TELAS E APRENDIZADO
Fundação Bradesco combate telas e salva a leitura de estudantes
Instituição restringe dispositivos na Educação Infantil e 1º ano, distribuindo 4 livros anuais para 42 mil alunos em programa de leitura.
A estrutura cognitiva de crianças e jovens brasileiros passa por uma profunda transformação devido ao consumo excessivo de conteúdos digitais, uma realidade que desafia as bases da aprendizagem e da inclusão social. Diante desse cenário preocupante, a Fundação Bradesco implementa estratégias pedagógicas rigorosas, decidindo pela restrição total de telas na Educação Infantil e no 1º ano do ensino fundamental, além de fortalecer seu abrangente Programa de Leitura. Essa iniciativa, em destaque nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026, visa resgatar a capacidade de atenção e a profundidade no pensamento, essenciais para o desenvolvimento pleno e a participação cidadã de milhares de estudantes, combatendo uma barreira que impede o pleno domínio da linguagem formal e a inclusão social.
Um cenário em que 53% das famílias brasileiras raramente leem para seus filhos, conforme dados da OCDE, torna o papel da escola ainda mais crucial no enfrentamento ao imediatismo tecnológico.
A Barreira da Hiperconexão
A exposição a conteúdos digitais altamente estimulantes impacta diretamente a capacidade de sustentar a atenção, conforme alerta Leonardo Monteiro, gerente de ensino médio da Fundação Bradesco. Essa "hiperconexão" manifesta-se na dificuldade de alunos interpretarem textos longos, organizarem ideias com clareza e ampliarem o vocabulário. Monteiro detalha: "O consumo constante de conteúdos curtos, rápidos e altamente estimulantes reduz a capacidade de concentração, de sustentação da atenção e de aprofundamento da leitura. Isso se reflete na dificuldade de interpretar textos mais longos, organizar ideias com clareza, ampliar vocabulário e produzir escritas mais elaboradas.”
Para combater esse fenômeno alarmante, a Fundação Bradesco adota uma estratégia pedagógica ousada: a restrição total de telas na Educação Infantil e no 1º ano do ensino fundamental. "O foco está totalmente voltado para experiências concretas, interação, oralidade, exploração do mundo físico e construção das bases cognitivas e socioemocionais da aprendizagem", explica Mara Pane, superintendente de ensino da fundação. "Entendemos que, nessa etapa, o desenvolvimento da linguagem, da atenção e do pensamento precisa acontecer a partir de vivências reais e não mediadas prioritariamente por dispositivos", complementa.
Língua Portuguesa como Ferramenta de Inclusão
O domínio da norma culta no Brasil emerge como uma questão central. Embora o "português das redes sociais" tenha democratizado o debate público e amplificado vozes de grupos historicamente marginalizados — como comunidades quilombolas, indígenas e periféricas —, a ausência de domínio da linguagem formal ainda se apresenta como uma barreira de exclusão. Para os especialistas, o ensino da grafia correta, da paragrafação e da argumentação transcende a prática tradicional; trata-se de um ato de cidadania. O domínio dessas bases capacita novas vozes a influenciar o debate público de forma eficaz, sem que suas identidades regionais sejam apagadas. Ao contrário, elas são fortalecidas por uma comunicação robusta, apta a transitar em todas as esferas de poder.
Desacelerar para Inovar: O Programa de Leitura
Para enfrentar esse desafio contemporâneo, a Fundação Bradesco mantém um robusto Programa de Leitura que beneficia mais de 42 mil estudantes, distribuindo quatro livros por ano a cada aluno. O acervo, cuidadosamente selecionado, transita entre sucessos como Harry Potter e clássicos atemporais como Capitães da Areia, buscando criar vínculos afetivos profundos com a leitura. "Talvez ensinar crianças e jovens a desacelerar, refletir e construir pensamento com profundidade seja, atualmente, uma das coisas mais inovadoras que a escola pode fazer", reitera Monteiro.
O objetivo final, segundo o gerente, é assegurar que a literatura contemporânea continue a refletir o impacto social desses novos grupos, transformando a língua portuguesa em um instrumento vivo de resistência cultural e participação democrática efetiva.
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