SAÚDE NACIONAL FORTE

FarmaBrasil projeta R$ 30 bilhões para reduzir déficit e garantir saúde

Reginaldo Arcuri, presidente da FarmaBrasil, discute o plano Brasil Pharma 2035 para o setor farmacêutico.
Reginaldo Arcuri, presidente-executivo do Grupo FarmaBrasil. Foto: Poder360

O plano 'Brasil Pharma 2035' de Reginaldo Arcuri visa frear o déficit de US$ 13 bilhões e impulsionar a produção nacional, garantindo medicamentos essenciais para 210 milhões de brasileiros na próxima década.

Em uma iniciativa crucial para a saúde e economia do país, o setor farmacêutico brasileiro, representado por Reginaldo Arcuri, presidente-executivo do Grupo FarmaBrasil, delineou nesta domingo, 03/05/2026, o plano estratégico “Brasil Pharma 2035”. A proposta ambiciosa prevê investimentos superiores a R$ 30 bilhões ao longo da próxima década para erradicar o déficit comercial de US$ 13 bilhões em medicamentos e solidificar a soberania sanitária nacional, um passo fundamental para assegurar a dignidade e o acesso a tratamentos de qualidade para os 210 milhões de brasileiros.

O presidente-executivo do Grupo FarmaBrasil, Reginaldo Arcuri, de 71 anos, detalhou ao Poder360 os pilares do plano. A íntegra da entrevista pode ser acompanhada.

Déficit e dependência externa

Atualmente, o Brasil importa mais de 90% dos Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs), a matéria-prima essencial para a fabricação de medicamentos. Reginaldo Arcuri atribui este cenário à desestruturação da indústria de química fina nos anos 1990, uma lacuna que hoje nos torna vulneráveis. Embora o país produza cerca de 70% do volume de medicamentos consumidos, os 30% importados correspondem aos produtos de maior valor agregado, ampliando significativamente o rombo comercial e a dependência externa.

Essa fragilidade é evidenciada pelo déficit de US$ 13 bilhões registrado entre 2024 e 2025, impulsionado pela alta demanda por fármacos inovadores e de custo elevado, como os antagonistas de GLP-1 para tratamento da obesidade. Para a população, essa dependência se traduz em maior exposição a flutuações cambiais, crises de abastecimento globais e, por vezes, preços mais altos. Produzir no Brasil, segundo Arcuri, esbarra em custos regulatórios rigorosos, dificultando a competição com o mercado internacional e afetando a capacidade de o país proteger a saúde de seus cidadãos.

Metas de inovação e expansão

As metas estratégicas do setor para a próxima década visam transformar essa realidade, garantindo mais acesso e segurança para os pacientes:

  • 50 produtos de inovação incremental: Aperfeiçoamentos em fármacos já existentes para torná-los mais eficazes e convenientes. Exemplos incluem a conversão de injetáveis em comprimidos ou a redução de tratamentos de 21 para apenas 3 dias, facilitando a adesão e o conforto do paciente.
  • 10 inovações radicais: Desenvolvimento de moléculas inéditas no país, aproveitando a capacidade de cientistas e universidades nacionais. O objetivo é que o Brasil deixe de ser um mero 'copiador' para se firmar como polo gerador de conhecimento e soluções.
  • Geração de empregos: Dobrar o número de postos de trabalho qualificados, acompanhando a expansão das plantas industriais e dos centros de pesquisa, um impulsionador do desenvolvimento social e econômico.
  • Tecnologia no SUS: Ampliar a aplicação de inovações nacionais no Sistema Único de Saúde. Essa medida busca não só reduzir o déficit de US$ 13 bilhões e a ‘boca de jacaré’, mas também fortalecer a segurança nacional em saúde, assegurando que os 210 milhões de brasileiros tenham acesso a tratamentos modernos e produzidos internamente.

Empresas de capital nacional destinam entre 6% e 14% do faturamento líquido para pesquisa e desenvolvimento, demonstrando o compromisso com o avanço. No último ano, o setor acessou R$ 4 bilhões em linhas de fomento à inovação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Segurança jurídica e patentes

Para viabilizar esses vultosos investimentos, Arcuri enfatiza a necessidade de estabilidade na Lei de Patentes. Ele classificou a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de 2021, que fixou o prazo de validade em 20 anos, como 'clara, cristalina e objetiva', oferecendo a segurança jurídica essencial para o setor. Embora 71 ações na Justiça Federal tentem reverter esse entendimento, o segmento obteve 49 decisões favoráveis, reforçando a previsibilidade para quem investe.

A patente, para Arcuri, é um 'contrato social': a empresa detém exclusividade por duas décadas para reaver seu investimento em pesquisa, e, ao término desse período, o conhecimento se torna público, permitindo a produção de genéricos e a consequente redução de preços, beneficiando toda a sociedade.

SUS e medicamentos de alto custo

No contexto do SUS, o desafio é harmonizar o direito constitucional à saúde com o custo exorbitante de novas tecnologias. O executivo destacou o modelo de compartilhamento de risco da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) para medicamentos de alto custo, como o Zolgensma. Nesse formato inovador, o pagamento governamental é condicionado à efetividade do tratamento no paciente, garantindo que o dinheiro público seja usado com responsabilidade e foco em resultados reais para quem precisa.

Arcuri também mencionou as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), instrumentos vitais para transferir tecnologia a laboratórios nacionais e expandir a produção interna de medicamentos complexos, estratégicos para a saúde pública.

INPI e soberania sanitária

Outro pilar crucial da proposta é a autonomia financeira do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Arcuri argumenta que o órgão arrecada mais em taxas do que recebe do Tesouro Nacional. Permitir que esses recursos sejam reinvestidos em sua própria estrutura modernizaria a análise de patentes, inclusive com o uso de Inteligência Artificial (IA), agilizando processos e impulsionando a inovação.

A ampliação da produção nacional é, segundo o executivo, uma questão de segurança nacional inegociável. 'Você só exporta o que é inovador. Não adianta querer exportar aspirina porque todo mundo já produz', concluiu, ressaltando que investir em pesquisa e desenvolvimento é pavimentar o caminho para a independência e excelência em saúde para o Brasil.

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