PIX EM DISPUTA

Entenda a criação do Pix, sistema de pagamentos sob ataque dos EUA

Presidente dos EUA, Donald Trump, em evento oficial.
Presidente dos EUA, Donald Trump, fala com repórteres após assinar ordem executiva em 3 de junho de 2026.

Investigação dos Estados Unidos alega que o sistema brasileiro prejudica empresas americanas. Entenda quem o criou e seu impacto.

A recente ofensiva do governo dos Estados Unidos contra o sistema de pagamentos Pix reacendeu no Brasil o debate sobre a origem e o desenvolvimento dessa tecnologia. A investigação comercial, concluída nesta semana e iniciada em julho do ano passado, aponta o Pix como um dos alvos, alegando que o Brasil prejudica injustamente empresas americanas ao favorecer seu "campeão nacional". Em resposta, nesta quinta-feira, 04/06/2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva exibiu um cartaz em evento público em Goiás afirmando: "O Pix é do Brasil".

A polêmica ganhou contornos políticos com senadores também se manifestando sobre a soberania do sistema. Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à Presidência, declarou em Minas Gerais que o Pix "é brasileiro, foi feito pelo [ex] presidente [Jair] Bolsonaro" e que sua gratuidade foi uma determinação dele.

Apesar das divergências políticas sobre a autoria, o Pix é um sistema de pagamento instantâneo criado por técnicos do Banco Central. Ele permite transferências de dinheiro entre contas em segundos, a qualquer hora do dia, com rapidez e segurança. O sistema pode ser utilizado a partir de contas correntes, poupança ou pré-pagas, tornando-se uma ferramenta essencial na vida dos brasileiros. Mais de 170 milhões de pessoas físicas — aproximadamente 80% da população brasileira — já utilizaram o Pix, com mais de R$ 3 trilhões movimentados até outubro do ano passado. Somente em janeiro deste ano, foram mais de 7 bilhões de transações.

O desenvolvimento do Pix, contudo, remonta a anos anteriores ao seu lançamento em novembro de 2020. A primeira menção a "soluções que permitam, a baixo custo, pagamentos de varejo em tempo real e ininterruptos" surgiu em 2014, em um relatório do Banco Central durante o governo de Dilma Rousseff. O desenvolvimento técnico, no entanto, começou em maio de 2018, sob a gestão de Michel Temer, com a instituição de um grupo de trabalho focado em pagamentos instantâneos. A Portaria 97.909 do Banco Central, de maio de 2018, foi crucial ao estabelecer a infraestrutura centralizada de liquidação, que operaria 24 horas por dia, sete dias por semana.

Entre a formação do grupo de trabalho e o lançamento oficial, o processo levou cerca de 31 meses. Em dezembro de 2018, último mês do governo Temer, o Banco Central divulgou o Comunicado 32.927, definindo requisitos fundamentais do Pix e assumindo oficialmente a liderança do projeto. A infraestrutura tecnológica começou a ser desenvolvida a partir de outubro de 2019, já no governo de Jair Bolsonaro. A marca "Pix" foi oficialmente lançada em fevereiro de 2020, simbolizando tecnologia, transação e a transposição de limites no sistema financeiro. O cadastramento de chaves por usuários iniciou em outubro de 2020, com o sistema operando de forma restrita em 3 de novembro e plena em 16 de novembro de 2020.

A estrutura do Pix teve um impacto significativo, especialmente para bancos digitais e fintechs nacionais, que inovaram e expandiram suas operações, inclusive internacionalmente, com o sistema. Essa ascensão transformou o Brasil em referência global em inovação financeira, inspirando outros países como a Colômbia. O Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, elogiou o Pix por sua instantaneidade e baixos custos de transação, sugerindo que o Brasil pode ter "inventado o futuro do dinheiro". Ele destacou que o sistema brasileiro alcançou o que defensores de criptomoedas alegavam ser possível, como baixos custos e inclusão financeira, contrastando com o baixo uso de criptomoedas nos EUA.

Especialistas apontam que o sucesso do Pix incomodou grandes empresas de tecnologia americanas, configurando uma disputa tecnológica onde os EUA buscam manter o controle sobre inovações. A investigação americana, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, alega que o Banco Central, ao atuar como regulador e operador do Pix, cria um conflito de interesses. Acusa ainda o BC de desfavorecer provedores de serviços de pagamento dos EUA ao exigir o uso do Pix por instituições financeiras e destacá-lo nas interfaces dos aplicativos, além de ser ofertado sem taxas aos clientes. Como resultado, os EUA propõem tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, em negociação que se estende até 15 de julho. A Febraban, Federação Brasileira de Bancos, defendeu o Pix, argumentando que a investigação se baseou em informações incompletas e que o sistema, como infraestrutura, favorece a competição e a inclusão financeira.

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