DIREITO RECONHECIDO

Dupla maternidade: resiliência em dobro para construir um lar de amor

Casal Claudia Ludimila e Micaela Freitas com os filhos Liz e Gael, sorrindo e abraçando.
Claudia Ludimila e Micaela Freitas compartilham sua história de dupla maternidade com os filhos Liz e Gael.

Provimento 63 do CNJ de 2017 facilita registros; lares homoafetivos crescem 552% em 12 anos, segundo o IBGE.

O Diário do RN, nesta terça-feira, 05 de maio de 2026, mergulha na emocionante jornada de Claudia Ludimila e Micaela Freitas, um casal que, há uma década, decidiu construir um lar de amor e resiliência, tornando-se mães de Liz e Gael. Esta reportagem celebra a pluralidade familiar e o impacto da decisão no reconhecimento legal da dupla maternidade no Brasil, consolidada pelo Provimento 63 do CNJ em 2017, que eliminou a necessidade de ordem judicial para o registro de filhos concebidos por reprodução assistida.

Dentro da pluralidade de formações familiares, o número de registros de casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo cresceu 8,8% entre 2023 e 2024, conforme dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Desse total, as uniões entre mulheres representaram a maioria, correspondendo a 64,6% dos casos registrados no último ano.

Com o aumento nas uniões homoafetivas, a quantidade de núcleos familiares com genitores do mesmo sexo também experimentou um salto notável. Em 12 anos, o número de lares cresceu 552%, passando de cerca de 60 mil domicílios em 2010 para 391.158 em 2022.

A história de Claudia Ludimila e Micaela Freitas, juntas há dez anos e mães de Liz e Gael, ilustra essa realidade. A decisão de ter filhos brotou de um desejo profundo de edificar um lar onde o afeto fosse o pilar central. "Viver a dupla maternidade é entender que o cuidado pode ser multiplicado. No nosso dia a dia, não existe um ‘papel fixo’; existe a entrega. Dividimos a função de guiar, proteger e ensinar, oferecendo aos nossos filhos duas referências de força, acolhimento e resiliência", afirma Ludimila, ressaltando a dinâmica de parceria e dedicação.

Para as famílias formadas por duas mães, a jornada é pavimentada com amor, mas também com desafios singulares que demandam vigor e resiliência. Apesar dos avanços no reconhecimento dos direitos das famílias homoafetivas no país, a dupla maternidade ainda enfrenta obstáculos. A busca por reconhecimento legal pleno, o confronto com preconceitos em ambientes como escolas e a constante necessidade de explicar a estrutura familiar exigem uma força contínua.

Ludimila enfatiza a abordagem do casal: "Sabemos que o preconceito ainda é uma realidade persistente, mas escolhemos não deixar que ele dite o tom da criação dos nossos filhos. Para nós, criar com dignidade significa munir nossas crianças de autoestima e verdade". Essa postura reflete o compromisso de edificar uma base sólida para seus filhos.

A multiparentalidade é um testemunho eloquente de que o amor é o alicerce fundamental de um lar. Quando duas mulheres escolhem construir uma família e dividir a experiência de ser mãe, seja por adoção, fertilização in vitro (FIV) ou outros caminhos, o afeto, o cuidado e o suporte mútuo se multiplicam. "Essa dinâmica nos permite construir uma rede de apoio interna muito forte, onde o diálogo é a nossa principal ferramenta para equilibrar as demandas da vida profissional com a dedicação integral que a infância exige", destaca Ludimila.

Ludimila e Micaela optaram pela FIV, com Micaela sendo a gestante. Elas utilizam um perfil em redes sociais (@2irmãose2mães) para compartilhar a rotina e as experiências da família. Com aproximadamente 11 mil seguidores, as publicações abrangem desde o início do desejo pela maternidade até narrativas do cotidiano com os filhos pequenos, hoje com dois anos de idade.

A história delas, compartilhada diariamente, serve como um convite à reflexão. "Ocupar espaços em veículos como o Diário do RN é fundamental para mostrar que a nossa família é real, é presente e contribui para a sociedade com os mesmos valores éticos e de cuidado que qualquer outra", afirma Micaela, ressaltando a importância da visibilidade.

O reconhecimento legal da dupla maternidade no Brasil foi estabelecido em 2017. O Provimento 63 do CNJ, implementado naquele ano, possibilitou o registro direto em cartório de crianças concebidas por reprodução assistida, eliminando a necessidade de ordem judicial. Além disso, os tribunais superiores asseguram o reconhecimento de casos que envolvem “inseminação caseira” ou outros métodos socioafetivos, ampliando a proteção jurídica.

Ludimila reitera que a luta contra o preconceito se dá não pelo embate, mas pela existência plena e feliz. "Criamos nossos filhos para que eles caminhem de cabeça erguida, sabendo que foram gerados e são criados por um amor que não conhece fronteiras, apenas horizontes", conclui. A narrativa de Ludimila e Micaela é um recorte que espelha a realidade de muitas outras famílias, demonstrando que a maternidade transcende formatos pré-estabelecidos e floresce onde há amor incondicional, vivendo assim a essência do que é maternar, independentemente do modelo familiar construído.

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