FUTEBOL E DINHEIRO

Economia peculiar torna a Copa do Mundo de 2026 a mais 'louca' da história

Donald Trump em evento da Fifa.
Donald Trump recebeu um Prêmio da Paz da Fifa antes da Copa do Mundo de 2026.

Com um modelo econômico inédito, a Copa de 2026 pressiona torcedores com preços recordes e reflete a 'economia em K', onde poucos lucram muito e muitos pouco.

A Copa do Mundo de futebol de 2026 se desenha como a mais "louca" de todos os tempos, não apenas pelo espetáculo em campo, mas por um modelo econômico radicalmente diferente dos anteriores. A decisão de implementar uma estratégia de precificação e receita inédita foi tomada pela Fifa, impulsionada pela necessidade de maximizar lucros e reestruturar a economia do futebol. Isso importa porque o impacto direto recai sobre os torcedores, que enfrentam pressões financeiras sem precedentes, e lança luz sobre a crescente "economia em K", onde a desigualdade de resultados econômicos se acentua.

A configuração geopolítica e econômica global adiciona camadas de complexidade à competição. O principal país-sede, os Estados Unidos, encontra-se em uma tensa relação com o Irã, um dos participantes. A logística da equipe iraniana, que precisa se deslocar a partir do México em dias de jogo, evidencia as particularidades deste torneio. Para complicar ainda mais, os três países-sede — Estados Unidos, Canadá e México — navegam em meio a uma substancial guerra comercial. A renegociação do acordo de livre comércio da América do Norte (USMCA) está prevista para ocorrer entre a cerimônia de abertura, no Estádio Azteca, e a final, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, adicionando uma camada de incerteza econômica à própria realização do evento.

O presidente dos EUA, Donald Trump, demonstra atenção especial ao torneio, seus patrocinadores e o potencial impacto político de sua possível volta à Casa Branca. Trump chegou a comentar que sua derrota na eleição de 2020 permitiu seu retorno para a Copa de 2026 e para os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028. Após a retomada de hostilidades entre Irã e Israel, Trump pediu o fim dos ataques. No entanto, a imprevisibilidade de suas ações, como a promessa de ataques aéreos ao Irã seguida por sinais de um acordo iminente, reflete a volatilidade do cenário. A controversa aceitação de um Prêmio da Paz da Fifa antes do conflito com o Irã, que gerou um forte choque global na energia e na economia, também marca este período.

A possibilidade de um confronto entre Estados Unidos e Irã nas oitavas de final, coincidente com as comemorações dos 250 anos da independência dos EUA, adiciona um elemento dramático. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, já apelou por cessar-fogo durante as Copas do Mundo. Se o torneio conseguir acelerar a desescalada de conflitos, o impacto nos preços da energia e na economia mundial pode ser concreto. A Copa de 2026, portanto, se configura não apenas como um evento esportivo, mas como um microcosmo das complexas interconexões entre política, economia e esporte global.

A "economia em K" — onde diferentes grupos sociais têm resultados financeiros divergentes, representados graficamente por linhas ascendentes e descendentes — parece ser o modelo econômico que rege esta Copa. Essa abordagem, que atribui maior valor a um grupo específico de torcedores, está revolucionando o mecanismo de preços. A Fifa, por outro lado, argumenta que a receita obtida será redistribuída para o desenvolvimento do futebol em países mais pobres, um discurso no estilo "Robin Hood".

Este torneio é notavelmente o maior em diversas métricas: terá os maiores estádios, o maior número de jogos (ampliado para 48 seleções), a maior audiência televisiva global prevista e a maior extensão territorial. A precificação dos ingressos é astronômica, com valores de cinco dígitos para a final e cerca de US$ 1.000 para jogos de grupo mais atraentes. Essa estratégia, que vai além da precificação dinâmica já vista em outros eventos, transforma o futebol em um jogo altamente rentável para a Fifa. A inspiração vem da NFL, liga de futebol americano, onde a maximização da arrecadação é prioridade, mesmo que isso signifique menor ocupação de assentos.

Diferentemente de Copas anteriores, que frequentemente impulsionavam obras de infraestrutura e contavam com custos bancados pelos contribuintes, a edição de 2026 adota um modelo de "poucos ativos". A Fifa aluga os estádios, majoritariamente pagos pelo público do futebol americano, e maximiza as receitas através de preços elevados. Os custos de construção e infraestrutura, que antes eram compartilhados com as cidades-sede, agora recaem sobre os espectadores. A previsão é que a receita com ingressos e hospitalidade triplique em relação à Copa de 2022, podendo atingir mais de US$ 3 bilhões, com estimativas chegando a superar os US$ 7 bilhões.

A estrutura financeira desta Copa difere radicalmente de edições passadas, como a de 1994 nos Estados Unidos. Naquela época, a Fifa entregou a organização e a gestão de receitas de patrocínio e licenciamento à Federação de Futebol dos EUA. Em 2026, a Fifa retém a maior parte das receitas e as cidades-sede arcam com os custos operacionais, como segurança e transporte, sem participar diretamente do aumento da receita de ingressos. Isso gerou insatisfação e reações negativas, com aumentos expressivos nas tarifas de transporte e estacionamento em algumas cidades-sede, contrastando com a gratuidade oferecida em torneios anteriores.

A Fifa também incorporou o mercado secundário (revenda de ingressos) ao seu sistema, cobrando taxas tanto do vendedor quanto do comprador. Além disso, utilizou colecionáveis digitais ligados a criptoativos para a distribuição de ingressos. A entidade afirma que essa estratégia visa capturar o prêmio antes obtido por cambistas e direcioná-lo para a "família global do futebol". Esses recursos adicionais serão usados para reservas da Fifa, com a promessa de reinvestimento no desenvolvimento do esporte, citando o caso de Cabo Verde como exemplo de sucesso dessa política.

O modelo de distribuição igualitária de recursos da Fifa, existente desde os anos 1990 e ampliado por Gianni Infantino, baseia-se no sistema "um país, um voto". No entanto, a introdução da precificação dinâmica e o aumento massivo das receitas colocam em xeque o valor real que esses fundos terão para as associações filiadas, especialmente em comparação com o potencial de ganho da própria Fifa, que já supera o orçamento de organizações como a OMS e a ONU. A eficácia e a justiça desse modelo de precificação em larga escala ainda geram debates.

O risco de o modelo de precificação da Copa do Mundo gerar uma reação negativa é real. Houve quedas nos preços de revenda para jogos de menor demanda, e autoridades em Nova Jersey e em outros locais já investigam as estratégias de venda de ingressos. A Fifa enfrenta o desafio de equilibrar a maximização da receita com a garantia de que os ingressos sejam vendidos e os estádios permaneçam cheios, criando a atmosfera desejada por figuras como o lendário Jock Stein. A decisão de aplicar "preços de mercado" e permitir aumentos agressivos baseados na demanda é uma escolha controversa.

O modelo europeu de precificação, que combina ingressos acessíveis para torcedores com preços corporativos elevados, serve de contraponto. A possibilidade de o experimento da Fifa influenciar donos de clubes europeus e a adoção de preços personalizados via inteligência artificial (IA) apontam para um futuro de possíveis mudanças no mercado de eventos esportivos. A "economia em K" dos EUA, onde o crescimento se concentra nos mais ricos, pode se tornar visível nos estádios, transformando a experiência de massa em um nicho de luxo.

Embora haja a esperança de que o entusiasmo da Copa impulsione a confiança do consumidor e os investimentos no futebol, os efeitos econômicos gerais podem ser limitados. Em cidades como Chicago, que desistiram de sediar jogos, a decisão parece justificada diante da concentração de receitas na Fifa e de reservas hoteleiras aquém do esperado. O impacto em países como o Reino Unido também é incerto, com possíveis benefícios no varejo e hospitalidade, mas também desafios de produtividade devido aos horários dos jogos. A Copa de 2026, em sua singularidade econômica e política, oferece um pano de fundo distinto para o cenário global, com a esperança de que, mesmo diante da desordem, o esporte possa trazer algum alento.

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