CRISE FINANCEIRA FAMILIAR
Endividamento das famílias trava economia, diz Abaas a Alckmin
Com dívidas recorde, consumo da baixa renda cai; associação propõe freio em apostas online.
A Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviço (Abaas) acendeu um alerta preocupante para o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, sobre o crescente endividamento das famílias brasileiras e seu impacto devastador no consumo e no essencial setor de atacarejo. Em um documento crucial apresentado nesta segunda-feira, 04 de maio de 2026, a entidade enfatizou que "a roda da economia está travando", evidenciando como a sobrecarga financeira compromete a dignidade de milhões e a estabilidade econômica do país.
A Abaas, que representa o principal canal de abastecimento alimentar, alcançando 76% dos lares e 52% do varejo alimentar moderno, observa em primeira mão as consequências do sufoco financeiro. As 24 redes associadas registraram um faturamento de R$ 369,5 bilhões em 2025, mas essa vitalidade está ameaçada. A análise da associação, baseada em dados do Banco Central (BC), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e da Serasa, revela que o endividamento e a inadimplência das famílias atingiram picos históricos.
Este cenário gerou uma nítida divisão no consumo, aprofundando o chamado “efeito K”: enquanto setores voltados à alta renda registram expansão, o pequeno varejo, que atende majoritariamente a população de menor poder aquisitivo, enfrenta uma acentuada retração. No último trimestre de 2025, por exemplo, o varejo moderno cresceu 4% em volume, contrastando com a queda de 9,6% no pequeno varejo, conforme dados da NielsenIQ citados no material.
A associação desmistifica a ideia de que a queda no consumo da baixa renda se deve apenas aos preços dos alimentos. O documento aponta que itens básicos como arroz, leite, açúcar e feijão ficaram mais acessíveis em 2025. Contudo, o consumo dessa parcela da população diminuiu, indicando que a verdadeira barreira é a renda já comprometida por dívidas.
Um fator de agravamento preocupante é a proliferação das apostas online. A Abaas destaca o Brasil como um dos maiores consumidores de "bets", registrando 2,7 bilhões de acessos mensais a plataformas regulamentadas entre maio e junho de 2025. Além do mercado legal, a entidade alerta para o expressivo fluxo de recursos via Pix para apostas ilegais, um campo fértil para a vulnerabilidade financeira.
Para reverter esse quadro, a Abaas propõe uma ação conjunta de combate ao endividamento e de restrições mais severas ao mercado de apostas, especialmente no ambiente digital. Entre as medidas sugeridas estão o bloqueio de URLs ilegais, limitações a chaves Pix vinculadas a "bets" não autorizadas, a responsabilização de plataformas por anúncios de sites irregulares e restrições à publicidade de cassinos online.
A associação reconhece o programa Desenrola 2.0, lançado pelo governo, como um avanço importante, que oferece descontos em dívidas, juros máximos de 1,99% ao mês, e a possibilidade de uso do FGTS para renegociação, além de um bloqueio de um ano em apostas para os beneficiários. No entanto, a Abaas ressalta que a restrição às "bets" se aplica somente aos participantes do programa, deixando milhões de brasileiros ainda expostos ao problema.
A Abaas defende uma estratégia em dois níveis: medidas imediatas, a serem implementadas nos próximos 12 meses, focadas em coibir apostas ilegais, restringir a publicidade de cassinos online e estabelecer um teto progressivo para o crédito consignado; e ações estruturais, com um prazo de 5 a 10 anos, inspiradas na bem-sucedida política de combate ao tabagismo. Estas incluem campanhas nacionais de conscientização, advertências obrigatórias e a inclusão do tratamento da ludopatia no Sistema Único de Saúde (SUS).
Na visão da entidade, o endividamento e o vício em apostas transcenderam a esfera econômica, tornando-se uma questão crítica de saúde pública. "A roda da economia só gira se o consumo voltar a quem mais precisa consumir", conclui a mensagem final do documento, um apelo à ação para resgatar a dignidade e o poder de compra das famílias brasileiras.
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