CIÊNCIA PSICODÉLICA

Estudo Britânico Revela Efeitos de Cogumelos no Cérebro

Cogumelos alucinógenos, psilocibina e bem-estar psicológico
Pesquisa do Imperial College London revela que dose de psilocibina altera o cérebro e aumenta o bem-estar por até um mês. — Foto: Adobe Stock

Pesquisa do Imperial College London aponta que a psilocibina altera funções cerebrais e aumenta o bem-estar por até um mês em adultos, abrindo novas portas para a neurociência e tratamentos em saúde mental.

Um estudo inovador, conduzido por pesquisadores do Imperial College London e publicado na prestigiada revista Nature Communications, revelou que uma única dose de psilocibina, a substância psicodélica encontrada em alguns cogumelos, pode provocar mudanças mensuráveis e duradouras no cérebro por até um mês. Os achados, divulgados nesta sexta-feira, 08/05/2026, apontam um significativo aumento no bem-estar e na flexibilidade cognitiva em participantes saudáveis, impulsionando a compreensão do potencial terapêutico dessas substâncias e seu impacto na dignidade humana, especialmente na busca por novas abordagens em saúde mental.

A equipe de pesquisa analisou 28 adultos saudáveis, sem histórico de uso de psicodélicos, com idade média de 41 anos. Cada participante recebeu duas doses orais de psilocibina, administradas com um mês de intervalo: primeiro 1 mg, considerada subativa e utilizada como placebo, e depois 25 mg, uma dose alta, capaz de induzir efeitos psicodélicos intensos. O monitoramento dos efeitos foi realizado por meio de técnicas avançadas como eletroencefalograma (EEG) e ressonância magnética funcional.

A experiência com a dose de 25 mg foi descrita por 94% dos participantes como "o estado de consciência mais incomum de toda a minha vida", enquanto os demais a classificaram entre as cinco mais incomuns já vividas. Em contraste, a dose de 1 mg foi percebida pela maioria como indistinguível de um dia comum.

O que muda no cérebro

Segundo os especialistas, o estudo reforça a hipótese de que os psicodélicos não atuam apenas como drogas no sentido clássico, mas promovem a chamada flexibilidade cognitiva. Este efeito está ligado ao conceito de "entropia cerebral", que descreve a variabilidade da atividade do cérebro. Em estados mais rígidos, comuns em alguns transtornos mentais, o funcionamento cerebral tende a ser repetitivo. A psilocibina, por sua vez, aumentaria essa variabilidade, abrindo caminho para novas formas de pensar e sentir, o que pode ser crucial para a superação de padrões limitantes. Pesquisas anteriores já sinalizavam que esses compostos modulam circuitos emocionais, como a amígdala, e facilitam processos como a reavaliação emocional, indicando um potencial profundo para a modulação de estados afetivos.

Fibras cerebrais mais compactas após a psilocibina

O dado anatomicamente mais relevante surgiu da técnica de imagem por tensor de difusão (DTI), que mapeia as fibras de substância branca do cérebro. Um mês após a dose alta, os pesquisadores detectaram uma redução na difusividade axial — uma medida do movimento da água ao longo das fibras nervosas — em dois tratos que conectam o córtex pré-frontal ao estriado e ao tálamo, estruturas subcorticais envolvidas no controle motor, na tomada de decisão e na regulação emocional. Esta redução foi estatisticamente significativa (p = 0,006 e p = 0,005) e não apareceu após a dose de controle. Para os autores, este achado, se confirmado em futuros estudos, pode ser interpretado como evidência de neuroplasticidade anatômica após a primeira experiência psicodélica humana, um marco na compreensão de como essas substâncias remodelam o cérebro vivo. A descoberta em humanos corrobora o que estudos com camundongos e suínos já haviam sugerido em laboratório.

Relação com possíveis tratamentos

A associação entre as alterações cerebrais e a experiência psicodélica em si pode ser um elemento central para potenciais efeitos terapêuticos, como no tratamento da depressão. A prolongada duração do efeito também chama a atenção e indiretamente explicaria por que a psilocibina exibe efeitos antidepressivos de longo prazo, sem a necessidade de uso diário, conforme explicou Eduard Vieta, professor de Psiquiatria da Universidade de Barcelona, Chefe do Departamento de Psiquiatria e Psicologia do Hospital Clínic de Barcelona e pesquisador da Rede de Centros de Pesquisa Biomédica em Saúde Mental (CIBERSAM). Este cenário oferece esperança para milhões de pessoas que enfrentam transtornos de humor, buscando alternativas menos invasivas e mais duradouras.

Mais flexibilidade e mais bem-estar

Do ponto de vista psicológico, os resultados se mostraram consistentes e encorajadores. A flexibilidade cognitiva, avaliada por um teste computadorizado que mede a capacidade de identificar mudanças de regras, melhorou significativamente um mês após a dose alta em comparação com o grupo de controle. O insight psicológico, mensurado por escala validada, foi maior após a dose de 25 mg em todos os momentos avaliados — um dia, duas semanas e um mês depois. O bem-estar psicológico, medido pela escala Warwick-Edinburgh (WEMWBS, com variação de 14 a 70 pontos), aumentou em média 4,7 pontos um mês após a dose alta em relação ao grupo controle e 5,8 pontos após duas semanas. Nenhuma mudança equivalente foi detectada após o placebo, sublinhando a especificidade do efeito da psilocibina na percepção de qualidade de vida.

Limitações e cautela

Apesar dos resultados promissores, é crucial interpretar o estudo com cautela. Elisabet Domínguez Clavé, psicóloga e doutora em farmacologia pelo Hospital de Sant Pau, em Barcelona, presidente da Sociedade Espananola de Medicina Psicodélica (SEMPsi) e coordenadora da iniciativa Psychedelicare na Espanha, ressalta que o estudo é sólido, mas possui limitações comuns em pesquisas dessa natureza. Entre elas, destacam-se:

  • O número de participantes é considerado pequeno, o que limita a generalização dos resultados.
  • Muitas das medidas, como percepção e bem-estar, são subjetivas.
  • O estudo foi realizado em ambiente controlado com pessoas saudáveis, impedindo a extrapolação direta para pacientes com transtornos mentais.
  • A amostra é demograficamente homogênea (86% brancos, 75% britânicos), o que pode influenciar a aplicabilidade universal dos achados.
  • O estudo não foi pré-registrado, o que significa que as hipóteses principais foram definidas após a coleta dos dados.
  • A ordem fixa das doses (sempre 1 mg antes de 25 mg) impede a separação completa entre o efeito da substância e possíveis efeitos de prática ou expectativa.
  • Os autores reconhecem que a interpretação das mudanças de difusividade axial é complexa, podendo refletir tanto o crescimento de fibras nervosas quanto alterações de mielina, densidade axonal ou permeabilidade de membrana.
  • Adicionalmente, o líder do estudo, Robin Carhart-Harris, atua como consultor científico de empresas do setor de psicodélicos. Embora não invalide os resultados, este fato deve ser considerado na interpretação das conclusões.

O que vem pela frente

De forma geral, o estudo não altera sozinho o panorama da área, mas acumula evidências de que a psilocibina pode, de fato, gerar alterações cerebrais mensuráveis associadas a mudanças psicológicas significativas. Ele representa um passo relevante ao integrar, em um único protocolo, dados de EEG durante a experiência e de ressonância magnética funcional e estrutural antes e depois, em participantes sem exposição prévia a psicodélicos, o que elimina a influência de experiências anteriores.

"O presente estudo multimodal de neuroimagem em participantes saudáveis lança luz sobre os efeitos cerebrais do uso pela primeira vez de psilocibina em dose alta", escrevem os autores nas conclusões. Os resultados, segundo eles, indicam que mudanças terapeuticamente relevantes, como a melhora do bem-estar, podem ser previstas por uma ação cerebral aguda, o chamado efeito de entropia cerebral. O próximo desafio, conforme apontam os pesquisadores, é converter esse conhecimento em aplicações clínicas seguras, eficazes e devidamente regulamentadas, pavimentando o caminho para tratamentos que possam realmente transformar a vida das pessoas.

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