BRASIL EM ALERTA
Datafolha: 68 milhões de brasileiros vivem sob domínio de facções criminosas
Pesquisa, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela a abrangência do controle territorial do crime no país.
Nesta terça-feira, 12 de maio de 2026, uma pesquisa Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revelou que cerca de 68 milhões de brasileiros convivem diretamente com a presença de facções criminosas ou milícias em suas vizinhanças. Este levantamento, que expõe a profunda influência do crime organizado na vida cotidiana, mostra que quase um terço da população vive sob regras e decisões impostas por grupos criminosos, impactando diretamente a dignidade e a liberdade de ir e vir dos cidadãos.
A realidade de milhões é ilustrada pela rotina do motorista de aplicativo Denis Moura, que mapeia as ruas onde pode trabalhar no Rio de Janeiro. Ele descreve a complexidade de navegar por áreas dominadas: “Aqui no final, eu coloquei as ruas que essas eu não posso aceitar corrida de jeito nenhum, nem levar de jeito nenhum. Os de vermelho, eu tenho que ter uma atenção maior e os de azul são os lugares que eu posso ir com mais tranquilidade. Dependendo do lugar: acende a luz do carro, baixa o farol, para, pede permissão para entrar, coisas assim. Então é bem complicado. Bem complicado.”
Moura faz parte dos 68 milhões de brasileiros que convivem com o crime organizado perto de casa. A pesquisa Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, confirmou que a situação é predominante nas capitais e regiões metropolitanas. Para um terço dos entrevistados, criminosos “influenciam muito” as decisões e regras de convivência no bairro.
“As barreiras, a intervenção dos bandidos, da milícia, do tráfico ou quem quer que seja, ela está de uma maneira que a gente não consegue calcular os locais, estão invadindo os bairros. Você está andando no bairro, o prédio que eu fui em Jacarepaguá, a imagem do Google Maps é um condomínio de apartamentos normais, só que o acesso a ele passa por um lugar que já está dominado”, relata Denis Moura.
Em Jacarepaguá, onde vivem aproximadamente 650 mil pessoas, o bairro está estrategicamente localizado entre o Parque Nacional da Tijuca e a praia da Barra, na Zona Sudoeste do Rio. A região é palco de disputas violentas por controle territorial entre milícias e traficantes.
O estudo detalha os principais receios de quem vive sob o domínio das facções, refletindo a constante ameaça à vida e à liberdade:
- Ficar no meio de um confronto armado;
- Ter familiar envolvido com o tráfico;
- Sofrer represálias e punições por denunciar crimes.
Quase 70 milhões de pessoas dizem que facções criminosas ou milícias atuam perto de onde moram, aponta pesquisa — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução
O dono de um posto de combustível, que preferiu não se identificar por segurança, afirma ser obrigado a pagar taxas para manter seu negócio funcionando. “A abordagem deles se alterna: às vezes é milícia, às vezes é tráfico, e eles passam no posto, falam com os gerentes, intimidam. Às vezes vão de moto armados ou então, às vezes, vão de carro. Nós somos obrigados a ter o valor semanal para não acontecer nada com o estabelecimento e com os nossos funcionários”, explica ele, destacando a extorsão como uma rotina.
A pesquisa também aborda o profundo medo da população e as severas restrições ao direito fundamental de ir e vir. Quase 75% dos brasileiros evitam frequentar determinados lugares, e muitos deixam de circular em horários considerados perigosos. O crime limita até mesmo o poder de escolha dos moradores, que são forçados a contratar serviços específicos ou adquirir produtos de marcas impostas pelos criminosos, desrespeitando sua autonomia e economia.
Em outra área do Rio de Janeiro, no Complexo do Alemão, na Zona Norte, integrantes do Comando Vermelho monitoram em tempo real o que ocorre nas ruas de Cabedelo, na Paraíba. Conforme revelado pelo Fantástico no domingo, 10 de maio de 2026, traficantes instalaram câmeras de vigilância pelas ruas, controlando o crime e a rotina dos moradores a partir da capital fluminense.
Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ressalta a expansão: “Com a expansão do Comando Vermelho e PCC, esse modelo mais profissional de crime está se difundindo pelas cidades do interior, para regiões afastadas dos grandes centros urbanos. E essa difusão levou um tipo de criminalidade que usa armamento longo, que tem achacado a população, que tem regras de convivência, e é isso que essa pesquisa mostra.”
Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, enfatiza a urgência da ação: “Nós precisamos recuperar territórios, garantir que o poder público regule as atividades. E falar de território não é só comunidades, favelas e outras regiões. É falar de cidadania, é falar de garantir o ir e vir, ter tranquilidade e, de certa forma, você também pensar a política de segurança pública de forma articulada.”
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