FACÇÕES PROSCITAS

EUA classificam CV e PCC como terroristas globais; especialista aponta falhas do Brasil

Prédio do Departamento de Estado dos EUA.
Fachada do Departamento de Estado dos Estados Unidos em Washington D.C.

Designação pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos visa combater influência do Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital, mas especialista alerta para necessidade de plano nacional efetivo.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou que o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital) serão classificados como "Terroristas Globais Especialmente Designados" a partir do dia 5 de junho de 2026. A decisão, divulgada por Marco Rubio, justifica a medida pela influência e pelas redes ilícitas dessas facções brasileiras, que se estendem por toda a região e também para dentro dos próprios Estados Unidos.

Em entrevista ao CNN Prime Time, o especialista em segurança pública Rafael Alcadipani avaliou a classificação americana e alertou que, por si só, a medida não será suficiente para erradicar o problema do crime organizado no Brasil. "Eu não acredito que essa designação por si só vá resolver o problema das facções criminosas do Brasil", afirmou Alcadipani. Ele ressaltou, no entanto, que o Brasil pode se beneficiar da ajuda dos Estados Unidos, especialmente no combate a fluxos financeiros e inteligência relacionados ao crime organizado.

Alcadipani cobrou uma postura mais firme e coordenada das autoridades brasileiras, defendendo a criação de um "plano nacional sério e consistente de enfrentamento ao crime organizado, que englobe a federação, que englobe os estados, e que a gente pare de brincar com coisa séria". Ele sugeriu que o atual momento eleitoral, somado à designação dos EUA, é uma oportunidade para a sociedade exigir que o combate ao crime organizado seja tratado como "prioridade zero" pelo próximo governo federal e pelos governos estaduais.

Ao ser questionado sobre a real extensão da influência do PCC e do CV nos Estados Unidos, o especialista ponderou que essa presença não é tão comprovada no território americano. "Existe evidentemente a presença do PCC, principalmente de elementos que fazem tráfico de armas para o Brasil, mas a notícia que a gente tem é que a cocaína brasileira vai mais para a Europa, para o norte da África, até mesmo para a Oceania e Ásia", explicou. Ele destacou que a influência das facções é muito mais proeminente em países como Bolívia, Colômbia, Peru e Paraguai, sendo "menor" e "diminuta" nos Estados Unidos em comparação.

A infiltração do PCC no sistema financeiro brasileiro foi apontada como um problema grave. "O PCC gera muito recurso, muito dinheiro, porque ele é uma empresa de logística de cocaína. Além de praticar outros crimes, ele precisa lavar esse dinheiro e tem que se utilizar de fintechs para fazer essa prática", detalhou Alcadipani. Ele frisou que, embora o sistema financeiro como um todo não esteja comprometido, "há parcelas importantes que sofrem essa contaminação", gerando danos econômicos nacionais e internacionais, como exemplificado no caso dos combustíveis.

Segundo o especialista, o Brasil negligenciou o combate ao crime organizado nas últimas duas décadas, permitindo o crescimento desordenado das facções e sua infiltração na economia e na sociedade. Esse descaso, avalia, abriu espaço para a sanção internacional. Apesar do ceticismo, Alcadipani espera que a designação amplie a colaboração entre as autoridades brasileiras e americanas. "Os Estados Unidos têm muito o que ajudar o Brasil nessa questão de fluxos financeiros, até mesmo de preparação das nossas polícias e das nossas forças armadas para fazer esse enfrentamento mais efetivo", disse.

Ele defendeu que o problema, por sua natureza transnacional, exige uma resposta igualmente transnacional, com integração regional e envolvimento de países europeus. A cooperação entre agências como o Ministério Público, a Polícia Federal e a Receita Federal é fundamental e precisa ser institucionalizada e aprofundada, pois "o crime hoje é multinacional".

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