SAÚDE PÚBLICA EM ALERTA
Estudo revela que 83% dos idosos com demência no Brasil não têm diagnóstico
Pesquisa aponta que mais de 80% dos idosos brasileiros com demência nunca receberam diagnóstico médico, com taxas alarmantes de subdiagnóstico em regiões mais pobres e entre analfabetos.
Um estudo nacional liderado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou que uma vasta maioria de idosos com demência no Brasil permanece sem diagnóstico médico. Nesta sexta-feira, 22/05/2026, os resultados foram divulgados, apontando que mais de 80% dos brasileiros idosos que apresentam critérios para a condição nunca foram formalmente diagnosticados. A pesquisa, publicada na International Journal of Geriatric Psychiatry, analisou dados de 5.249 indivíduos com 60 anos ou mais, participantes do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), e evidenciou uma "lacuna substancial" no reconhecimento da demência pelo sistema de saúde.
A ausência de diagnóstico não é uniformemente distribuída e reflete profundas desigualdades. Nas regiões mais pobres do país, a taxa de subdiagnóstico chegou a alarmantes 90%. Para pessoas analfabetas, o percentual de idosos sem diagnóstico foi de 93,9%. A pesquisa também identificou que viver sozinho aumenta significativamente a chance de um indivíduo com demência não ser diagnosticado. Por outro lado, idosos com mais anos de escolaridade apresentaram menor probabilidade de permanecerem sem diagnóstico, o que os autores associam tanto à reserva cognitiva quanto ao letramento em saúde – a capacidade de reconhecer alterações e buscar auxílio.
O estudo detalha que 392 participantes preenchiam critérios para demência, e destes, 83,1% não relataram diagnóstico médico prévio. Mesmo entre os mais jovens do grupo estudado (60 a 69 anos), 87,9% não tinham o diagnóstico. Já nas regiões consideradas mais ricas do país, a taxa de ausência de diagnóstico foi de 76%, demonstrando um padrão regional claro, onde Norte, Nordeste e Centro-Oeste foram agrupados como mais pobres, e Sudeste e Sul como mais ricas, com base em indicadores econômicos nacionais.
Os pesquisadores apontam que obstáculos estruturais impedem o reconhecimento precoce da demência no Brasil. Incluem-se aí a percepção, por vezes presente até entre profissionais de saúde, de que o declínio cognitivo é uma consequência "normal" do envelhecimento. Outros fatores citados são a baixa conscientização pública, o estigma associado à doença, a dificuldade de acesso a serviços especializados, a falta de treinamento profissional e a fragmentação do cuidado. Curiosamente, o estudo observou que, embora pessoas com múltiplas doenças crônicas tivessem maior chance de receber um diagnóstico – possivelmente por manterem contato mais frequente com serviços de saúde –, a mera utilização de serviços de saúde não garantia o diagnóstico.
A demência representa um dos crescentes desafios de saúde pública globalmente. Estima-se que o Brasil, que já contava com cerca de 2,5 milhões de pessoas vivendo com a condição em 2025, possa triplicar esse número até 2050, impulsionado pelo envelhecimento populacional. Diante deste cenário, os autores do estudo reforçam a urgência de fortalecer estratégias de detecção precoce, capacitar profissionais de saúde, ampliar o rastreamento na atenção primária e implementar políticas públicas que considerem e combatam as desigualdades regionais. Melhorar o reconhecimento da demência no sistema público de saúde é visto como um caminho essencial para ampliar o acesso ao cuidado digno e reduzir disparidades.

Demência afeta a memória, a comunicação e o comportamento principalmente de idosos.
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