IA PARA O BEM

Ezra Klein defende IA como ferramenta para o bem público e aponta benefícios além dos riscos

Ilustração abstrata representando redes neurais e conexões digitais.
Inteligência Artificial: Da prevenção de danos à promoção do bem público.

Artigo de opinião de Ezra Klein argumenta que o foco em riscos da inteligência artificial ignora seu potencial transformador para a sociedade em diversas áreas.

A discussão pública sobre inteligência artificial (IA) tem se concentrado predominantemente em como prevenir seus perigos potenciais, como a perda de empregos, vigilância em massa, uso em armas biológicas, concentração de poder e atrofia cognitiva. Embora esses riscos sejam reais e exijam políticas de prevenção, a conversa política tem ignorado um aspecto fundamental: os benefícios que a IA pode trazer para a sociedade.

Ezra Klein, em seu artigo de opinião, critica a falta de foco nos aspectos positivos da IA, mesmo com seu uso crescente. Ele observa que pesquisas de opinião revelam desconfiança, e projetos como data centers enfrentam resistência e até proibições em algumas regiões. A percepção de que o uso da IA beira a imoralidade, impulsionando uma tecnologia perigosa que deveria ser desacelerada ou interrompida, é um sentimento presente em parte da sociedade, como refletido em declarações do papa Leão 14 sobre os perigos da tecnologia.

Partindo de uma perspectiva diferente, Klein argumenta que a IA já é uma realidade e seu uso é inevitável. A questão crucial reside em como, para que e por quem ela será utilizada. Os benefícios públicos da IA não surgirão espontaneamente; será necessário um esforço deliberado para identificar os problemas que a tecnologia pode solucionar, desenvolver os dados necessários, garantir o financiamento adequado e a capacidade computacional – o poder de processamento fornecido por data centers – para sua implementação eficaz.

Quando direcionada corretamente, a IA demonstra um potencial notável. Um modelo da OpenAI resolveu uma conjectura matemática com 80 anos de existência. Um novo medicamento para fibrose pulmonar, totalmente gerado por IA, obteve eficácia e segurança comprovadas em testes humanos. Na área médica, um sistema de IA desenvolvido pela Mayo Clinic consegue detectar cânceres de pâncreas em tomografias até três anos antes do diagnóstico médico. O modelo Graphcast da DeepMind oferece previsões meteorológicas mais rápidas e precisas que supercomputadores atuais. O Prêmio Nobel de Química de 2024 reconheceu os criadores do AlphaFold, ferramenta que revolucionou a previsão de estruturas de proteínas.

As corporações que investem em IA buscam lucro, mas também descobrem que a mera aplicação da tecnologia não resolve problemas. É preciso estruturar a questão de forma que a IA seja útil, um processo semelhante à integração da tecnologia da informação ou da eletricidade em décadas passadas. O avanço do AlphaFold, por exemplo, só foi possível graças ao Protein Data Bank, um extenso banco de dados de estruturas de proteínas iniciado na década de 1970 com financiamento da National Science Foundation.

Uma agenda pública para a IA deve ir além de intenções genéricas. Ela começa com o acesso, mas não para por aí. Klein sugere a criação de uma opção pública para IA, possivelmente um modelo de ponta sob controle público. É essencial reconhecer a demanda crescente por capacidade computacional, que já supera a oferta. Isso poderia envolver a aquisição de recursos computacionais para uso público, garantindo acesso a universidades e agências governamentais.

A lacuna entre o setor privado e o público na área de IA já se acentua. Enquanto empresas como o Goldman Sachs investem massivamente em computação, instituições públicas lutam por recursos. Klein defende que o público tenha acesso computacional suficiente para abordar desafios complexos. Para que o setor privado também contribua com problemas públicos, o governo pode, em modelos como a Operação Warp Speed, definir metas e garantir mercado para soluções encontradas e distribuídas equitativamente.

A IA pode resolver diversos problemas públicos. A capacidade de combinar vasto conhecimento com a exploração de inúmeras possibilidades, como visto no avanço da OpenAI, é promissora. Isso pode beneficiar áreas como doenças raras, cujos mercados para curas são limitados, a descoberta de novos usos para medicamentos existentes ou o desenvolvimento de materiais para baterias de longo prazo. Projetos-piloto, como o da Microsoft e do Pacific Northwest National Laboratory para descobrir novos eletrólitos para baterias, mostram o potencial, mas precisam de financiamento público para se expandir além de nichos.

A IA também pode transformar a relação entre cidadãos e o governo. Um sistema de IA poderia auxiliar o cidadão a declarar impostos, acessando dados da Receita Federal e informações atualizadas sobre a legislação tributária, funcionando como um contador pessoal. De forma mais ampla, um modelo de linguagem poderia servir como ponto de entrada para serviços governamentais, um concierge digital para interagir com o Estado.

Para que a IA resolva problemas reais, a existência de dados é fundamental. Isso implica organizar conjuntos de dados governamentais, um projeto que o governo de Alberta identificou que a IA pode agilizar significativamente. Também pode envolver o financiamento para a criação de novos conjuntos de dados que impulsionem a ciência em áreas ainda não exploradas, convertendo-os em bens públicos como o Protein Data Bank.

A proposta de Klein é um esboço para uma agenda que visa garantir que a IA sirva ao bem público. É preciso definir os bens públicos que a IA pode beneficiar e criar as condições para que ela seja útil. A questão central, muitas vezes negligenciada, é: se sabemos o que tememos que a IA possa fazer, o que esperamos que ela faça por nós?

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