COMUNICAÇÃO DO COPOM

Gabriel Galípolo assume falha na comunicação do Copom e explica decisão

Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, discursando no Senado Federal.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, fala na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal, no dia 19 de maio de 2026.

Presidente do Banco Central reconhece responsabilidade pela clareza da última ata e detalha pressões sobre a política monetária.

Nesta quinta-feira, 25 de junho de 2026, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, assumiu a responsabilidade pela comunicação da última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que gerou dúvidas no mercado. A declaração ocorreu durante sua participação na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal. A questão central é como a decisão do Copom de manter o ciclo de queda da Selic, mesmo diante da piora das perspectivas para a inflação, foi interpretada pelo mercado.

O Banco Central (BC) informou que optou por manter o ciclo de queda da Selic na semana passada, apesar de as perspectivas para a inflação nos próximos anos terem piorado. Essa comunicação gerou reações negativas na ata do Copom, divulgada na terça-feira, 23 de junho de 2026, que foi interpretada pelo mercado como uma postura menos rigorosa no combate à inflação.

Galípolo atribuiu a falha na transmissão da mensagem a si mesmo, explicando que a decisão do Copom foi de não reagir a eventos incertos, como a guerra no Oriente Médio. "A responsabilidade, se o parágrafo não conseguiu transmitir aquilo que a gente queria em um espaço conciso, é absolutamente minha", afirmou. O BC justificou a decisão, citando que as "melhores práticas" recomendam não reagir integralmente a variações de preços provocadas por choques de oferta.

Para Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, o ponto crucial da ata foi a menção de que o balanço de riscos agora apresenta assimetria altista, algo não mencionado anteriormente. Essa mudança foi interpretada como uma tentativa de adotar um tom mais duro, embora a ata também contenha elementos que apontam na direção oposta. "Apesar de as projeções do Banco Central permanecerem acima da meta, o Comitê julgou mais adequado considerar trajetórias de juros que evitassem maior volatilidade", explicou o especialista.

Em outras palavras, o BC avaliou que interromper o ciclo de cortes da Selic neste momento poderia levar a um aumento excessivo dos juros, impactando negativamente a economia e o controle inflacionário a longo prazo. Galípolo reconheceu a dificuldade de comunicar decisões complexas em espaços concisos: "É um caso particular de uma incompreensão, um ruído que foi gerado a partir daquele parágrafo [...] que decorre da tentativa de explicar uma série de coisas em um espaço muito apertado e conciso do próprio comunicado". Ele também destacou que a função do Banco Central não é criar consenso entre as opiniões do mercado.

Os dois lados da moeda

Em entrevista sobre o Relatório de Política Monetária (RPM) do segundo trimestre, Galípolo detalhou as duas principais pressões que o Banco Central enfrenta: o desgaste causado pelo nível elevado dos juros e a demanda por sinalizações sobre os próximos passos da política monetária. Ele apontou que críticas ao patamar da Selic, que permanece significativamente alto, são esperadas por setores da economia e da política. "Existe uma primeira ordem de crítica que vem de setores da economia, da sociedade e da política, inerente ao fato de convivermos há tanto tempo com uma taxa de juros algumas centenas de pontos-base acima da taxa neutra", explicou.

A segunda fonte de pressão é a busca do mercado por maior previsibilidade. Galípolo reconheceu que, em momentos de incerteza, é natural o desejo por guidance (sinalização), mas ressaltou que essa prática não é recomendada pela literatura ou adotada por outros bancos centrais. Antecipar as decisões futuras, segundo ele, pode reduzir a eficácia da política de juros. Ele defendeu uma comunicação mais clara, sem confundi-la com a antecipação de decisões. "O Banco Central vai preservar o seu direito de não dar essa informação quando achar que não interessa divulgá-la antecipadamente. Não porque estamos escondendo o que vamos fazer, mas porque essa decisão será tomada daqui a 40 dias, na próxima reunião", concluiu.

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