TRAGÉDIA E JUSTIÇA
Familiares das vítimas da Voepass denunciam cultura criminosa após relatório do Cenipa
Relatório final do Cenipa aponta 19 fatores contribuintes para o acidente com 62 mortos; associações buscam responsabilização criminal após indícios de negligência.
Familiares das vítimas do acidente da Voepass apontaram a existência de uma “cultura criminosa” na companhia aérea e negligência por parte da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A avaliação foi consolidada nesta quinta-feira (23), após a apresentação do relatório final sobre a queda do avião, que resultou na morte de 62 pessoas, por parte do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).
O documento, elaborado pelo órgão da Força Aérea Brasileira (FAB), listou 19 fatores contribuintes para a tragédia, incluindo falhas na manutenção da aeronave, planejamento de voo inadequado, deficiências na coordenação de cabine e lacunas na supervisão exercida pela Anac. A conclusão reforça a busca das famílias por responsabilização criminal, enquanto aguardam a conclusão do inquérito da Polícia Federal.
Busca por justiça e prevenção
Para Fátima Albuquerque, presidente da Associação dos Familiares das Vítimas do Voo 2283 e mãe de Arianne Risso, o processo vai além da punição dos responsáveis. “Precisamos ter o compromisso moral da sociedade de usar a nossa dor para que isso não aconteça mais. Nossa luta, mais do que buscar a Justiça, é preventiva”, afirmou Fátima.
A investigação do Cenipa destacou que a Voepass operava sob uma “normalização de desvios”, onde falhas técnicas não eram reportadas para manter as aeronaves em operação. O tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, que conduziu o trabalho, pontuou que o cenário era sustentado por uma cultura de informalidade, na qual mecânicos e pilotos evitavam registros de problemas.
Adriana Ibba, vice-presidente da Associação e mãe da pequena Liz, ressaltou o impacto emocional do relatório. Para ela, o documento será um insumo crucial para o processo criminal. “Esse documento explanou falhas sistêmicas: a tripulação, a cultura organizacional da Voepass e também a falta de fiscalização da Anac. A nossa luta é para que a insegurança não seja normalizada”, declarou.
Contrapontos
Em nota, a Anac informou que realizará uma análise detalhada do relatório, pontuando que o trabalho do Cenipa não possui caráter de atribuição de culpa. Por sua vez, a Voepass sustentou que sempre pautou suas operações em padrões internacionais de segurança. A empresa negou irregularidades na capacitação da tripulação, afirmando que os profissionais do voo 2283 possuíam experiência e treinamentos atualizados.
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