CRIME ORGANIZADO NA MIRA
EUA classificam PCC e CV como terroristas: entenda o que muda para o Brasil
Decisão americana amplia ferramentas contra facções brasileiras, mas gera debate sobre impactos financeiros e diplomáticos para o país. Especialistas divergem sobre a eficácia e as consequências da medida.
A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas abre uma nova frente de debate sobre os impactos para o Brasil. A medida, anunciada nesta terça-feira, 02/06/2026, fortalece o combate ao crime organizado internacional, mas especialistas alertam para possíveis consequências financeiras, diplomáticas e questionamentos sobre a soberania nacional. Na prática, a nova classificação amplia a capacidade de atuação das autoridades norte-americanas contra integrantes e estruturas financeiras ligadas às facções, especialmente em operações realizadas fora do território brasileiro. Isso permite um monitoramento mais rigoroso de movimentações suspeitas, lavagem de dinheiro, aquisição de bens e abertura de empresas utilizadas para ocultar recursos provenientes de atividades criminosas. O monitoramento financeiro ganha força com a medida. Segundo o advogado especialista em ciências criminais Berlinque Cantelmo, em entrevista à revista Veja, a nova classificação dá aos órgãos reguladores e investigativos dos Estados Unidos mais instrumentos para rastrear ativos vinculados às facções brasileiras. Acompanhar movimentações financeiras em instituições bancárias americanas e fiscalizar empresas criadas para receber recursos de origem ilícita torna-se mais fácil, permitindo que autoridades americanas identifiquem, bloqueiem e confisquem patrimônios relacionados às organizações criminosas. "O faturamento das operações das facções criminosas pode ser transformado de lucro líquido financeiro em ativos reais no estrangeiro, por meio da lavagem desse dinheiro. O que pode acontecer, agora, é que um órgão regulador do sistema financeiro americano, como o Fed, vai poder monitorar as movimentações que esses grupos fazem em instituições bancárias. O próprio governo americano e suas agências regulatórias e investigativas poderão também monitorar a abertura de empresas nos Estados Unidos que tenham por finalidade dar vazão ao capital oriundo de atividades ilícitas das organizações criminosas”, explica o advogado. Menos burocracia para investigações internacionais também é um efeito apontado por especialistas. Na avaliação de Cantelmo, a classificação como organizações terroristas amplia a autonomia dos Estados Unidos para monitorar pessoas e estruturas ligadas ao PCC e ao CV, sem a necessidade dos mesmos trâmites diplomáticos que tradicionalmente marcam a cooperação entre os dois países. A mudança também abre espaço para a participação de outros órgãos de inteligência norte-americanos. Além do FBI, que já atua em investigações relacionadas ao crime organizado transnacional, a CIA poderá desempenhar papel mais ativo na coleta e análise de informações sobre as organizações brasileiras. Especialistas destacam, porém, que isso não elimina a possibilidade de ações conjuntas entre agências americanas e forças de segurança brasileiras. "Se houver, por exemplo, um arsenal sendo levado do Rio de Janeiro para a fronteira com a Venezuela para ser usado contra as tropas americanas, o governo americano não vai determinar que suas tropas invadam o Brasil para reprimir isso. Mas uma articulação para repressão conjunta poderá ser feita. A cooperação é necessária em razão de diversos fatores, como o reconhecimento geográfico, de território, que só as forças de segurança do Brasil possuem”, justifica Cantelmo. Os impactos da decisão podem ir além do combate direto às facções criminosas. O especialista em relações internacionais Uriã Fancelli avalia que instituições financeiras e empresas brasileiras podem enfrentar um ambiente regulatório mais rigoroso. Bancos, fintechs e companhias eventualmente associados, mesmo que indiretamente, a operações investigadas poderão ser submetidos a processos de compliance mais rígidos, bloqueios de ativos e restrições em transações internacionais, especialmente aquelas realizadas em dólar. Fancelli ressalta ainda que o Brasil não é um caso isolado dentro da estratégia americana. Com a inclusão do PCC e do CV, o país passa a integrar uma lista já composta por dezenas de nações e territórios que possuem grupos enquadrados na legislação antiterrorismo dos Estados Unidos. "A classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos EUA coloca o Brasil em uma lista que já reúne 54 países, territórios ou áreas políticas. Ou seja, o Brasil não precisa se sentir especial nem superestimar a própria relevância nessa história. Não é que ele tenha virado o grande alvo prioritário do governo Trump. Entrou apenas como mais um caso, entre muitos outros, dentro de uma política mais ampla de pressão norte-americana sobre cartéis, facções, redes criminosas e grupos transnacionais. Mas isso não significa que as consequências sejam pequenas”, complementa o internacionalista. Divergência sobre os efeitos da medida Nem todos os especialistas enxergam benefícios na decisão. O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, reconhecido nacionalmente pela atuação contra o crime organizado, avalia que a nova classificação pode trazer dificuldades para o próprio trabalho de cooperação internacional. Para ele, a medida pode aumentar o risco de sanções financeiras contra instituições ou pessoas que, conscientemente, mantenham vínculos com integrantes das facções. Além disso, Gakiya argumenta que a mudança transfere o problema da esfera policial para uma lógica de defesa e segurança nacional, o que poderia dificultar o compartilhamento de informações entre autoridades brasileiras e americanas. Um dos pontos que mais gera controvérsia é a possibilidade de reflexos sobre a soberania brasileira. Enquanto parte dos especialistas considera improvável qualquer atuação militar direta dos Estados Unidos em território nacional, outros avaliam que o novo enquadramento jurídico pode abrir precedentes para operações mais agressivas em cenários específicos. A divergência evidencia que os efeitos da classificação ainda serão objeto de debates entre autoridades, juristas e especialistas em relações internacionais. O consenso, entretanto, é que a decisão representa uma mudança significativa na forma como as maiores facções criminosas do Brasil passam a ser tratadas pelos Estados Unidos, com consequências que podem alcançar não apenas a segurança pública, mas também áreas financeiras, diplomáticas e econômicas.
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