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Ensino a Distância (EaD) se consolida como porta de entrada para 43 milhões no ensino superior brasileiro

Representação gráfica de Ensino Superior a Distância
Capa da matéria sobre Ensino Superior a Distância

Modalidade educacional se tornou a principal via para estudantes em municípios sem oferta presencial. Especialistas alertam para desafios de infraestrutura e evasão.

O município de Tabatinga, localizado no extremo oeste do Amazonas, próximo às fronteiras com Peru e Colômbia, ilustra a realidade de muitos brasileiros. Chegar à capital Manaus de barco pelo Rio Solimões leva pelo menos sete dias, e a passagem aérea, quando disponível, tem um custo proibitivo. Para Jaciana Saraiva, moradora da cidade, a modalidade de Ensino a Distância (EaD) foi a única alternativa para realizar o sonho da graduação. Em 2019, o Centro Universitário Fametro passou a atuar em Tabatinga, permitindo que ela cursasse Nutrição a distância por R$ 450 mensais, metade do valor presencial em Manaus e sem os custos adicionais de moradia e transporte. "Sem o EaD, não teria feito a faculdade", afirma, destacando a inviabilidade de se deslocar para a capital.

A história de Jaciana se repete em pelo menos 2,3 mil municípios brasileiros onde não há oferta de cursos presenciais, mas que contam com polos de EaD. Essa realidade foi confirmada pelos dados do Censo da Educação Superior de 2024, que revelam que 43,1 milhões de pessoas, aproximadamente 20,3% da população do país, só têm acesso a um diploma de graduação por meio da educação a distância. Nesta sexta-feira, 12/06/2026, o Metrópoles detalha a expansão do ensino superior para o interior do Brasil via EaD.

O EaD se consolidou como a principal via de acesso ao ensino superior brasileiro entre 2020 e 2021, um impulso que se intensificou durante o período pandêmico. Nos anos seguintes, 2023 e 2024, a modalidade reafirmou sua liderança, com dois em cada três novos estudantes optando por cursos a distância. Especialistas reconhecem o papel democratizador do EaD, mas alertam para as desigualdades estruturais que sua rápida expansão evidencia. Obstáculos como acesso precário à internet, falta de equipamentos e infraestrutura deficiente persistem em muitos municípios que dependem exclusivamente dessa modalidade, contribuindo para elevados índices de evasão.

Em resposta aos desafios de expansão e interiorização, e considerando um perfil de aluno cada vez mais diversificado, o governo federal promulgou, em maio de 2025, o Decreto nº 12.456/2025. A Nova Política de Educação a Distância (EaD) busca "corrigir distorções", como a expansão sem qualidade e as altas taxas de evasão, promovendo um acompanhamento mais efetivo dos estudantes. Críticos, no entanto, apontam que as exigências do decreto podem dificultar o acesso ao ensino superior em municípios sem oferta presencial e limitar a expansão do EaD, especialmente em instituições públicas.

A interiorização do ensino no Brasil apresenta números expressivos. Dados do Censo da Educação Superior de 2024 indicam que, pela primeira vez, as matrículas em cursos EaD superaram as do ensino presencial, alcançando 50,7% do total de estudantes de graduação. Em 2013, esse percentual era inferior a 20%. Em 11 anos, a participação do EaD no ensino superior brasileiro cresceu 153,5%, saindo de uma modalidade complementar para se tornar a principal porta de entrada. Esse avanço foi impulsionado pela expansão da internet, pela atuação de redes privadas em municípios desassistidos e pela pandemia de Covid-19.

Embora a região Sul lidere proporcionalmente a adesão ao EaD, a modalidade avança estrategicamente na região Norte para ampliar o acesso. A região concentra o menor número de Instituições de Ensino Superior (IES) do país. Em 2023, 51% dos estudantes nortistas estavam matriculados em cursos EaD, totalizando 432,4 mil alunos. Pará, Roraima, Acre, Amapá e Rondônia já têm a modalidade majoritária. Amazonas e Tocantins são os únicos estados onde o ensino presencial ainda predomina, mas o EaD cresceu significativamente em ambos.

Perfil de estudante de Ensino a Distância no Brasil
Perfil de estudante de Ensino a Distância no Brasil

Segundo Andréia Mello Lacé, professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), o perfil predominante dos estudantes de EaD no Brasil é de adultos que buscam conciliar estudos com trabalho e responsabilidades familiares. "Há uma prevalência do perfil feminino nos cursos de licenciatura — pessoas adultas, trabalhadoras, mulheres com responsabilidades familiares. Há uma maior heterogeneidade social, menor renda e trajetórias escolares marcadas pela descontinuidade", descreve a pesquisadora.

Adilson Guerreiro, 33 anos, ribeirinho da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, no Amazonas, é um exemplo da superação de barreiras. Morando em uma comunidade acessível apenas por via fluvial, ele enfrentou desafios de acesso à educação desde a infância. Após concluir o ensino médio via sistema mediado por tecnologia, a oportunidade de ingressar no ensino superior surgiu apenas em 2022, com o curso de Gestão em Turismo na modalidade EaD, através de um projeto da Fundação Amazônia Sustentável (FAS). "Se não fosse pela modalidade EaD, não teria feito esse curso, por conta da dificuldade de morar numa região distante e ter toda essa questão de custo para fazer presencial", relata Adilson, o primeiro de sua família a concluir uma graduação.

A FAS reconhece que, em áreas remotas da Amazônia, fatores como geração de renda, deslocamentos e infraestrutura podem influenciar a permanência dos estudantes. Adilson conta que, no início, ele e outros moradores dividiam os custos de gasolina da lancha para se deslocar até São Thomé para realizar provas, uma viagem de três horas de ida e volta, com um custo aproximado de R$ 700 por prova. "Desistir nunca foi uma das opções na minha cabeça, apesar de todas as dificuldades", relembra ele, que estudava à noite e utilizava a internet da escola para acessar conteúdos, pois não tinha conexão em casa. Adilson foi o único de sua turma a concluir o curso, atribuindo as desistências de colegas às dificuldades logísticas e climáticas que tornavam o trajeto inviável.

Hoje, Adilson trabalha concursado como técnico em endemias e planeja abrir seu próprio negócio no setor de turismo. "A vida melhorou", considera. A FAS avalia que a formação de Adilson representa um resultado relevante, mesmo sendo o único concluintes da região, demonstrando o impacto educacional e as oportunidades geradas para as comunidades atendidas.

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