INVESTIGAÇÃO APONTA SUPERFATURAMENTO

Empresa ligada a suposto membro do PCC recebe R$ 12 milhões em contratos públicos

Alex Leandro Bispo dos Santos, empresário investigado por ligações com o PCC e envolvimento em contratos públicos.
Alex Leandro Bispo dos Santos, sócio da Favela Conectada, é apontado por investigações como suposto integrante do PCC.

Alex Leandro Bispo dos Santos, sócio da Favela Conectada, é suspeito de integrar o PCC e de receber verbas públicas superfaturadas. Dinheiro pode ter financiado filme sobre ex-presidente.

Um empresário apontado por investigações como suposto membro do Primeiro Comando da Capital (PCC) teve sua empresa, a Favela Conectada, agraciada com cerca de R$ 12 milhões em contratos públicos. Alex Leandro Bispo dos Santos, sócio da Favela Conectada, está sob escrutínio em uma operação que apura o desvio de recursos destinados à instalação de pontos de Wi-Fi em comunidades de São Paulo. A investigação levanta a suspeita de que parte do dinheiro público possa ter sido utilizada para financiar o filme "Dark Horse", cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), produzido pela Go Up Entertainment, que tem como sócia Karina Ferreira da Gama, presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB). O ICB, por sua vez, firmou um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a implementação de 5 mil pontos de internet gratuita em áreas periféricas da capital paulista. Segundo as apurações conduzidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), o empresário Alex Leandro Bispo dos Santos teria estreitado laços com a facção criminosa durante seu período de reclusão em presídios controlados pelo PCC, incluindo a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau. Ele nega veementemente qualquer ligação com a organização. Alex Leandro possui um histórico criminal com três condenações por roubo, totalizando aproximadamente 13 anos de prisão em regime fechado. Durante seu tempo no sistema prisional, ele passou por ao menos 13 unidades. Um dos crimes pelos quais foi condenado envolveu o sequestro de um sobrinho do deputado estadual Eduardo Suplicy. Em dezembro de 2025, Alex Leandro foi novamente detido, sob acusação de ter empurrado sua companheira do décimo andar de um edifício. Na ocasião, a polícia apreendeu um vídeo onde ele supostamente se autodenominava "escorpião do PCC", termo que, para os investigadores, remete a um símbolo da facção. A magistrada Michelle Porto de Medeiros Cunha Carreiro, da 5ª Vara do Júri, em sua decisão que tornou Alex Leandro réu, destacou que o acusado já possuía antecedentes criminais e que relatos indicavam que ele "vangloriava-se em ser ‘escorpião do PCC’ e em ter ‘irmãos'", indícios que, em sua visão, poderiam configurar vínculo com a organização criminosa. **Contrato sob investigação** A Favela Conectada foi contratada pelo Instituto Conhecer Brasil para a instalação e manutenção dos pontos de internet, com remuneração mensal de R$ 712 por ponto. Uma análise financeira revelou que, em abril de 2025, a empresa recebeu o valor correspondente a 12 meses de manutenção para 218 pontos instalados em um período de apenas sete dias, apesar de o contrato prever vigência até 30 de junho daquele ano. A investigação aponta que, enquanto a Prefeitura de São Paulo repassou cerca de R$ 2,7 milhões ao ICB para a manutenção desses pontos, o custo real do serviço teria sido de aproximadamente R$ 273 mil. Documentos obtidos pela investigação indicam que o contrato inicial para a instalação de 2 mil pontos de acesso à internet foi assinado apenas com o primeiro nome “Alex” e parte do CPF do contratado. Posteriormente, o nome completo de Alex Leandro Bispo dos Santos e de Maria Katiane Gomes da Silva surgiram em documentos complementares. A investigação também descobriu que a Favela Conectada operava no mesmo prédio onde o Instituto Conhecer Brasil mantinha um escritório, cujos aluguéis eram pagos com recursos do contrato público. **Operação aponta superfaturamento** Sob o nome de Operação Sem Wi-Fi, a Polícia Civil identificou que a Prefeitura de São Paulo pagou valores até 230% superiores aos de mercado pela instalação e manutenção dos pontos de internet. Enquanto a empresa municipal Prodam cobrava R$ 306 pela instalação e R$ 200 mensais de manutenção, o contrato com o ICB estipulava um pagamento fixo de R$ 1.800 por ponto. A Prefeitura de São Paulo, em nota, defendeu o custo estimado para 2026, de R$ 1.280 por ponto ao mês, argumentando que é inferior a propostas recebidas em 2022. **Principais suspeitas investigadas:** * Suposta falta de capacidade técnica do Instituto Conhecer Brasil para serviços de telecomunicações. * Possível superfaturamento nos valores contratados. * Descumprimento de metas de instalação. * Celebração de aditivos contratuais para justificar atrasos. * Antecipação de cerca de R$ 26 milhões sem comprovação de serviços. * Pagamento por 3.200 pontos de internet quando apenas seis estariam operacionais em determinado período.

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