HOMENS EM PAUTA

Curso de Juliano Cazarré e festival ampliam discussão sobre masculinidade

Juliano Cazarré discute papéis masculinos em curso e festival
Juliano Cazarré durante o lançamento do curso "A zúrie", que gerou amplo debate sobre masculinidade.

Iniciativas abordam paternidade, emoções e papéis sociais, mobilizando apoiadores e críticos nas redes. Festival gratuito em 29 de maio de 2026.

O anúncio do curso “A zúrie”, concebido pelo ator Juliano Cazarré, reacendeu um fervoroso debate público sobre masculinidade, relacionamentos e os papéis em evolução de homens e mulheres na sociedade contemporânea. Esta iniciativa, ao lado do próximo festival “Masculinidades” no Museu de Arte do Rio agendado para 29 de maio de 2026, intensifica as discussões sobre expectativas sociais, identidade individual e o profundo impacto nas dinâmicas familiares. A ampla repercussão, que ecoa nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026, sublinha a necessidade urgente de abordar os desafios que os homens enfrentam ao navegar pela vida moderna, da vulnerabilidade emocional às responsabilidades familiares.

O curso “A zúrie”, apresentado como um espaço de debate voltado ao público masculino, reúne influenciadores, escritores e palestrantes alinhados a diversas correntes conservadoras e religiosas. Sua proposta aprofunda-se no comportamento masculino, paternidade, casamento, desenvolvimento pessoal e relações familiares. Este lançamento coincide com um aumento de conteúdos que exploram a masculinidade em plataformas digitais, um movimento que gera tanto forte apoio quanto significativa crítica.

Nas redes sociais, as críticas concentraram-se principalmente na abordagem do curso de “orientar” o comportamento de homens e mulheres dentro das relações afetivas. Comentários acusaram a iniciativa de reforçar visões conservadoras sobre gênero e promover padrões considerados ultrapassados. Por outro lado, apoiadores afirmaram que o projeto busca apenas resgatar valores associados à responsabilidade, família e amadurecimento emocional, procurando oferecer orientação em meio à percepção de confusão social.

O debate ganhou substancial força quando a programação do festival “Masculinidades” se tornou pública. Marcado para 29 de maio de 2026, no Museu de Arte do Rio com entrada gratuita, o evento reúne figuras proeminentes que discutem o comportamento masculino, incluindo o filósofo Luiz Felipe Pondé, o professor Evolui Schöller, o escritor Gary Barker e o médico Manoel Chagas.

Os temas previstos para o festival abrangem paternidade, saúde emocional masculina, relações afetivas, criação dos filhos, sexualidade e os desafios específicos que os homens encontram na sociedade atual. A agenda inclui ainda debates sobre violência, sofrimento emocional e as transformações dos papéis masculinos ao longo das últimas décadas, destacando as complexas pressões internas e externas que os homens enfrentam.

Juliano Cazarré afirma que sua proposta transcende uma mera visão ideológica sobre masculinidade; em vez disso, busca discutir responsabilidades e vínculos familiares. Em uma de suas declarações divulgadas durante o lançamento do projeto, o ator notou um número crescente de homens que se sentem desorientados em relação à própria identidade.

“Mais gente está descobrindo valor no matrimônio, na fidelidade. O que quero propor é: vale a pena casar, ser pai, cuidar da sua família. A resposta ‘redpill’ é o contrário. E o homem ‘desconstruído’, frágil, não defende as mulheres. Se vê uma mulher apanhando, pega o celular e filma”, declarou Cazarré, enfatizando sua visão de uma masculinidade proativa e responsável.

O ator também expressou preocupação com um “esvaziamento” do papel masculino nas relações contemporâneas, criticando o que chamou de perda de referências. Segundo ele, o projeto visa motivar os homens a abraçarem plenamente suas responsabilidades familiares e emocionais, promovendo um senso de propósito e compromisso.

Por outro lado, o escritor Gary Barker, um dos convidados do festival, argumentou que as discussões sobre masculinidade devem ir além de modelos rígidos historicamente impostos aos homens. Ele acredita que muitos padrões tradicionais ainda dificultam que os homens expressem emoções e procurem ajuda psicológica.

“As normas tradicionais ditam: não chore, resolva tudo sozinho. Isso isola os homens e traz consequências severas. A ideia é incentivar uma masculinidade que aceite mudanças, em vez de vê-las como perda. O patriarcado não é apenas um sistema em que homens têm poder sobre mulheres: também implica que homens e certas estruturas têm poder sobre outros homens”, esclareceu Barker, defendendo uma identidade masculina mais flexível e emocionalmente consciente.

O professor Evolui Schöller também comentou a polarização em torno do debate, sugerindo que tanto setores conservadores quanto progressistas muitas vezes tentam impor modelos únicos de masculinidade.

“O risco está quando se tenta impor um modelo único. Há um viés autoritário, tanto em leituras conservadoras quanto progressistas, que buscam padronizar comportamentos e definir o lugar que as pessoas devem ocupar. Isso contraria a própria ideia de diversidade. Idealmente, essas discussões deveriam ajudar a ampliar possibilidades, não a restringi-las”, observou Schöller, destacando a necessidade de um diálogo inclusivo.

Especialistas notaram que o crescimento de iniciativas focadas na masculinidade alinha-se a mudanças sociais relativas aos papéis dos homens na família, no mercado de trabalho e nos relacionamentos afetivos. A crescente proeminência de temas como saúde mental masculina, paternidade ativa e violência doméstica também ampliou o interesse por discussões desse tipo, revelando uma necessidade social de reavaliação.

No entanto, pesquisadores também alertam que um segmento do debate online tem sido cooptado por grupos radicais associados à cultura “redpill”, um movimento crítico ao feminismo e aos relacionamentos modernos. Este tema frequentemente se entrelaça com discursos de ressentimento masculino e resistência a transformações sociais defendidas pelas mulheres, complicando um diálogo construtivo.

Durante o lançamento do curso, Juliano Cazarré explicitamente se distanciou dessa abordagem “redpill”, reiterando sua crença de que os homens devem abraçar a responsabilidade emocional e familiar. “Na verdade, deveríamos pensar no que fazer para sermos transformados em homens capazes de amar, de sermos bons pais, bons maridos”, afirmou o ator, apontando para um caminho construtivo de autoaperfeiçoamento masculino.

Tanto o festival quanto o curso devem continuar a fomentar debates nas próximas semanas, especialmente nas redes sociais, onde o tema da masculinidade contemporânea segue ganhando significativa tração entre influenciadores, pesquisadores, figuras religiosas e produtores de conteúdo, refletindo sua relevância duradoura.

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