DROGAS E ÁLCOOL

Estudo da USP revela que mais da metade das vítimas de mortes violentas no Brasil consumiu drogas ou álcool

Vítimas de mortes violentas no Brasil, com análise toxicológica.
A pesquisa analisou 3.577 mortes registradas entre março de 2022 e junho de 2024 nas capitais e regiões metropolitanas de Belém (PA), Recife (PE), Vitória (ES) e Curitiba (PR).

Pesquisa analisou 3.577 mortes violentas em capitais brasileiras. Cocaína e álcool foram as substâncias mais detectadas. Estudo defende abordagem de saúde pública.

Mais da metade das vítimas de mortes violentas no Brasil havia consumido álcool ou drogas antes de falecer. Essa é a principal constatação de um estudo recém-divulgado pela Universidade de São Paulo (USP), que analisou 3.577 óbitos ocorridos entre março de 2022 e junho de 2024 nas capitais e regiões metropolitanas de Belém (PA), Recife (PE), Vitória (ES) e Curitiba (PR).

A pesquisa identificou a presença de pelo menos uma substância psicoativa em 53% das vítimas. Dentre elas, a cocaína foi a substância mais encontrada nas análises toxicológicas, presente em 29,6% dos casos. O álcool apareceu em seguida, com 27,7%, seguido por benzodiazepínicos (6,8%) e cannabis (2,2%). Os autores do estudo ressaltam que os resultados evidenciam o peso significativo do consumo de álcool e drogas na mortalidade precoce por causas externas no país, impactando a dignidade e o futuro de muitas famílias.

Mortes violentas são aquelas causadas por agentes externos, como homicídios, acidentes de trânsito, suicídios ou decorrentes de intervenção policial. Diferentemente das mortes naturais, esses casos requerem investigação e perícia em Institutos Médicos Legais (IML). As amostras de sangue foram coletadas durante necropsias realizadas nos IMLs das cidades estudadas e analisadas no Laboratório de Toxicologia da Faculdade de Medicina da USP. Foram incluídas vítimas com mais de 18 anos, cujas necropsias ocorreram em até oito horas após o óbito, excluindo corpos em decomposição ou com longo período de atendimento médico.

As cidades selecionadas para a pesquisa possuem altas taxas de mortalidade e são localizadas em rotas importantes do tráfico de drogas. Do total de mortes analisadas, 2.406 foram homicídios, 524 acidentes de trânsito, 330 suicídios, 52 envenenamentos e 265 outras causas externas. A maioria das vítimas era composta por homens (89,7%), pessoas com 30 anos ou mais (56%) e indivíduos não brancos (80,8%), dados que reforçam a necessidade de políticas públicas que considerem a complexidade social desses eventos.

Cocaína e álcool em destaque nas mortes violentas

Os homicídios representaram 67,3% dos casos investigados. Entre as vítimas de homicídio, 55,7% apresentaram vestígios de álcool ou drogas. A cocaína foi a substância mais comum nesse grupo, detectada em 36% das análises. Os pesquisadores apontam que esse dado dialoga com a posição do Brasil como rota do tráfico internacional e grande mercado consumidor de cocaína na América do Sul. Contudo, o estudo é transversal e não estabelece uma relação direta de causa e efeito, mas alerta para a importante associação entre o uso de substâncias psicoativas e mortes por causas externas.

No contexto dos acidentes de trânsito, o álcool foi a substância predominante, presente em mais de dois em cada cinco casos. Esses achados reforçam as evidências sobre os perigos da combinação entre bebida e direção, mesmo com a Lei Seca em vigor desde 1998. O estudo lembra que o álcool afeta a acuidade visual, o estado de alerta e a coordenação motora, capacidades essenciais para uma condução segura.

Benzodiazepínicos e suicídios: uma preocupante conexão

Os casos de suicídio também apresentaram alta prevalência de uso de substâncias psicoativas. Embora o álcool tenha sido a substância mais frequente, os pesquisadores destacaram a elevada presença de benzodiazepínicos – como clonazepam (Rivotril), diazepam (Valium), alprazolam (Frontal) e bromazepam (Lexotan) – em um a cada cinco casos analisados. Essa classe de medicamentos, usada para tratar ansiedade e insônia, mostra uma conexão preocupante com os atos autoagressores.

Chamado por políticas de saúde pública

Em sua conclusão, os autores do estudo defendem uma abordagem de saúde pública para o uso de drogas, descrevendo-o como uma realidade brasileira que demanda atenção holística. Eles argumentam que políticas focadas apenas em punição são menos eficazes para reduzir mortes violentas e danos relacionados às drogas, propondo, em vez disso, ações voltadas à prevenção, redução de danos, ampliação do tratamento e proteção social.

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