PIX EM DISPUTA
Entenda a criação do Pix, sistema de pagamentos sob ataque dos EUA
Investigação dos Estados Unidos alega que o sistema brasileiro prejudica empresas americanas. Entenda quem o criou e seu impacto.
A recente ofensiva do governo dos Estados Unidos contra o sistema de pagamentos Pix reacendeu no Brasil o debate sobre a origem e o desenvolvimento dessa tecnologia. A investigação comercial, concluída nesta semana e iniciada em julho do ano passado, aponta o Pix como um dos alvos, alegando que o Brasil prejudica injustamente empresas americanas ao favorecer seu "campeão nacional". Em resposta, nesta quinta-feira, 04/06/2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva exibiu um cartaz em evento público em Goiás afirmando: "O Pix é do Brasil".
A polêmica ganhou contornos políticos com senadores também se manifestando sobre a soberania do sistema. Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à Presidência, declarou em Minas Gerais que o Pix "é brasileiro, foi feito pelo [ex] presidente [Jair] Bolsonaro" e que sua gratuidade foi uma determinação dele.
Apesar das divergências políticas sobre a autoria, o Pix é um sistema de pagamento instantâneo criado por técnicos do Banco Central. Ele permite transferências de dinheiro entre contas em segundos, a qualquer hora do dia, com rapidez e segurança. O sistema pode ser utilizado a partir de contas correntes, poupança ou pré-pagas, tornando-se uma ferramenta essencial na vida dos brasileiros. Mais de 170 milhões de pessoas físicas — aproximadamente 80% da população brasileira — já utilizaram o Pix, com mais de R$ 3 trilhões movimentados até outubro do ano passado. Somente em janeiro deste ano, foram mais de 7 bilhões de transações.
O desenvolvimento do Pix, contudo, remonta a anos anteriores ao seu lançamento em novembro de 2020. A primeira menção a "soluções que permitam, a baixo custo, pagamentos de varejo em tempo real e ininterruptos" surgiu em 2014, em um relatório do Banco Central durante o governo de Dilma Rousseff. O desenvolvimento técnico, no entanto, começou em maio de 2018, sob a gestão de Michel Temer, com a instituição de um grupo de trabalho focado em pagamentos instantâneos. A Portaria 97.909 do Banco Central, de maio de 2018, foi crucial ao estabelecer a infraestrutura centralizada de liquidação, que operaria 24 horas por dia, sete dias por semana.
Entre a formação do grupo de trabalho e o lançamento oficial, o processo levou cerca de 31 meses. Em dezembro de 2018, último mês do governo Temer, o Banco Central divulgou o Comunicado 32.927, definindo requisitos fundamentais do Pix e assumindo oficialmente a liderança do projeto. A infraestrutura tecnológica começou a ser desenvolvida a partir de outubro de 2019, já no governo de Jair Bolsonaro. A marca "Pix" foi oficialmente lançada em fevereiro de 2020, simbolizando tecnologia, transação e a transposição de limites no sistema financeiro. O cadastramento de chaves por usuários iniciou em outubro de 2020, com o sistema operando de forma restrita em 3 de novembro e plena em 16 de novembro de 2020.
A estrutura do Pix teve um impacto significativo, especialmente para bancos digitais e fintechs nacionais, que inovaram e expandiram suas operações, inclusive internacionalmente, com o sistema. Essa ascensão transformou o Brasil em referência global em inovação financeira, inspirando outros países como a Colômbia. O Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, elogiou o Pix por sua instantaneidade e baixos custos de transação, sugerindo que o Brasil pode ter "inventado o futuro do dinheiro". Ele destacou que o sistema brasileiro alcançou o que defensores de criptomoedas alegavam ser possível, como baixos custos e inclusão financeira, contrastando com o baixo uso de criptomoedas nos EUA.
Especialistas apontam que o sucesso do Pix incomodou grandes empresas de tecnologia americanas, configurando uma disputa tecnológica onde os EUA buscam manter o controle sobre inovações. A investigação americana, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, alega que o Banco Central, ao atuar como regulador e operador do Pix, cria um conflito de interesses. Acusa ainda o BC de desfavorecer provedores de serviços de pagamento dos EUA ao exigir o uso do Pix por instituições financeiras e destacá-lo nas interfaces dos aplicativos, além de ser ofertado sem taxas aos clientes. Como resultado, os EUA propõem tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, em negociação que se estende até 15 de julho. A Febraban, Federação Brasileira de Bancos, defendeu o Pix, argumentando que a investigação se baseou em informações incompletas e que o sistema, como infraestrutura, favorece a competição e a inclusão financeira.
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