ALERTA COGNITIVO GERAL

Especialistas alertam: IA pode 'enferrujar' seu cérebro, diz estudo

Pessoa interagindo com inteligência artificial, representando o impacto da IA no cérebro e na cognição.
Pesquisas sugerem que a dependência excessiva de ferramentas como o ChatGPT pode prejudicar a criatividade e a memória. — Foto: Getty Images via BBC

Pesquisas da Universidade de Georgetown e Texas revelam riscos à criatividade e memória, enquanto neurocientistas indicam a necessidade de um uso consciente para preservar habilidades mentais essenciais.

A crescente dependência de ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT, levanta sérias preocupações sobre seus efeitos na cognição humana. Estudos recentes, divulgados neste domingo, 10 de maio de 2026, por neurocientistas e especialistas, indicam que o uso excessivo dessas tecnologias pode enfraquecer a criatividade, a capacidade de atenção, o pensamento crítico e a memória. Esta constatação alerta para a necessidade de um uso consciente da IA, visando preservar as habilidades mentais que nos tornam únicos e adaptáveis.

Há alguns anos, o autor deste artigo decidiu adotar uma estratégia de imersão total: usar inteligência artificial (IA) ao máximo possível, especialmente ao escrever sobre o tema. No entanto, uma série de pesquisas publicadas no último ano acenderam um alerta: essa prática poderia estar prejudicando o próprio cérebro?

De fato, esses estudos sugerem que indivíduos que se apoiam excessivamente em ferramentas como o ChatGPT podem enfrentar prejuízos em áreas vitais como criatividade, capacidade de atenção, pensamento crítico e memória. Outros levantamentos apontam para uma possível redução do esforço mental necessário ao desenvolvimento do pensamento crítico, levantando a preocupação de que, como sociedade, a produção de ideias originais possa diminuir. Apesar de ser uma linha de pesquisa recente, com respostas ainda incertas, a inquietação persiste. Deveríamos nos preocupar?

"De modo geral, sim", afirma Adam Greene, professor de neurociência e diretor do Laboratório de Cognição Relacional da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos.

Segundo Greene, o tema envolve muitas nuances, mas a IA tende a assumir tarefas que antes exigiam esforço mental. "Há muitas evidências de que, se você deixa de exercitar determinados tipos de pensamento, sua capacidade de realizar esse tipo de raciocínio tende a se deteriorar."

Mesmo para quem não busca ativamente usar ferramentas como ChatGPT ou Claude, as respostas geradas por IA já dominam o topo das buscas do Google, e grandes empresas de tecnologia aceleram a integração desses sistemas nos celulares. A tecnologia se torna cada vez mais inescapável, mas existem medidas práticas que podem mitigar os principais riscos.

Para Jared Benge, professor e neuropsicólogo clínico da Escola de Medicina Dell, da Universidade do Texas, nos EUA, a questão é mais complexa do que aparenta. O uso de IA não implica, automaticamente, em malefícios. Se a IA, por exemplo, alivia a carga mental e permite um foco maior em tarefas mais importantes, pode até gerar benefícios cognitivos.

"Por que imaginar que a IA seria tão diferente de outras tecnologias às quais o cérebro humano já se adaptou?", questiona Benge. "A ferramenta, por si só, não é boa nem ruim."

Como ocorre com qualquer avanço tecnológico, os efeitos da IA dependem diretamente do modo como ela é empregada. Contudo, as preocupações são significativas o suficiente para que os usuários repensem a forma como interagem com essas ferramentas, antes que os impactos se tornem irreversíveis.

Com essa perspectiva em mente, diversos especialistas foram consultados para desvendar como a IA pode ser utilizada sem comprometer nossas capacidades mentais.

Com o que estamos preocupados?

Há cerca de 20 anos, emergiu a teoria de que a dependência excessiva da tecnologia poderia desencadear uma forma de "demência digital", caracterizada pela deterioração da memória de curto prazo e de outros processos cognitivos. Recentemente, Benge, da Universidade do Texas, participou de uma meta-análise que revisou 57 estudos, abrangendo mais de 411 mil adultos. Os pesquisadores, ao final, não encontraram evidências de "demência digital". Pelo contrário: o uso da tecnologia parecia, de fato, reduzir o risco de comprometimento cognitivo.

Mas isso não significa ausência de motivos para preocupação.

Pesquisas demonstram que indivíduos que dependem de sistemas de navegação por satélite, como GPS, deixam de formar mapas mentais do ambiente, e sua memória espacial tende a piorar ao longo do tempo. Um fenômeno similar foi observado com os mecanismos de busca, cunhado como "efeito Google". Aparentemente, somos menos propensos a memorizar informações acessíveis em buscadores, pois o esforço para obtê-las é mínimo.

Em outras palavras, o cérebro tende a perder habilidades em tarefas que delegamos a ferramentas externas. E a IA pode se consolidar como o mais potente instrumento de terceirização cognitiva já criado.

A IA pode estar tornando as pessoas menos criativas, menos analíticas e prejudicando a memória, mas especialistas dizem que ainda é possível evitar esses efeitos — Foto: Getty Images via BBC

"O que a IA está fazendo é nos oferecer, pela primeira vez, uma maneira fácil de trocar o processo pelo resultado", afirma Greene, da Universidade de Georgetown. O texto pode parecer melhor escrito. A apresentação pode soar mais sofisticada. A piada para a festa de aposentadoria pode funcionar perfeitamente. Mas o esforço mental, a dificuldade, as tentativas frustradas e o momento do "insight" são precisamente o que o cérebro necessita.

"É como ir à academia e deixar um robô levantar os pesos por você", compara Greene. "Você não ganha nada com isso."

Então, como usar IA sem deixar de exercitar o cérebro?

Não aceite a resposta da IA sem questionar

Um estudo recente revelou que usuários mais frequentes de IA tiveram um desempenho significativamente inferior em um teste padrão de pensamento crítico. A hipótese é que isso se deve ao hábito de transferir parte do raciocínio para sistemas automatizados, ou robôs. Os pesquisadores também observaram que muitas pessoas passam a confiar mais na IA do que em seu próprio julgamento, mesmo quando a ferramenta apresenta erros. Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, denominam esse fenômeno de "rendição cognitiva".

O problema se agrava quando o usuário possui pouco conhecimento sobre o assunto. Um estudo da Microsoft Research concluiu que o risco aumenta justamente em áreas onde a pessoa tem menos familiaridade. "Se o usuário não tem conhecimento suficiente para avaliar se a resposta é boa ou não, aí está o perigo", afirma Hank Lee, doutorando da Universidade Carnegie Mellon, nos EUA, e coautor do estudo.

Para Lee, a solução começa antes mesmo de abrir o aplicativo. Se você não confia automaticamente na resposta de um desconhecido, também não deveria confiar cegamente na IA. São precisamente esses temas que demandam julgamento próprio.

Uma alternativa consiste em formular primeiro uma visão inicial sobre o assunto e, então, usar a IA para testar ou confrontar esse raciocínio, em vez de simplesmente aceitar a resposta da ferramenta. Dessa forma, a IA atua como um instrumento para colocar o pensamento à prova, e não para substituí-lo.

Introduza mais esforço no processo de pesquisa

Ao recorrer à IA para buscar informações importantes, especialistas recomendam se envolver ativamente com o conteúdo. Fazer anotações, de preferência à mão, embora digitá-las também ajude, pode contribuir para a retenção — Foto: Getty Images via BBC

"Quando algo está diante de você, é comum acreditar que a informação já foi armazenada na memória de longo prazo, quando isso nem sempre acontece", afirma Barbara Oakley, professora emérita de engenharia da Universidade de Oakland, nos EUA, que pesquisa o funcionamento do aprendizado no cérebro.

Pesquisas iniciais indicam que a IA pode afetar a capacidade de retenção de informações. Um levantamento com 494 estudantes mostrou que usuários mais frequentes do ChatGPT relataram mais episódios de perda de memória. Avaliações feitas pelos próprios participantes não constituem prova científica definitiva, mas outros trabalhos apontam na mesma direção. Um estudo de 2024 ainda não publicado, por exemplo, sugere que resolver pequenos problemas antes de usar um chatbot de IA pode melhorar o aprendizado obtido com a ferramenta.

Ao recorrer à IA para buscar informações importantes, especialistas recomendam desacelerar e se envolver mais ativamente com o conteúdo. Fazer anotações, de preferência à mão, embora digitá-las também ajuda, pode contribuir para a retenção. Também é possível solicitar à IA que formule perguntas sobre o tema ou crie flashcards (cartões de revisão).

O esforço faz diferença. Pode parecer excessivamente trabalhoso, mas a ideia é justamente introduzir algum grau de dificuldade no processo.

Deixe a página em branco por mais tempo

A IA é extremamente eficiente para gerar ideias. E esse é justamente o problema. Pesquisas indicam que pessoas que usam IA em tarefas criativas tendem a produzir ideias mais previsíveis e menos originais do que aquelas que não recorrem à tecnologia. Isso pode enfraquecer a sua capacidade criativa.

Segundo Greene, da Universidade Georgetown, a criatividade surge quando o cérebro estabelece conexões inesperadas. Quando essa tarefa é delegada à IA, parte desse exercício mental se perde. "Estamos preocupados com a perda desse 'músculo criativo'", afirma Greene. "A IA nos leva, de várias formas, a acreditar que está tornando as pessoas mais criativas."

Uma forma de evitar isso é primeiro colocar as próprias ideias no papel, ainda que de maneira incompleta ou confusa. Vale a pena passar mais tempo diante da página em branco e escrever o que vier à mente. A qualidade inicial importa menos do que o processo.

O que importa, segundo pesquisadores, é que o cérebro faça suas próprias conexões, recorrendo a experiências, memórias e conhecimentos pessoais para produzir algo singular. É aí que acontece o exercício mental. Somente depois disso a IA deveria entrar em cena, para desenvolver, questionar ou aprimorar as ideias já formuladas.

Preste atenção

Pesquisas sugerem que o excesso de estímulos tecnológicos também está tornando mais difícil manter o foco — Foto: Getty Images via BBC

Se você chegou até aqui no texto, parabéns. Mas se já começou a perder a atenção, saiba que não está sozinho. Pode ser que este texto esteja tedioso, mas há pesquisas que sugerem que o excesso de estímulos tecnológicos também está dificultando a manutenção do foco. A IA pode intensificar esse problema: as respostas estão disponíveis instantaneamente, e existem inúmeras maneiras de escapar do esforço e do desconforto.

No entanto, a lógica é semelhante à das outras recomendações: optar conscientemente pelo caminho mais lento. Não peça ao ChatGPT para resumir aquele artigo longo. Dedique algum tempo a resolver um problema difícil antes de recorrer a um robô. Permita-se sentir tédio. O desconforto faz parte do processo. É assim que o cérebro aprende a lidar e, eventualmente, a apreciar o esforço mental necessário para um pensamento mais profundo.

Cérebros humanos ainda importam

Não se trata de advogar pelo abandono de chatbots de IA, como ChatGPT, Claude ou Gemini. Pelo contrário, o autor tem buscado usar essas ferramentas de maneira mais consciente, garantindo que o pensamento próprio seja preservado. E essa abordagem pode nos preparar melhor para o futuro.

Segundo Greene, da Universidade Georgetown, o cérebro humano opera de forma fundamentalmente diferente da IA: somos capazes de criar conexões pessoais, inesperadas e genuinamente originais, algo que máquinas baseadas em probabilidade não conseguem reproduzir.

"A singularidade e a diversidade das ideias humanas serão de grande valor nos próximos anos", afirma Greene. Para ele, a necessidade de "pensar além dos robôs" tende a se tornar uma forma essencial de adaptação social.

E, como lembra Benge, da Universidade do Texas, esta não é a primeira vez que a humanidade enfrenta uma transformação tecnológica desse porte. "O cérebro humano sempre se adaptou à tecnologia. Nós nos adaptamos o tempo todo. Essa é uma das forças da nossa espécie", afirma. "Perdemos a capacidade de correr maratonas porque existem carros? Não. Isso apenas passou a ser uma atividade que as pessoas escolhem praticar."

As ferramentas mudam. Mas, ao que tudo indica, o desejo humano de pensar, criar e compreender o mundo por conta própria é muito mais difícil de automatizar.

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