JUDICIÁRIO

Dirceu propõe autorreforma urgente para o STF

Retrato de José Dirceu, figura política brasileira, com expressão séria.
José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil e ex-deputado federal, durante entrevista.

Ex-ministro alerta: ignorar opinião pública pode levar a mudanças impostas pelo Legislativo. Entrevista completa revela riscos e demandas.

Neste domingo, 5 de abril de 2026, o ex-ministro da Casa Civil e ex-deputado federal José Dirceu clamou por uma "autorreforma" no Supremo Tribunal Federal (STF). Em entrevista à Folha de S.Paulo, Dirceu argumentou que a Corte deve se alinhar ao "sentimento do país" e discutir temas cruciais como a criação de um código de ética para magistrados. A proposta surge como um alerta: ignorar a percepção pública – expressa em uma pesquisa que indica 70% da população deseja mudanças – poderia levar a uma reforma imposta pelo Poder Legislativo, um cenário que o ex-ministro considera "pior" e ameaçador à autonomia e à dignidade da instituição. A urgência da pauta ressoa na defesa da estabilidade democrática e na credibilidade do próprio Judiciário perante a sociedade.

“Quando uma pesquisa mostra que 70% das pessoas querem que o Supremo mude, a Corte tem que fazer uma autorreflexão. Desconhecer a opinião pública é um erro”, declarou Dirceu à Folha de S.Paulo, enfatizando a necessidade de uma ação interna antes que o Parlamento atue.

Segundo o ex-ministro, essa "autorreforma" não representa fraqueza, mas sim um sinal de que o STF "está em sintonia com o sentimento do país". Ele advertiu: "Daqui a pouco se forma uma maioria e ele vai ser reformado pelo Parlamento. Vai ser pior. E não é possível mais dizer: ‘Se criticar o Supremo, você vai enfraquecer o Supremo’. O rei está nu”.

Dirceu defendeu que o Supremo debata questões como a adoção de um código de ética, limites de mandato para ministros e restrições à participação em empresas. "A extrema direita vai propor ao eleitorado medidas contra o Supremo, e nós vamos defender o Supremo sem propor mudança alguma? Vamos perder. É isso o que eles querem?", questionou.

O ex-ministro também comentou sobre o caso Master, afirmando que a direita "só está calada" por "temer" as repercussões. Ele disse não acreditar que uma delação de Daniel Vorcaro, fundador do banco, possa atingir o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). "Há uma tentativa de sequestrar politicamente essa agenda e jogar o escândalo nas costas do governo. Quem deu a carta-patente ao Master, que deu início a todo esse processo, foi o Banco Central no governo [de Jair] Bolsonaro [PL]", declarou.

Além do Judiciário, Dirceu defendeu reformas nos demais Poderes para "preservar" a democracia. "O Legislativo vai seguir do jeito que está, com as emendas parlamentares? E acha que não vai acontecer nada? Que a casa não vai cair? Daqui a pouco 93 parlamentares vão responder a inquérito policial. Todos os dias [vão ser realizadas] busca e apreensão na casa de parlamentares? As pessoas, nas cidades deles, não percebem quando há enriquecimento injustificável?", questionou, e completou: "O Executivo também tem que passar pela reforma administrativa".

Eleições

José Dirceu ainda abordou a disputa presidencial entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Faltando seis meses para o 1º turno da eleição, marcado para 4 de outubro, levantamentos recentes mostram uma diminuição na distância média entre os dois em um eventual 2º turno.

O ex-ministro criticou Flávio Bolsonaro, insinuando que ele pretenderia "entregar" os recursos naturais do Brasil a Donald Trump (Partido Republicano), presidente dos Estados Unidos. "Vamos colocar o Brasil nas mãos do Flávio Bolsonaro, que vai entregar os nossos recursos naturais ao Trump? Que vai liberar o acesso às terras raras aos EUA? Que vai liberar as big techs? Vamos voltar à órbita exclusiva dos EUA?", indagou.

"O Brasil é uma potência, um dos maiores países do mundo. Flávio Bolsonaro está à altura de governar o país nessa crise mundial? O Lula já mostrou que está", argumentou Dirceu, que ainda considerou Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidato ao Planalto, como estando "à direita" de Flávio.

"E o Flávio agora quer se apresentar como moderado. Mas ele é filho, indicado e preposto de Jair Bolsonaro. O mais provável é que percam, porque nós estamos no governo. Eles é que têm que ganhar de nós", afirmou. O ex-ministro encerrou dizendo que Lula ainda vai "liderar o país" mesmo que perca a eleição, pois não acredita que Flávio Bolsonaro, "mesmo eleito, consiga fazer isso", alertando que "o Brasil está caminhando para uma crise institucional. Alguma reforma vai ter que ser feita".

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