DECISÃO AMERICANA

EUA correm risco de aproximar Brasil da China com novas tarifas

Representação gráfica de um tabuleiro de xadrez com bandeiras dos EUA e China em lados opostos, com a América do Sul no centro.
O tabuleiro geopolítico das Américas está em jogo. (Foto: Divulgação)

A política comercial dos Estados Unidos, impulsionada pela doutrina de Segurança Nacional e visando conter a influência chinesa nas Américas, pode gerar efeitos indesejados e afastar o Brasil, caso não considere as necessidades locais. A análise aponta para o risco de perder predominância na relação bilateral.

A doutrina de Segurança Nacional dos Estados Unidos, anunciada no ano passado, sinalizou que as Américas e o hemisfério Ocidental se tornaram o foco principal da atenção americana. Essa abordagem consolida o corolário Trump à doutrina Monroe, posicionando as Américas no centro do tabuleiro geopolítico global.

Essa estratégia se fundamenta em quatro pilares: o acesso a recursos naturais essenciais ao crescimento americano, como terras raras e energia; o combate ao crime organizado transnacional na região; o controle dos fluxos migratórios; e a necessidade de conter a crescente presença da China na América Latina, evidenciada por investimentos, comércio e parcerias estratégicas.

A maioria dos países americanos tem oscilado em seus alinhamentos políticos em ciclos eleitorais recentes, optando por governos mais próximos à Casa Branca. Exemplos disso são Colômbia, Chile e Peru, que elegeram presidentes de direita.

O Brasil, contudo, mantém uma postura de autonomia, resistindo a alinhar-se automaticamente às orientações políticas dos EUA. Nesta semana, uma audiência pública analisou o processo comercial conhecido como Seção 301, que visa revisar práticas comerciais consideradas desleais.

No contexto brasileiro, a discussão envolveu plataformas digitais, o Pix, o desmatamento e produtos que poderiam competir em condições desfavoráveis com os americanos.

A audiência ocorreu em Washington, com a participação de representantes de empresas e associações produtivas brasileiras. Eles apresentaram seus argumentos, muitas vezes alinhados aos interesses de setores privados dos EUA que importam os produtos potencialmente afetados pelas novas tarifas.

As mercadorias em questão, que podem sofrer com tarifas de importação de 25%, são cruciais para o mercado consumidor americano. Isso se deve ao fato de que, em muitos casos, o Brasil é o principal fornecedor, ou até mesmo o único, ou ainda participa de cadeias produtivas de interesse estratégico para os Estados Unidos.

A política comercial de Trump está intrinsecamente ligada ao xadrez geopolítico das Américas. Para estabelecer uma parceria sólida e mutuamente vantajosa com o Brasil, é fundamental que os Estados Unidos compreendam as necessidades brasileiras. Ignorar essa premissa aumenta o risco de perder a primazia dessa relação para a China, que expande sua influência na região.

Alberto Pfeifer, coordenador-geral do grupo de Defesa, Segurança e Inteligência da USP e pesquisador de Geopolítica do Insper Agro Global, com vasta experiência em Assuntos Internacionais Estratégicos da Presidência da República, analisa os desdobramentos dessa política.

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