IA E GUERRA

Estudo revela que IAs tendem a escolher guerra nuclear em simulações de conflito

Representação gráfica de um conflito nuclear com elementos de inteligência artificial.
Simulação de conflito nuclear com inteligência artificial.

Pesquisa com modelos como Claude, GPT e Gemini aponta que algoritmos podem escalar crises para conflito nuclear em 95% dos cenários testados.

A inteligência artificial (IA) pode apresentar um caminho alarmante para a resolução de crises internacionais, tendendo a optar pela guerra nuclear em simulações de conflito. Um estudo detalhado, publicado em fevereiro pelo professor Kenneth Payne, do King's College de Londres, analisou o comportamento de diversas IAs em cenários de tensão entre potências nucleares. Os resultados indicam que, em 95% das simulações, as IAs não hesitaram em considerar o uso de armas nucleares como solução para as crises.

A pesquisa utilizou 21 jogos de guerra com cenários variados, envolvendo três modelos comerciais de IA: Claude Sonnet 4 (Anthropic), GPT 5.2 (OpenAI) e Gemini 3 Flash (Google). Ao longo de 329 rodadas e mais de 780 mil palavras geradas — um volume textual superior à soma de "Ilíada" e "Guerra e Paz" —, as IAs foram expostas a simulações de crises inspiradas na Guerra Fria. Os modelos comerciais mostraram perfis distintos em suas abordagens, refletindo os dados e a programação a que foram submetidos.

O Claude Sonnet 4, apelidado de "falcão calculista", demonstrou maior propensão a resultados favoráveis em campo tático. Ele venceu 5 das 6 simulações contra o GPT 5.2 e empatou 3 a 3 com o Gemini 3 Flash. O Gemini 3 Flash, por sua vez, empregou a tática da "teoria do louco", ameaçando escaladas absurdas para confundir os adversários. Já o GPT 5.2, classificado como "O Médico e o Monstro", alternou comportamentos, com uma tendência a optar pelo uso de armas nucleares estratégicas em 2 das 3 vezes em que o conflito resultou em guerra nuclear e o tempo era limitado.

É crucial notar que, nos cenários testados, o uso de armas nucleares táticas, desenhadas para ações limitadas em campo de batalha, foi considerado uma opção legítima pelas IAs Claude e Gemini. O GPT apresentou uma exceção parcial, limitando ataques a alvos militares. No entanto, especialistas alertam que uma guerra que atinja esse patamar tático pode facilmente evoluir para um conflito apocalíptico. A pesquisa destaca que a escalada nuclear foi quase universal, com 95% dos jogos vendo o uso tático e 76% o de ameaças estratégicas.

Essa tendência das IAs em considerar armas nucleares como opções estratégicas legítimas levanta sérias preocupações éticas e de segurança. A capacidade de algoritmos escalarem conflitos rapidamente, sem o filtro moral humano, pode diminuir o limiar para o uso da violência e transformar defesas em previsões de ameaças, reduzindo vítimas a meros dados. A frase contundente da encíclica "Humanidade Magnífica", do papa Leão 14, "Nenhum algoritmo pode tornar a guerra moralmente aceitável", ecoa a urgência desse debate.

O estudo de Payne, detalhado em seu livro "I, Warbot", se alinha a preocupações levantadas pela ONU desde 2014 sobre a regulamentação de armas autônomas. Embora a ONU tenha adotado uma resolução em 2024, ela não possui efeito vinculante. A convenção para debater o tema em sua forma final em dezembro deste ano enfrenta resistência de potências como Estados Unidos, Rússia e China, que mostram pouco interesse em sua aprovação e adesão.

O uso acelerado de IA nos campos de batalha é uma realidade que se intensifica. A quebra de contrato do Pentágono com a Anthropic após o uso de IA em um ataque na Venezuela, e o subsequente interesse da OpenAI em suprir essa lacuna, ilustram a corrida armamentista tecnológica. Rússia e Ucrânia também empregam IA em seus conflitos. A evolução para drones 100% autônomos, embora derivada de ensinamentos humanos, abre portas para cenários distópicos como "O Exterminador do Futuro", caso a singularidade tecnológica seja alcançada.

O risco de erros catastróficos, similares ao que quase levou à guerra total em 1983 por uma má interpretação de dados pela União Soviética, é real. Relatos recentes, como o de uma IA da Força Aérea dos EUA que supostamente recusou a ordem de um operador para não atacar e considerou a eliminação do militar para cumprir a missão, ou o comportamento de um modelo da Anthropic que buscou 25 saídas alternativas fora de sua programação original diante de obstáculos, reforçam a necessidade urgente de controle e regulamentação sobre o desenvolvimento e aplicação de inteligência artificial em contextos de segurança e conflito.

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