CRIME BILIONÁRIO
Furtos de energia geram R$ 10 bilhões em prejuízo
Ligações clandestinas causaram 620 mil apagões em 2025 e aumentam a conta de luz dos consumidores regulares em quase 3%.
Os furtos de energia elétrica, perpetrados por ligações clandestinas conhecidas como "gatos", desviaram mais de 22,5 bilhões de kWh em 2024 e geraram um prejuízo alarmante de R$ 10 bilhões para as concessionárias em 2025, conforme dados divulgados pela Associação das Distribuidoras de Energia (Abradee) e especialistas do setor. Este cenário impacta diretamente a dignidade e o orçamento do consumidor regular, elevando em quase 3% o valor da conta de luz, e compromete a segurança e a estabilidade do fornecimento, resultando em 620 mil apagões que, no ano passado, afetaram 2,1 milhões de residências e estabelecimentos comerciais por todo o país.
Esses desvios de energia representam um volume quase duas vezes maior que a produção anual da usina de Belo Monte, a segunda maior hidrelétrica do Brasil, e equivalem à quantidade de energia necessária para abastecer toda a Região Sudeste por um mês. O impacto financeiro é sentido em diversas frentes, sendo o Amazonas o estado com o maior índice de energia furtada, onde R$ 35 de cada R$ 100 cobrados nas contas de luz são perdidos para os "gatos". O Amapá segue em segundo lugar, com perdas de R$ 22 a cada R$ 100, seguido por Rio de Janeiro, Pará, Rondônia e Pernambuco.
"Com a própria modernização de redes, já se combatem os desvios de energia nesses locais onde está sendo feita a modernização. E combatendo as perdas, nós poderíamos usar esse recurso para fazer investimento", afirma Rodrigo Inocêncio, engenheiro de perdas.
As consequências dos furtos de energia vão além dos prejuízos econômicos. As ligações ilegais sobrecarregam o sistema elétrico, elevando o risco de incêndios e provocando interrupções no fornecimento, especialmente nos horários de pico. Em 2025, os "gatos" foram responsáveis por 620 mil apagões, afetando a rotina e a segurança de milhões de brasileiros.
"Acontece principalmente no que nós chamamos de áreas de restrição operativa em comunidades conflagradas muitas vezes pelo crime e que as distribuidoras muitas vezes são impedidas de estarem operando e precisam das forças de segurança para poder fiscalizar esses furtos", explica Patricia Audi, presidente da Abradee.
Contudo, a prática criminosa não se restringe a áreas de vulnerabilidade social. Em Salvador, a polícia descobriu uma ligação clandestina em uma fábrica de bebidas energéticas, que desviava energia suficiente para abastecer 3.200 residências por 15 dias. No Rio de Janeiro, um "gato" chegou a ser encontrado abastecendo um carregador de carro elétrico, demonstrando a diversidade dos locais onde a ilegalidade ocorre.
Entre as distribuidoras, a Light registra o maior índice de perdas, com 22% da energia furtada em sua área de concessão, que abrange 31 municípios do estado do Rio de Janeiro, incluindo grande parte da Região Metropolitana. Rodrigo Brandão, diretor de distribuição da Light, informa que a empresa regularizou ou cortou mais de 140 mil ligações irregulares no ano passado. "Mesmo assim, o volume perdido de energia do ano passado é equivalente a alimentar uma cidade de 80 mil habitantes por um ano inteiro", destaca Brandão.
Furto de energia é crime, com pena prevista de um a oito anos de detenção, mas o problema transcende a esfera criminal, alcançando a segurança pública. Jerson Kelman, especialista em energia e professor da UFRJ, ressalta que a população mais vulnerável sofre as maiores consequências. "É principalmente um problema para a população que vive em áreas ocupadas por facções, onde o Estado não consegue entrar, não tem segurança, e que essas populações, às vezes, têm que pagar a quem ocupa o território. Enquanto tiverem bolsões onde o Estado brasileiro não consegue estar presente, nós vamos ter uma situação desarranjada em que a população é desassistida, tem um serviço de péssima qualidade e a população em geral paga parte do custo da energia que é furtada", conclui Kelman.
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