dinâmica. Fernando Henrique, ou FHC, apresentava um programa exuberante, com uma das melhores equipes de marketing político do país, enquanto Jânio utilizava apenas a presença ao vivo na sala de gravação da TV RECORD, então localizada na avenida Miruna. Enquanto FHC expunha um vasto plano de serviços e obras, Jânio focava seu discurso no combate à criminalidade, repetindo insistentemente suas falas contra a "bandidagem". No último dia da votação, FHC chegou a sentar na cadeira de prefeito para uma foto, convicto de que venceria o pleito com ampla margem. Contudo, perdeu a eleição, com Jânio conquistando a vitória por uma pequena diferença.

Essa situação revela que o votante não é um ente passivo. Ao contrário do que se imaginava em tempos de propaganda unidirecional, o cidadão contemporâneo filtra informações, compara propostas, critica e reage. A abundância de dados — ainda que muitas vezes contaminada por desinformação — amplia sua capacidade de julgamento crítico.

Nesse contexto, emerge uma equação mais sofisticada: o investimento financeiro é uma condição necessária, mas não suficiente para o sucesso eleitoral. Ele funciona como combustível, mas o verdadeiro motor da campanha continua sendo a mensagem. E essa mensagem precisa dialogar com aquilo que, em última instância, move o voto: as condições concretas de vida e a dignidade do indivíduo e da sociedade.

O eleitor decide com base no que sente no bolso, na mesa e no cotidiano. Se a verba da campanha não consegue se conectar com essas dimensões — se não traduz expectativas reais em propostas críveis — ela se torna apenas ruído. E ruído, em excesso, pode afastar o público.

Além disso, existe um fator muitas vezes negligenciado: o imponderável da política. Episódios inesperados — uma crise, um escândalo, uma fala infeliz, um evento emocionalmente mobilizador — podem redefinir cenários em questão de dias. Nenhuma quantia é capaz de blindar completamente uma candidatura contra o imprevisível.

Outro aspecto relevante diz respeito à origem e ao uso dos recursos. Em um ambiente de crescente vigilância institucional e social, o custeio passou a carregar também um peso ético. Verbas mal explicadas, gastos excessivos ou sinais de abuso podem transformar uma aparente vantagem em vulnerabilidade. O cidadão, cada vez mais sensível ao tema da corrupção, tende a penalizar excessos.

Por fim, é preciso considerar a mudança estrutural no ecossistema da comunicação. As redes sociais democratizaram, em parte, o acesso à visibilidade. Embora também demandem investimento, permitem que mensagens orgânicas, autênticas e bem calibradas alcancem grande repercussão com custos relativamente menores. Nesse novo ambiente, criatividade, timing e conexão emocional podem, em certos casos, compensar limitações financeiras.

Portanto, o dinheiro não assegura a vitória sozinho — mas sua ausência quase sempre leva à derrota. Ele é um instrumento, não um destino. É um meio, não um fim. Sua eficácia depende da inteligência estratégica, da coerência do discurso e, sobretudo, da sintonia com o eleitor. A dignidade da escolha popular prevalece.

Em última análise, as disputas eleitorais continuam sendo decididas por pessoas, não por cifras. E pessoas votam não apenas no que veem, mas no que sentem, no que esperam e no que acreditam. Os recursos podem abrir portas, mas não atravessam, por si só, o coração do eleitor.

Eis a síntese: campanhas podem ser compradas; votos, não.

GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político.

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