SAÚDE E SONO
Dormir pouco ou demais acelera envelhecimento e risco de doenças, diz estudo
Publicado na Nature, o levantamento destaca que padrões de sono inadequados elevam a idade biológica e a suscetibilidade a mais de 150 doenças, impactando diretamente a longevidade e a dignidade humana.
A prestigiada revista científica Nature publicou, nesta quarta-feira, 13 de maio de 2026, um estudo revelador conduzido por uma equipe da Universidade Columbia, liderada pelo professor assistente de radiologia Junhao Wen. A pesquisa demonstrou que tanto a privação (menos de seis horas) quanto o excesso (mais de oito horas) de sono podem acelerar significativamente o envelhecimento biológico em diversos órgãos do corpo, intensificando o risco de doenças crônicas e diminuindo a longevidade. Este achado é crucial porque ressalta como um hábito cotidiano, muitas vezes subestimado, impacta profundamente a qualidade de vida e a saúde individual, sugerindo que otimizar o tempo de descanso pode ser uma chave fundamental para um envelhecimento mais saudável e digno.
Os pesquisadores analisaram dados de quase 500 mil pessoas do banco britânico UK Biobank e identificaram uma clara relação em formato de “U” entre a duração do sono e o envelhecimento biológico. Tanto o sono insuficiente quanto o excessivo estiveram ligados a piores indicadores de saúde, com sinais de envelhecimento acelerado em órgãos e sistemas vitais como cérebro, pulmão, fígado, pâncreas, tecido adiposo, pele e sistema imunológico.
Segundo o estudo, os menores níveis de envelhecimento biológico foram registrados em pessoas que dormiam consistentemente entre 6,4 e 7,8 horas por noite. Pequenas variações foram notadas entre homens e mulheres, mas a faixa de sono ideal se manteve estreita.
Entre os distúrbios relacionados ao cérebro, a privação de sono foi significativamente associada a episódios depressivos e transtornos de ansiedade. Além disso, a falta de descanso adequado também esteve ligada à obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, doença cardíaca isquêmica e arritmias cardíacas. O sono insuficiente também se mostrou associado à doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), asma e a uma série de distúrbios digestivos, como gastrite e doença do refluxo gastroesofágico.
Estudo avaliou relógios biológicos do corpo
Para chegar a esses resultados alarmantes, os cientistas utilizaram 23 “relógios biológicos” de envelhecimento, desenvolvidos a partir de:
- Exames de ressonância magnética;
- Análises de proteínas do plasma;
- Estudos metabólicos.
Esses relógios estimam a chamada idade biológica, uma medida que tenta indicar o desgaste real do organismo, independentemente da idade cronológica. Os pesquisadores analisaram as diferenças entre a idade cronológica e a idade biológica em distintos órgãos e sistemas corporais.
Todos estão entusiasmados com esses relógios biológicos e sua capacidade de prever doenças e riscos de mortalidade. Mas, para mim, a questão mais interessante é: podemos conectar esses relógios biológicos a um fator de estilo de vida que possa ser modificado a tempo de retardar o envelhecimento?
Questiona Junhao Wen, líder do estudo e professor assistente de radiologia da Faculdade de Médicos e Cirurgiões Vagelos da Universidade Columbia.
Relação em “U” apareceu em diferentes órgãos
Dos 23 relógios biológicos avaliados, nove apresentaram uma associação significativa entre a duração do sono e o envelhecimento acelerado. Entre os sistemas mais afetados, destacam-se:
- Cérebro;
- Pulmão;
- Fígado;
- Sistema imunológico;
- Pele;
- Pâncreas;
- Tecido adiposo;
- Sistema endócrino.
Os autores afirmam que os resultados sugerem um impacto sistêmico do sono no organismo, e não apenas no cérebro, reforçando a ideia de que o descanso é fundamental para a manutenção da saúde geral.
Sono curto teve associação mais ampla com doenças
A pesquisa também encontrou uma ligação entre padrões anormais de sono e impressionantes 153 doenças sistêmicas. O sono curto, caracterizado por menos de 6 horas de descanso, apresentou uma associação mais ampla com uma série de problemas de saúde, incluindo:
Doenças cardiovasculares
- Insuficiência cardíaca;
- Hipertensão;
- Doença arterial coronariana;
- Arritmias.
Problemas metabólicos
- Diabetes tipo 2;
- Obesidade;
- Alterações do colesterol.
Doenças respiratórias
- Asma;
- Bronquite;
- Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
Problemas psiquiátricos e neurológicos
- Depressão;
- Ansiedade;
- Transtornos por uso de substâncias;
- Enxaqueca.
Problemas gastrointestinais
- Refluxo;
- Gastrite;
- Síndrome do intestino irritável;
- Constipação.
Sono prolongado teve ligação maior com doenças cerebrais
Já o sono longo, que ultrapassa 8 horas, mostrou uma associação mais concentrada em transtornos neuropsiquiátricos e doenças relacionadas ao cérebro, como:
- Depressão maior;
- Esquizofrenia;
- Transtorno bipolar;
- TDAH;
- Dependência alcoólica;
- Enxaqueca.
Segundo os autores, esta distinção pode indicar mecanismos biológicos diferentes entre os efeitos do sono curto e do sono prolongado no organismo. O estudo, contudo, não conseguiu determinar definitivamente se a duração do sono causa depressão na terceira idade ou se a depressão influencia a duração do sono.
As análises sugerem que o sono curto pode agravar a depressão na terceira idade, enquanto o sono longo pode influenciá-la por mecanismos ligados aos relógios biológicos e ao tecido adiposo.
Nosso estudo sugere que pode haver diferentes vias biológicas entre pessoas que dormem muito e pessoas que dormem pouco que levam ao mesmo resultado, a depressão na terceira idade, e não devemos tratá-las da mesma maneira.
Afirma Junhao Wen, destacando a forte implicação para o futuro do gerenciamento do sono e para futuras terapias.
Estudo também encontrou maior risco de morte
Os pesquisadores observaram que tanto dormir pouco quanto dormir demais esteve associado a um maior risco de morte por qualquer causa, um alerta severo sobre a importância do equilíbrio no descanso.
- Aumento de 50% no risco de morte entre pessoas com sono curto;
- Aumento de 40% entre aquelas com sono prolongado.
Efeitos sobre depressão podem seguir caminhos diferentes
O estudo também investigou a complexa relação entre sono e depressão tardia. Segundo os autores, o sono curto parece ter uma ligação mais direta com a doença, agindo como um fator de risco ou agravante.
Já o sono prolongado pode atuar de forma mais indireta, mediado por sinais de envelhecimento biológico em órgãos como cérebro, fígado e tecido adiposo, sugerindo uma causalidade mais intrincada.
Pesquisadores defendem otimização do sono
Os autores afirmam que os resultados reforçam o potencial da melhora do sono como uma estratégia simples, mas eficaz, para promover um envelhecimento saudável, reduzir o risco de doenças crônicas e aumentar a longevidade. Apesar disso, eles destacam que o estudo, embora robusto, não prova uma relação direta de causa e efeito, mas sim uma forte associação que exige mais investigações.
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